A matemática desta eleição tem uma delicadeza cruel: quando se pesa a amostra e a margem de erro, Ricardo Ferraço aparece um ponto à frente de Lorenzo Pazolini; quando se faz a média simples. Entre uma conta e outra, some a certeza — essa mercadoria que as campanhas costumam distribuir antes de possuir.
É esse o dado mais honesto do agregador do Centro de Inteligência de Campanhas e Cidades (CiC), atualizado nesta quarta, 9 de setembro: não há, até aqui, um candidato em condições de tratar a liderança como propriedade. O levantamento reúne seis pesquisas estaduais publicadas desde 16 de agosto e 8.228 entrevistas. Na média técnica, Ricardo tem 36,08%; Lorenzo, 35,03%.
Média não é pesquisa nova. É uma forma de pôr levantamentos diferentes na mesma mesa, respeitando o tamanho da amostra e a margem de erro declarada por cada instituto. Não existe, ali, uma margem combinada nem uma autorização para transformar aritmética em profecia. O agregador organiza a informação; não absolve o analista da obrigação de interpretá-la.
E os números, lidos sem a pressa das manchetes, contam uma história menos confortável. Ricardo lidera em três dos seis levantamentos; Lorenzo lidera nos outros três. Nos resultados individuais, Ricardo varia de 28,7% a 42%; Lorenzo, de 28% a 41%. Não há uma linha reta. Há uma faixa larga, móvel, em que a posição de cada candidato depende do método, do momento da coleta, da pergunta e da capacidade de cada campanha de ocupar a cabeça do eleitor.
Um instituto encontrou Ricardo com 42% e Lorenzo com 33%. Outro encontrou Lorenzo com 41% e Ricardo com 28,7%. A tentação, compreensível e quase infantil, é chamar de boa a pesquisa que traz boa notícia e de ruim aquela que devolve a realidade com menos gentileza. É assim que os dados deixam de ser instrumento de decisão e passam a funcionar como decoração de campanha. A divergência, entretanto, não é um defeito a ser escondido. É a própria informação sobre uma eleição que ainda não se deixou capturar por uma única narrativa.
Helder Salomão aparece com 10% na média técnica, embora alcance 18,4% em um dos levantamentos. Brancos e nulos somam 5,8%; indecisos e eleitores que não responderam, 10,3%. Quase 29% da amostra, portanto, está fora dos dois primeiros nomes quando se somam a terceira candidatura, os demais concorrentes, o voto branco ou nulo e a indecisão. Isso não é resto estatístico. É o espaço onde a eleição ainda pode mudar de forma.
No confronto direto, Ricardo conserva uma vantagem média de 4,2 pontos: 43% contra 38,8% de Lorenzo. A diferença merece ser levada a sério, mas não permite descanso. Ricardo lidera em três das cinco pesquisas; Lorenzo aparece à frente nas outras duas. No levantamento do Instituto França incorporado na atualização mais recente, Lorenzo tem 40,5%, contra 39,82% de Ricardo. O confronto, como a eleição, não oferece uma fotografia única. Oferece movimentos.
Há 10,9% de indecisos no segundo turno, além de 7,3% de brancos e nulos. A vantagem média de Ricardo é, portanto, uma posição a ser trabalhada — não uma sentença a ser comemorada. O primeiro turno decidirá quem chegará à disputa final; o segundo exigirá que esse candidato encontre, fora do seu círculo de preferência, razões capazes de converter simpatia morna em voto.
Foi para separar essas coisas que construí o CiC, plataforma de inteligência de campanhas e mandatos. O agregador não promete adivinhar o resultado, nem transforma seis levantamentos em uma sétima pesquisa. Faz um trabalho menos vistoso e mais útil: põe os números na mesma mesa, informa o peso que cada estudo recebeu, preserva a faixa observada e deixa à vista aquilo que a manchete gostaria de esconder — a eleição continua aberta.
Em política, a média serve para retirar o candidato do delírio, não para instalá-lo no Palácio. Quem lê 36% contra 35% como uma consagração não leu os números; leu apenas a própria vontade. O Espírito Santo tem, por enquanto, dois candidatos na frente, uma terceira força com espaço para respirar e uma parcela expressiva do eleitorado sem compromisso firmado com ninguém. A liderança existe. O dono, não









