Organicidade material em Ana Paula Oliveira

Ao nos voltarmos para no mundo da arte contemporânea, em seus vários e, às vezes, pouco acessíveis cenários, as ideias de Jane Bennett nos dão um referencial para pensarmos a produção artística a partir de uma concepção relacional da matéria, na qual objetos, ferramentas, organismos, dispositivos técnicos e ambientes já não são mais compreendidos como suportes passivos disponíveis para nós, os humanos. Quando ela formula a ideia de “matéria vibrante”, o que temos seria a proposta de que a agência floresce das interações entre elementos humanos e não humanos; isso permitiria encarar as obras de arte como agenciamentos compostos por múltiplas forças materiais. Nessa perspectiva, nós deslocamos o foco da análise da intenção de artistas para as relações estabelecidas entre materiais, processos, tecnologias, instituições, espaços expositivos e públicos. Assim, é possível compreender os trabalhos de arte como resultado de uma rede dinâmica de interdependências.

Foi mais ou menos por aí que decidi abordar esse conjunto de trabalhos de Ana Paula Oliveira, exposto na OÁ Galeria, sob o título de “Pensamentos concretos para coisas abstratas”. É certo que há outros caminhos para nos entendermos com seus trabalhos, principalmente se os considerarmos parte de conjunto mais amplo de colagens, objetos e instalações que a artista desenvolve com consistência há mais de vinte anos. Nem sempre é justo supor essa longa integridade processual. Afinal, cismas, reviravoltas, abandonos e suspensões são frequentes em qualquer trajetória poética. Ana Paula Oliveira possui as suas, mas é difícil ignorar certa continuidade na dinâmica com os materiais.

Outro ponto é que esse enquadramento teórico tem sido particularmente relevante quando precisamos melhor compreender investigações em torno de práticas processuais, instalações, arte ambiental, arte ecológica, bioarte, arte digital e propostas que exploram a participação de organismos vivos, resíduos, substâncias químicas, sistemas computacionais e infraestruturas técnicas. Em vez de privilegiar abordagens centradas na representação, a já referida Jane Bennett favorece leituras que consideram a capacidade dos materiais de modificar processos perceptivos, afetivos e políticos. Nesse caminhos, nós podemos reconhecer que a experiência estética decorre da coprodução entre diferentes agentes materiais. Ou seja, a materialidade deixa de ocupar uma posição secundária em relação ao significado da obra e passa a constituir uma dimensão ativa da sua produção de sentido.

Com uma pequena curva crítica, poderíamos falar sobre agência da matéria e pós-humanismo, novos materialismos e ecologia. Embora haja complicadores e dissonâncias no entendimento do que venha a ser pós-humanismo e sua crítica dependeria de apontar para conjuntos de autores específicos, esse apontamento oferece ferramentas e possibilidades para analisarmos práticas artísticas que problematizam as fronteiras entre natureza e cultura, organismo e tecnologia ou humano e ambiente. Sob essa lógica, as propostas de arte podem ser compreendidas como um acontecimento material em permanente transformação, cuja existência depende da interação entre corpos, objetos, condições ambientais, dispositivos técnicos e contextos institucionais. Isso nos ajuda a dar alguns passos para a renovação das abordagens críticas da arte contemporânea, no sentido de propormos modelos analíticos que privilegiem a circulação da agência, a instabilidade dos processos materiais e a constituição relacional da experiência estética.

No caso de Ana Paula Oliveira, o seu trato com as plantas, sua horta e seu quintal, seu forno e os pães que nele crescem, a dinâmica com as coisas vivas, devem ser pesados junto da compreensão de que nos alimentamos de paisagem. Sem considerarmos essa organicidade, o elemento paisagem em seus trabalhos pode parecer alheio. Mas quando compreendemos a interdependência entre elemento e panorama, nossa percepção adota uma engenharia mais refinada. Ao longo de mais de duas décadas, seus trabalhos surgiram como instalações e objetos que hoje são também colagens. Entendo que certo pensamento escultórico permaneceu de fase para fase, com mudanças de escala e superfícies, mas sem deixar de lado as questões em torno das dinâmicas dos materiais.

Nas colagens, elementos de origens diferentes (metal, couro, papel, tinta, restos de ferramentas) aparecem cada um com seu próprio histórico de uso. Esse encontro entre materiais remete a uma experiência ligada ao hábito e ao cotidiano e, em seu interior, às memórias e aos registros. Se essas colagens ampliam, por outro caminho, a atenção que a artista dedica à paisagem, pouco se trata do reconhecível, mas de camadas, cortes e depósitos que se acumulam na superfície das peças; cada forma resulta de um processo que a antecede e que continua depois dela, sem ponto de origem ou de chegada evidentes.

Nas peças recentes, fragmentos de desenhos técnicos, esquemas construtivos e anotações surgem parcialmente cobertos por tinta, metal ou papel. Engenharia, arquitetura e cartografia comparecem como sistemas voltados à precisão, mas convivem, aqui, com marcas de desgaste e deslocamento que colocam esses sistemas sob uma suspeita carinhosa.

Organicidade material em Ana Paula Oliveira
Foto de Alana de Oliveira

Essas observações talvez ajudem a entender por que “Pensamentos concretos para coisas abstratas reúne”, sob um único título, dois termos que a tradição costuma separar. Cada peça funciona como ponto de encontro entre situações de origens diferentes, sem que uma anule à outra. Essa condição devolve à casa, à horta e ao quintal da artista um papel central na leitura de seu trabalho: são espaços onde a paisagem se constitui aos poucos, por camadas e depósitos, e onde qualquer forma de conhecimento chega depois do contato com a terra.

Rodrigo Hipólito
Rodrigo Hipólito
Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Escritor, historiador da arte, crítico e podcaster. Professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM-UFES, 2015-2020), do Departamento de Comunicação (DEPCOM-UFES, 2023-2025) e dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Faculdade Europeia de Vitória (FAEV, 2015-2023). Editor da Revista do Colóquio e redator do site Nota Manuscrita.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas em Fé Pública

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]