Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Valoriza também é organizar

O mês do servidor público convida ao reconhecimento daqueles que sustentam, com seu trabalho cotidiano, o funcionamento das instituições. Mas a valorização não pode permanecer limitada às homenagens, por mais justas que sejam. Precisa ser traduzida em decisões administrativas, planejamento e condições concretas para o adequado exercício das funções.

Valorizar também é organizar.

Uma instituição que deseja respeitar seus servidores deve organizar o trabalho com critérios claros, distribuir responsabilidades de maneira equilibrada, definir fluxos compreensíveis e oferecer segurança para que cada profissional saiba o que deve fazer, de que forma sua atuação se relaciona com as demais unidades e quais resultados dele são esperados.

A desorganização tem um custo humano.

Procedimentos indefinidos, tarefas sobrepostas, decisões contraditórias, excesso de retrabalho e distribuição inadequada da força de trabalho não produzem apenas perda de eficiência. Também geram insegurança, desgaste emocional e sensação de que o esforço empregado não alcança o resultado correspondente.

Por essa razão, aperfeiçoar a organização administrativa constitui uma política de valorização das pessoas.

Quando os processos de trabalho são bem definidos, o servidor deixa de gastar energia tentando descobrir caminhos informais para cumprir suas atribuições. Quando as responsabilidades estão claramente distribuídas, reduzem-se os conflitos entre unidades. Quando existem prioridades institucionais conhecidas, torna-se possível direcionar os esforços para aquilo que realmente precisa ser entregue.

Organizar não significa engessar.

Parâmetros objetivos devem oferecer orientação e segurança, sem eliminar a capacidade de iniciativa. Uma Administração madura estabelece regras suficientemente claras para assegurar impessoalidade e continuidade, mas também reconhece o conhecimento de quem executa as atividades e permite que soluções sejam aperfeiçoadas a partir da experiência cotidiana.

A valorização profissional também exige previsibilidade.

A carreira pública não pode depender de providências ocasionais ou de decisões tomadas apenas quando os problemas se tornam urgentes. Promoções, progressões, desenvolvimento profissional e demais direitos funcionais devem integrar o planejamento permanente da instituição, com critérios definidos, informações confiáveis e recursos orçamentários adequadamente previstos.

Reservar espaço no orçamento para proteger os aspectos financeiros da carreira não constitui concessão administrativa. Representa planejamento responsável e respeito às regras que organizam a vida funcional dos servidores.

O orçamento revela prioridades. Quando a Administração estima corretamente os impactos das políticas de pessoal e prepara as condições para seu cumprimento, demonstra que a valorização não está restrita ao discurso. Ela passa a integrar a programação institucional e a orientar escolhas concretas.

Essa responsabilidade deve conviver, naturalmente, com os limites fiscais, com a sustentabilidade das despesas e com o dever de equilíbrio das contas públicas. Valorizar com responsabilidade significa conciliar o reconhecimento dos direitos funcionais com uma política financeiramente segura, capaz de permanecer ao longo do tempo.

A atual Administração do Tribunal de Justiça, presidida pela Desembargadora Janete Vargas Simões, vem procurando consolidar essa compreensão. As medidas de recomposição remuneratória, a atualização dos benefícios, a atenção às promoções e o aperfeiçoamento de funções essenciais ao funcionamento das unidades demonstram que a política de pessoal deve ser tratada como parte da estratégia institucional.

Entretanto, a valorização não se resume à dimensão financeira.

Remuneração adequada, carreira protegida e direitos observados são indispensáveis. Mas o ambiente no qual o trabalho é realizado também influencia a satisfação profissional, a qualidade das entregas e a saúde das pessoas.

É necessário, portanto, fortalecer a Secretaria de Gestão de Pessoas para que sua atuação ultrapasse o processamento ordinário da vida funcional. Uma política moderna de gestão de pessoas deve reunir informações, planejar necessidades, acompanhar carreiras, apoiar gestores, desenvolver competências e oferecer respostas adequadas às diferentes fases da trajetória profissional.

Esse aperfeiçoamento exige processos mais simples, dados funcionais consistentes e canais capazes de orientar o servidor com clareza. Questões recorrentes não devem depender de interpretações diferentes ou de sucessivos encaminhamentos entre unidades. A informação funcional precisa ser segura, acessível e uniforme.

Também é indispensável desenvolver uma visão mais precisa sobre a distribuição da força de trabalho. Algumas unidades convivem com sobrecarga, enquanto outras podem possuir atribuições, estruturas ou quantitativos que já não correspondem às necessidades atuais. Corrigir essas diferenças exige critérios técnicos, dados confiáveis e compreensão das particularidades de cada área.

Alocar adequadamente as pessoas não significa tratá-las como números. Significa reconhecer suas competências, considerar a complexidade das atividades e evitar que a insuficiência ou a inadequação da força de trabalho comprometa tanto a saúde dos servidores quanto a qualidade dos serviços.

A dimensão psicossocial merece atenção especial.

O trabalho no Poder Judiciário envolve responsabilidades elevadas, contato frequente com conflitos humanos, pressão por resultados e necessidade permanente de precisão. Essas características podem produzir desgaste que não deve ser ignorado pela organização.

A atenção psicossocial precisa integrar a política institucional de gestão de pessoas, com atuação preventiva, apoio técnico e capacidade de identificar situações que afetem o ambiente de trabalho. Não se trata apenas de intervir quando o adoecimento já se encontra instalado, mas de compreender fatores organizacionais que podem favorecê-lo e agir sobre suas causas.

Cuidar da saúde no trabalho também significa preparar lideranças.

Gestores influenciam diretamente o clima das equipes, a distribuição das tarefas e a forma como dificuldades são enfrentadas. Por isso, precisam receber formação para orientar, comunicar decisões, administrar conflitos, reconhecer desempenhos e identificar sinais de sobrecarga.

A liderança não deve ser exercida apenas com base na experiência individual. Ela também exige competências que podem e devem ser desenvolvidas.

A modernização da gestão de pessoas pressupõe, ainda, reconhecer o mérito de quem aperfeiçoa rotinas, compartilha conhecimento e contribui para resultados coletivos. O bom desempenho não se limita ao cumprimento mecânico de tarefas. Manifesta-se também na capacidade de cooperar, propor soluções e preservar a qualidade do serviço público.

Ao mesmo tempo, critérios de reconhecimento precisam ser transparentes e impessoais. A ausência de parâmetros pode transformar o mérito em percepção subjetiva e produzir injustiças. Valorizar exige reconhecer, mas exige igualmente assegurar que esse reconhecimento seja orientado por critérios compreensíveis e aplicáveis a todos.

Existe, portanto, uma relação direta entre organização e respeito.

Uma Administração organizada oferece maior segurança funcional, reduz incertezas, permite planejamento pessoal e profissional, distribui melhor as responsabilidades e cria condições para que o trabalho seja realizado com qualidade. Ao fazer isso, protege simultaneamente o servidor, a instituição e o cidadão.

O Tribunal de Justiça dos Capixabas somente poderá cumprir plenamente sua missão se contar com pessoas qualificadas, respeitadas e amparadas por uma estrutura administrativa eficiente.

No mês do servidor público, é justo reconhecer o trabalho realizado. Mais importante, porém, é renovar o compromisso de transformar esse reconhecimento em políticas permanentes: carreira protegida, direitos observados, orçamento responsável, processos organizados, liderança qualificada e atenção efetiva à saúde física e psicossocial.

Valorizar o servidor é assegurar que seu trabalho tenha condições de produzir resultados. É substituir improvisações por critérios, incertezas por planejamento e sobrecarga por uma distribuição mais racional das responsabilidades.

Uma instituição demonstra quanto valoriza suas pessoas pela forma como organiza o trabalho, planeja o futuro e cuida de quem torna possível cada uma de suas entregas.

Anselmo Laghi Laranja
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Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.

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