João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

O coronel Bimbim

Rogério Medeiros é um jornalista de grande talento. Durante décadas, foi o principal repórter político do Espírito Santo. De sua velha máquina de escrever, substituída pelos computadores atuais, saíram os mais vigorosos textos de nosso jornalismo. Antes de adoecer, manteve participação no portal eletrônico que criou, o Século Diário. Mas o que nem todos sabem é que, antes da fase digital, ele havia criado uma revista chamada justamente Século, na virada do século XXI.

Na revista Século, Rogério escreveu, entre muitas outras matérias, seus textos cheios de vida, com muitas histórias fortes de grandes coronéis capixabas, que eram chefes políticos poderosos e violentos que animavam as disputas eleitorais do nosso interior. Como personagem central do imaginário político brasileiro, o coronel sobreviveu ao próprio coronelismo como sistema político, e suas práticas inundaram nossa vida social por décadas. Hoje, os traços da violência são menos evidentes do que no passado, quando éramos mais rurais e eles estiveram muito presentes no dia a dia das cidades.

Um dos maiores representantes dessa forma de fazer política, sempre associada à violência, foi certamente o Coronel Bimbim, cuja vida como homem público foi tema de uma reportagem de Rogério Medeiros na edição da revista Século de novembro de 2001. Nela, o repórter visitou o Vale do Rio Doce, região em que reinaram alguns desses temidos coronéis, para pesquisar elementos da vida de Secundino Cypriano da Silva, o coronel Bimbim.

Rogério registra que Bimbim mandava e desmandava em grandes faixas dos territórios disputados por capixabas no Vale do Rio Doce. Reinou por quase 40 anos, até morrer vítima de um problema cardíaco na metade de seu mandato de prefeito de Aimorés, cidade mineira que faz divisa com Baixo Guandu, no Espírito Santo. Um mandato conquistado com muito sangue, pois ele não admitia que seus adversários tivessem paz, a não ser a paz dos cemitérios. “Adversário é inimigo, e inimigo a gente não perdoa, mata” era a sua máxima política.

Ele era senhor absoluto da vida e da morte dos habitantes da região, tanto que um de seus sobrinhos-netos disse à reportagem que “não caía uma folha de uma árvore em seu território de mando que não obedecesse ao um desejo seu”. Eram assim os coronéis daqueles tempos, quando uma ordem não obedecida custava a vida, quando uma traição em período eleitoral custava muito caro. Foi assim de 1920 a meados da década de 1960, quando o Coronel Bimbim foi o senhor absoluto do Vale do Rio Doce.

Um afilhado do coronel, ouvido por Rogério, conhecido como Criatura, residente em Barra do São Francisco, conta como funcionava a justiça de seu padrinho. Havia um homem na região de Afonso Cláudio, que faz fronteira com Aimorés, estuprando mulheres, e elas não denunciavam o autor, com medo de represálias; todas atribuíam o crime a uma certa Mula Doida. Até que uma dela, mais velha, contou a Bimbim quem era o estuprador. Ele mandou seus homens buscarem o sujeito para ser punido. Ao invés de matá-lo, decepou uma de suas orelhas, marcando-o para o resto de sua vida e tornando-o, de fato, no Mula Doida da localidade.

Em 1958, ele disputou as eleições e perdeu por apenas 86 votos. Sua derrota foi atribuída às urnas do distrito de Mundo Novo, onde seus jagunços foram impedidos pela polícia de tomar conta delas, como andavam fazendo por toda parte, e ele teve apenas 12 votos, enquanto seu adversário, 402. O Cabo Machadinho colocou os homens de Bimbim para fora do local.  Dias após o resultado das eleições, o prefeito que havia conseguido eleger seu sucessor foi assassinado na cidade capixaba de Baixo Guandu por um pistoleiro de fora do Estado.

Conta Rogério que o principal apoiador de seu adversário também pagou caro a façanha. Em sua propriedade, galinhas, porcos e bois foram aparecendo mortos nos terreiros e pastos. Proibiu que todos comprassem no armazém que tinha na fazenda e, por fim, mandou incendiar sua casa e sua loja comercial. Os jagunços tomaram conta das estradas e da estação de trem para impedir a saída de seu inimigo. Por fim, ele conseguiu fugir em um pequeno avião, um teco-teco, como se dizia à época.

Diante disso, os principais fazendeiros do campo adversário foram vendendo suas propriedades e, quando foi candidato em 1962, obteve 90% dos votos válidos. Morreu no mandato, dois anos depois. Sua saga não foi um ponto fora da curva, mas antes um comportamento comum no Espírito Santo rural, onde a violência imperava, a despeito dos discursos desenvolvimentistas das cúpulas na capital. Eram as duas faces desse mundo: violência e progresso.

O campo democrático no Brasil é muito recente e ainda tem essas marcas de sua trajetória tão autoritária. Por isso, é preciso estar sempre muito atentos ao retorno do passado recente.

João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos
João Gualberto Vasconcellos é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, Pós-doutorado em Gestão e Cultura. Foi secretário de Cultura no Espírito Santo entre 2015 e 2018.

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