Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.
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Performance: o corpo como obra de arte

A performance talvez seja uma das linguagens que mais radicalmente deslocaram nossa compreensão sobre o que pode ser uma obra de arte. Nela, o artista não necessariamente entrega ao público um objeto destinado à permanência. Muitas vezes, oferece uma ação, uma presença, um acontecimento. O corpo deixa de ser apenas representado — como durante séculos ocorreu na pintura e na escultura — e passa a ocupar o centro da experiência artística. É matéria, linguagem, suporte e, simultaneamente, território de conflito.

Essa transformação não aconteceu de forma repentina. Ao longo do século XX, diferentes experiências artísticas começaram a questionar os limites tradicionais da obra. As vanguardas históricas incorporaram ações, provocações, leituras, gestos e acontecimentos públicos às suas práticas. Posteriormente, os happenings, o Fluxus e diferentes manifestações da arte conceitual ampliaram esse campo, aproximando cada vez mais arte e vida.

A performance estabelece uma relação particular com o tempo. Uma pintura ou uma escultura pode permanecer durante séculos diante de sucessivas gerações. Uma ação performática, ao contrário, acontece em determinado espaço e durante determinado período. Quem esteve presente compartilhou uma experiência que não poderá ser integralmente repetida. Fotografias, vídeos, relatos e documentos podem preservar seus vestígios, mas dificilmente reproduzem a experiência de estar diante do acontecimento.

É nessa condição que reside uma das grandes potências da performance: sua existência entre presença e desaparecimento. A obra pode estar no gesto realizado, no corpo do artista, na relação estabelecida com o público, na memória daqueles que testemunharam a ação e também nos documentos que posteriormente permitem sua circulação. Sua natureza escapa, portanto, à ideia convencional de uma obra delimitada por um objeto.

Performance: o corpo como obra de arte

Durante grande parte da história da arte ocidental, o corpo foi um objeto privilegiado de representação. Dos modelos construídos pela Antiguidade às imagens religiosas medievais, dos estudos anatômicos renascentistas às rupturas promovidas pela modernidade, corpos foram pintados, esculpidos, idealizados, fragmentados e reinterpretados. Na performance, ocorre uma transformação fundamental: o corpo real ingressa diretamente no espaço da obra.

Essa presença modifica a relação com o espectador. Já não estamos necessariamente diante da representação de uma ação, mas diante da própria ação. O tempo da obra coincide com o nosso tempo. O espaço ocupado pelo artista pode ser o mesmo ocupado pelo público. E aquilo que acontece diante de nós carrega as contingências próprias de qualquer acontecimento: duração, imprevisibilidade, tensão, desconforto, participação e, em alguns casos, risco.

Marina Abramović tornou-se um dos nomes mais conhecidos desse território ao transformar resistência física, silêncio, vulnerabilidade, limites corporais e relação com o espectador em elementos de sua produção. Mas a história da performance é muito mais extensa e atravessa experiências profundamente distintas, nas quais artistas passaram a compreender o próprio corpo como possibilidade de linguagem.

No Brasil, essa discussão ganhou características particulares. Flávio de Carvalho antecipou questões posteriormente associadas à performance ao transformar seu próprio deslocamento pela cidade em experiência artística e social. Décadas depois, Lygia Clark e Hélio Oiticica contribuíram decisivamente para desestabilizar a separação convencional entre obra e espectador. O público deixa progressivamente a posição exclusivamente contemplativa e passa a vestir, tocar, manipular, percorrer e construir a experiência artística.

 

Os Parangolés de Oiticica são fundamentais para compreendermos essa transformação. Corpo, movimento, tecido, espaço e experiência tornam-se inseparáveis. A obra deixa de depender somente do olhar e solicita uma relação corporal. Lygia Clark, por caminhos distintos, também deslocou a arte do território estritamente visual, fazendo da participação sensorial um elemento central de diferentes momentos de sua produção.

Essas experiências demonstram que a performance não pode ser compreendida simplesmente como alguém realizando determinada ação diante de uma plateia. Seu alcance é muito mais profundo. Ela questiona a própria definição de obra, modifica a posição tradicionalmente atribuída ao artista e transforma o espectador em elemento ativo da experiência.

Existe, nesse sentido, uma dimensão especialmente instigante na performance: ela frequentemente nos obriga a reconhecer nossa própria presença. Diante de determinadas ações, permanecer, aproximar-se, afastar-se, participar ou recusar a participação tornam-se decisões significativas. O espectador deixa de ser invisível diante da obra.

Isso significa que a performance não coloca apenas o corpo do artista em questão. Coloca também o nosso.

Tal característica ajuda a compreender sua força como linguagem para discutir algumas das grandes questões sociais contemporâneas. Gênero, raça, sexualidade, violência, memória, identidade, pertencimento e relações de poder encontraram na performance um território particularmente fértil porque nenhum corpo existe inteiramente fora da sociedade. Todo corpo é observado, interpretado, classificado e submetido a códigos culturais. Quando o artista transforma o corpo em linguagem, essas estruturas também podem ser expostas.

Mas seria equivocado reduzir a performance à provocação. Nem toda ação radical possui necessariamente densidade artística. O choque pelo choque rapidamente perde força. A potência de uma performance está na articulação entre pensamento, gesto, contexto, espaço, duração e presença. Uma obra consistente precisa produzir algo que ultrapasse seu impacto imediato e permaneça como questão depois que a ação terminou.

Performance: o corpo como obra de arte

Essa reflexão ganha importância particular em nosso tempo. As redes sociais modificaram profundamente a circulação das performances. Ações concebidas para determinada duração e contexto passam a ser conhecidas por fotografias ou vídeos de poucos segundos. Retirado de sua circunstância original, um fragmento pode transformar uma experiência complexa em simples curiosidade visual, espetáculo ou motivo de indignação.

Compreender uma performance exige contexto. É necessário perguntar quem realiza aquela ação, onde ela acontece, em que momento histórico está inserida, quais relações estabelece com aquele espaço e quais questões procura mobilizar. Sem essas perguntas, corre-se o risco de julgar apenas a superfície de uma linguagem que frequentemente depende de relações muito mais complexas.

Há ainda um paradoxo fascinante. A performance pode desaparecer fisicamente e, mesmo assim, permanecer culturalmente. Algumas ações realizadas há décadas continuam sendo estudadas, discutidas e reinterpretadas porque produziram questões capazes de sobreviver ao instante em que ocorreram. A efemeridade, portanto, não significa ausência de memória. Muitas vezes, justamente porque algo não pode ser recuperado integralmente, sentimos necessidade de documentá-lo, narrá-lo e reinterpretá-lo.

A performance nos recorda que a experiência estética não depende obrigatoriamente da existência de um objeto permanente. Uma obra pode ser encontro, duração, movimento ou gesto. Pode existir durante poucos minutos e permanecer durante décadas na memória coletiva e na história da arte.

Em uma sociedade profundamente orientada pela produção, pelo consumo e pela circulação incessante de objetos e imagens, existe algo particularmente provocador em uma linguagem cuja matéria fundamental pode ser apenas um corpo presente diante de outros corpos.

Talvez por isso a performance continue desconcertante mesmo depois de décadas de reconhecimento institucional. Museus passaram a incorporá-la, universidades fizeram dela objeto de investigação e arquivos procuram preservar seus registros. Ainda assim, alguma coisa nela permanece resistente à completa institucionalização.

Quando o corpo se transforma em linguagem, a arte deixa de estar apenas diante de nós. Ela passa a ocupar o mesmo espaço, o mesmo tempo e a mesma realidade de quem a observa. E talvez seja justamente nessa aproximação, muitas vezes incômoda, que a performance preserve uma de suas maiores forças: fazer da presença uma forma de pensamento.

Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador , professor, mestre em Artes e doutorando em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com atuação nas relações entre arte, cidade e memória. Pesquisador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA)/Ufes e especialista em arte pública.

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