O Brasil transformou-se na maior fábrica global de fundos de investimento regulados. Dados da Associação Internacional de Fundos de Investimento (IIFA), representados no país pela Anbima, mostram que o total dessas estruturas no mercado nacional saltou de 14,4 mil para 32,3 mil no primeiro trimestre de 2026 — quase o dobro do segundo colocado, a Coreia do Sul (17,3 mil). Contudo, a expansão acelerada de veículos como FIDCs (direitos creditórios) e FIPs (participações), aliada a estruturas pouco transparentes, vem acendendo alertas regulatórios e policiais no país e gerando fortes abalos no ecossistema financeiro do Espírito Santo.
O reflexo local dessa vulnerabilidade estrutural é reconhecido na crise da Apex Partners, uma das principais plataformas de investimento e mercado de capitais do Espírito Santo. Investigações e auditorias apontaram inconsistências contábeis em veículos geridos pela empresa, revelando um passivo estimado em quase R$ 1 bilhão. O episódio resultou no afastamento dos principais executivos do grupo, incluindo o presidente e o diretor financeiro (CFO), além do rompimento de investidores de peso, como a Meca Imobiliária (do empresário Américo Buaiz Filho), que formalizou o desligamento do veículo de investimento ABM 2.
Estrutura dos Fundos
Segundo a Anbima, três tipos de fundos respondem por 47,2% do crescimento da indústria no país:
FIDCs (Direitos Creditórios): Com alta acumulada de 810% desde 2014, atingiram R$ 960 bilhões em patrimônio gerido. O veículo substituiu o crédito bancário tradicional ao comprar dívidas a receber (como duplicatas e carnês). O Comitê de Estabilidade Financeira do Banco Central alertou que o uso em cadeias múltiplas dificulta a medição de riscos no mercado;
FIPs (Participações): Voltados ao aporte em empresas listadas ou fechadas. Usados em cadeia, podem ocultar o investidor final ou ser vinculados a empreendimentos sem lastro claro;
Multimercados: Apresentam alta flexibilidade de alocação, misturando ações, renda fixa, crédito, derivativos e cotas de outros fundos com alavancagem.
Especialistas e juristas destacam que a aprovação da Lei da Liberdade Econômica (2019) e a Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliares (CVM) simplificaram a criação desses instrumentos e impulsionaram gestoras independentes. No entanto, a CVM enfrentou limitações de fiscalização frente à velocidade do boom financeiro.
O advogado Bruno Becker, professor da ESPM e pesquisador da USP, aponta que 67% dos fundos no Brasil têm até cinco cotistas e 44% possuem apenas um.
“Atua como organização patrimonial, como holding, mas não como instrumento de poupança coletiva. Chamam-se fundos porque alguém assim os registrou, e a CVM aceitou o registro”, analisa.
Impacto na confiança do mercado capixaba
O caso da Apex Partners tornou-se um exemplo prático dos riscos apontados por especialistas em relação à falta de transparência em redes complexas de investimento. Como a plataforma atuava fortemente na captação de recursos com famílias de alto patrimônio e grandes grupos empresariais capixabas, o rombo e a apuração de irregularidades abalaram a confiança no mercado local de private equity.
A complexidade dessas estruturas também tem atraído a atenção de órgãos de controle e forças de segurança no país. Recentemente, operações da Polícia Federal (como a Operação Heritage e a Operação Carbono Oculto) identificaram o uso de FIDCs e FIPs para dissimulação de patrimônio e lavagem de dinheiro em diferentes estados.
O avanço de investigações sobre fundos em nível nacional e episódios regionais de grande impacto, como o da Apex Partners, vêm levando grandes corporações e investidores a intensificar exigências de governança, auditoria independente e rastreabilidade sobre a origem do capital e a idoneidade das gestoras antes de fechar negócios. (com informações da Folhapress)










