Fórmulas, equações, gráficos e uma pergunta que atravessa gerações de estudantes: por que Matemática parece tão difícil? A dificuldade com a disciplina nem sempre está relacionada apenas à capacidade de fazer cálculos. Medo de errar, ansiedade e um aprendizado baseado na repetição, sem a compreensão dos conceitos, também podem transformar os números em verdadeiros vilões da vida escolar.
A percepção de que é preciso “nascer bom em Matemática” pode agravar o problema. Quando o estudante passa a acreditar que não tem habilidade para a disciplina, erros que deveriam fazer parte do processo de aprendizagem podem ser encarados como uma confirmação de que aquele conteúdo simplesmente “não é para ele”.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2022, apenas 27% dos brasileiros de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em Matemática, considerado o patamar mínimo para interpretar e representar matematicamente situações simples.
Na média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o percentual chegou a 69%. O Brasil também apareceu entre os dez países e economias participantes com os maiores índices de ansiedade relacionada à Matemática.
Decorar fórmula não significa compreender
Um dos problemas está na diferença entre conseguir reproduzir uma operação e efetivamente compreender o raciocínio por trás dela.
Um aluno pode decorar uma fórmula, aplicá-la corretamente durante uma prova e ainda assim ter dificuldade para explicar por que chegou àquele resultado ou utilizar o mesmo conceito diante de uma situação diferente.
Para o mestre em Matemática e gerente de Negócios Acadêmicos da CASIO Brasil, Jalman Lima, o aprendizado precisa ir além da execução dos cálculos.
“Um estudante pode, por exemplo, saber aplicar uma fórmula sem conseguir explicar o que muda quando uma das variáveis aumenta, por que determinado resultado faz sentido ou como o mesmo conceito aparece em uma tabela, em um gráfico ou em uma expressão algébrica”, explica.
Nesse processo, atividades que incentivem os alunos a formular hipóteses, interpretar informações e justificar respostas podem ajudar a desenvolver uma relação diferente com a disciplina.
Calculadora atrapalha ou ajuda a aprender?
O uso da calculadora em sala de aula também costuma despertar uma antiga discussão: recorrer à ferramenta faz o estudante raciocinar menos?
Quando utilizada apenas para obter uma resposta pronta, ela pode limitar parte do processo de aprendizagem. Mas, inserida em uma atividade que exige interpretação e análise, pode assumir outra função.
Nos primeiros anos escolares, calculadoras básicas podem ser usadas em exercícios envolvendo estimativas, cálculo mental e raciocínio lógico. Conforme os conteúdos avançam, as científicas podem auxiliar na exploração de porcentagens, funções, trigonometria, estatística e probabilidade.
A ferramenta também permite que o aluno teste diferentes possibilidades sem gastar a maior parte do tempo realizando operações repetitivas.
Uma estratégia é dividir o exercício em três momentos: prever, testar e explicar. Antes de utilizar a calculadora, o estudante precisa antecipar o que acredita que acontecerá. Depois, testa a hipótese e, por último, explica o resultado encontrado.
“O ponto central é que a atividade não termine no número apresentado pela tela. O estudante precisa registrar estratégias, confrontar resultados, justificar escolhas e comunicar conclusões. A tecnologia agiliza uma parte do processo, mas a construção de sentido continua sendo humana e pedagógica”, afirma Jalman.
Errar também faz parte
Mudar a relação dos estudantes com a Matemática passa ainda pela forma como o erro é encarado. Se cada resposta incorreta for interpretada apenas como fracasso, a tendência é que alguns alunos desenvolvam insegurança e evitem participar das atividades.
Em uma abordagem mais investigativa, o erro pode servir para descobrir em qual etapa do raciocínio surgiu a dificuldade e quais caminhos poderiam levar a outra resposta.
O mesmo princípio vale para a tecnologia. Calculadoras e outras ferramentas podem reduzir o tempo gasto em determinadas operações, mas não substituem a capacidade de interpretar um problema, escolher uma estratégia e avaliar se o resultado encontrado é coerente.
“A melhor utilização ocorre quando a ferramenta amplia o pensamento, e não quando encerra a atividade. A pergunta não deve ser apenas ‘qual foi o resultado?’, mas ‘como você chegou a ele, por que ele faz sentido e o que ele nos permite concluir?’”, conclui o especialista.










