Mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais foram concedidos no Brasil em 2025, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O número representa um crescimento de aproximadamente 15,6% em relação ao ano anterior e coloca em evidência um desafio para as empresas: como organizar o ambiente de trabalho para que a própria rotina profissional não se torne um fator de adoecimento.
O tema foi discutido nesta quarta-feira (12), durante o 236º Café de Negócios da Associação dos Empresários da Serra (Ases), realizado no Steffen Centro de Eventos, na Serra. O encontro reuniu empresários, gestores e lideranças locais para discutir os riscos psicossociais no ambiente de trabalho e os impactos para empresas e funcionários.
Dados divulgados mostram que em 2025, ansiedade e depressão responderam por mais de 293 mil afastamentos no país. Foram 166.489 licenças relacionadas a transtornos de ansiedade e 126.608 por episódios depressivos.
Para a psicóloga Sátina Pimenta, mestre em Gestão de Pessoas e especialista em Saúde Mental Organizacional, as empresas precisam identificar os fatores que podem contribuir para o adoecimento antes que eles resultem em afastamentos, perda de produtividade ou desligamentos.
“Quando falamos de riscos psicossociais, não estamos falando apenas de saúde e bem-estar. Estamos falando de produtividade, lucratividade e sustentabilidade do negócio. O papel da empresa não é eliminar os problemas pessoais dos funcionários, mas garantir que o ambiente de trabalho não seja um produtor de adoecimento. Por isso, é preciso identificar os riscos, avaliar, intervir e acompanhar”, pontua.
A responsabilidade não é só do RH
Outro ponto destacado durante a discussão é que a gestão dos riscos psicossociais não deve ficar concentrada no setor de Recursos Humanos. A diretora Comercial e de Marketing da Up Health, Karol Cavêdo, defendeu a participação de líderes, gestores e diferentes áreas da empresa no processo.
“A gestão dos riscos psicossociais não pode ficar restrita ao RH. É uma responsabilidade de toda a empresa, que envolve líderes, gestores e diferentes áreas. Precisamos identificar os riscos, planejar as ações, implementar, acompanhar e, principalmente, registrar e evidenciar tudo o que está sendo feito. A cultura da empresa é construída pelos comportamentos que ela tolera, reconhece e repete.”
O que as empresas podem mudar
Segundo os especialistas, a construção de um ambiente de trabalho mais saudável também passa pela forma como a rotina profissional é conduzida. Para o presidente da Ases, Leonelle Lamas, é necessário refletir sobre o excesso de compromissos, cobranças e velocidade presentes no dia a dia das empresas.
A avaliação é de que resultados consistentes não são construídos apenas com metas e números, mas também com relações mais saudáveis e qualidade de vida.
“Sim, precisamos tratar de negócios e cuidar das empresas, mas é importante desacelerar. Cuidar da saúde mental também é cuidar da sustentabilidade das empresas. Precisamos aprender a desacelerar, valorizar as pessoas”, disse.
O CEO da Le Card, Erly Vieira, também destacou a importância da escuta dentro das organizações. Segundo ele, empresas que dependem diretamente do relacionamento entre profissionais precisam compreender o que os colaboradores estão passando.
“Nós trabalhamos diretamente com pessoas e, por isso, precisamos entender de gente. Ouvir, compreender e estar atento ao que os colaboradores estão vivendo é fundamental para construir um ambiente de trabalho mais saudável. Debates como esse nos ajudam a refletir sobre como podemos melhorar a gestão e as relações dentro das empresas”, destacou.
Saúde mental entra na gestão de riscos
A discussão também ocorre em meio às mudanças relacionadas à Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que inclui os riscos psicossociais entre os aspectos relacionados à gestão de saúde e segurança no trabalho.
Com a medida, a saúde mental passa a fazer parte de uma discussão mais ampla dentro das empresas, envolvendo não apenas bem-estar, mas também gestão de riscos, produtividade e sustentabilidade dos negócios.
Promovido mensalmente pela Ases, o Café de Negócios reúne empresários, especialistas e lideranças para discutir temas que impactam diretamente o ambiente empresarial e a competitividade das empresas.










