Após torturar e matar um morador em situação de rua, nove homens vão a júri popular no Espírito Santo. Os réus são integrantes de uma equipe de rondas de uma empresa de segurança privada e seriam autores da morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, de 35 anos, conhecido como “Bracinho”. Ele foi torturado e assassinado em março deste ano. O corpo foi localizado na Serra, município da Grande Vitória.
De acordo com o titular da Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), delegado Tarcísio Otoni, dos nove suspeitos, oito já estão presos. Os homens foram identificados como: Gabriel dos Santos Amaral, de 29 anos, Gabriel Fittipaldi, de 22 anos, Paulo Henrique Esteves Silva, de 30 anos, Rafael de Souza Silva, de 33 anos, Saimon Sales Cesar, de 30 anos, Thiago Golçalves, de 24 anos, Ralson Amancio Chagas, 42 anos, Celso Henrique de Azevedo, de 25 anos, presos, e Lucas Miguel Oliveira dos Santos, de 28 anos, foragido. Deles, apenas Rafael de Souza Silva tinha histórico criminal por tráfico de drogas.
Eles foram capturados durante a “Operação Invisíveis”.
“Limpeza social”
O delegado destacou que esse não teria sido o único crime cometido pelo grupo. Segundo ele, os denunciados praticavam uma espécie de “limpeza social” há pelo menos dois anos.
“De fato, são criminosos que agiram em série. Foi verificado que se tratava de uma organização criminosa estável, com o objetivo de fazer realmente uma ‘limpeza social’. Há pelo menos dois anos, eles vinham retirando pessoas em situação de rua de locais que perturbavam os condomínios que por eles eram monitorados.”
Tarcísio Otoni explicou que as vítimas eram submetidas a tortura e também falou sobre como o grupo foi identificado.
“Eles praticavam tortura contra essas pessoas e, infelizmente, também causavam desordens, como isso que foi constatado.”
Segundo o delegado, a investigação contou com diferentes tipos de provas para identificar a atuação do grupo.
“Contamos com provas de videomonitoramento, provas de inteligência, ferramentas que hoje são disponibilizadas para a Polícia Civil. E conseguimos constatar que esses indivíduos não só sequestraram, mas também mataram, enterraram e vinham participando de uma organização criminosa que praticava esse crime há pelo menos dois anos.”

Investigação começou com desaparecimento
Ele contou como a investigação começou a partir do desaparecimento de Marcos Vinícius.
“Todos os casos são tratados de forma isolada. Nós atuamos de modo a localizar essas pessoas até que seu paradeiro seja de fato descoberto. Em um desses casos, uma mãe que sentia falta de seu filho, em situação de rua, nos procurou para relatar que ia até o local onde o filho costumava ficar e que não mais o encontrava.”
A partir da denúncia, a equipe passou a analisar imagens do local onde Marcos Vinícius ficava.
“Ele residia ali embaixo da Terceira Ponte. Nesse dia, a mãe foi até lá, não encontrou seu filho e trouxe essa situação para a delegacia. Nós, de pronto atendimento, já verificamos as imagens de videomonitoramento do local, conseguimos identificar realmente um veículo com homens uniformizados, muitos deles usando balaclava e armados.”
Na sequência, foram identificados os equipamentos utilizados pelo grupo.
“Posteriormente, identificamos que se tratava de armas falsas. Inclusive, um desses simulacros eles utilizam em outros vídeos. E, a partir daí, nós identificamos as pessoas que ali estiveram, as suas motos, as suas placas, os seus veículos, e identificamos que essas pessoas eram funcionários de empresas de vigilância privada.”
Com a identificação dos suspeitos, foram cumpridos mandados de prisão e a investigação avançou. Essas pessoas eram agredidas e torturadas de acordo com a presença delas nos bairros e por serem suspeitas de realizar pequenos furtos em condomínios.
“Nós realizamos operações de busca e apreensão e cumprimos mandados de prisão. Conseguimos efetuar a prisão desses homens. E, a partir das prisões, aprofundamos a investigação, quando constatamos que eles participavam de grupos de WhatsApp, onde era deliberado o que seria feito com pessoas em situação de rua que perturbavam os condomínios monitorados pela empresa.”

Segundo o delegado, os grupos definiam como as vítimas seriam tratadas.
“Então, isso era deliberado pelo grupo, se era somente para bater, se era para torturar, se era para retirar de um local e colocar no outro. Esses vídeos eram gravados por eles mesmos, depois eles compartilhavam, em princípio, de uma forma bastante sádica. Nós temos um caso que nos choca.”
Tarcísio Otoni também citou a prática de arrancar dentes de pessoas em situação de rua. “Um deles tinha o apelido de ‘Tiradentes’, infelizmente, pela prática de arrancar dentes de moradores de rua. Então, são situações como essa que a Polícia Civil conseguiu alcançar por conta de uma corrente de desaparecimento que foi evoluindo. Nós retiramos de circulação uma organização criminosa voltada para essas práticas cruéis.”
Crimes e penas
O delegado mencionou ainda quais crimes foram atribuídos aos envolvidos e as penas previstas. “Eles já estão denunciados e a denúncia já foi recebida. São crimes de homicídio qualificado, ocultação de cadáver, tortura e organização criminosa. As penas passam de 60 anos de prisão na pena máxima.”
A investigação também apontou outros casos de violência e tortura contra pessoas em situação de rua. “Nós apuramos dezenas de casos de violência e tortura. Efetivamente, já demonstrados em processo judicial, temos três casos: um de homicídio com tortura e dois de tortura, que já foram encaminhados à Justiça.”
Morte de Marcos Vinícius
Sobre o caso de Marcos Vinícius, o delegado explicou o que teria motivado a ação contra a vítima.
“No caso do Marcos Vinicius, ele já havia sido torturado por eles no dia 8 de março, quando houve a investigação do incidente. No caso do Marcos Vinicius, ele tinha entrado em um condomínio monitorado pela empresa em que eles trabalhavam. Posteriormente, no dia 17 de março, eles decretaram a morte de Marcos Vinicios em razão do Marcos Vinicios ter ingressado no prédio próprio do condomínio onde a empresa de vigilância funcionava.”
Ainda de acordo com o delegado, a entrada da vítima no condomínio onde a empresa funcionava foi vista como afronta.
“Para eles, conversando entre eles, eles acharam isso uma afronta contra a autoridade deles naquele local. Por essa razão, toda a equipe foi mobilizada, inclusive pessoas que estavam de folga, para poder sequestrar, matar e enterrar o Marcos Vinícius.”
O delegado explicou que havia diferentes situações envolvendo as pessoas retiradas dos arredores dos prédios.
“Existiam duas situações: pessoas que se recusavam a sair dos arredores dos prédios e condomínios que eram contratados pela empresa e pessoas que praticavam furtos. Quando essas pessoas se recusavam a sair, eles filmavam agressões contra essas pessoas até elas saírem.”
Ele detalhou como a violência aumentava em determinadas situações. Quando essas pessoas cometiam pequenos delitos, como furtos, a repreensão era maior.
“Nós temos diversos diálogos entre essas pessoas, divulgando os vídeos e enaltecendo a forma como foi empregada. Muitas vezes, eles empregavam o chamado mata-leão, no sufocamento até elas desmaiarem. Usavam ainda alicates e deferiam diversos socos.”
Segundo o delegado, os próprios envolvidos compartilhavam registros das agressões.
“Eles têm várias fotografias de bastões metálicos sendo quebrados contra essas pessoas. Eles compartilhavam essas imagens com o intuito de enaltecer os seus próprios atos. Muitos deles confessaram estar presentes, confessaram ter ido até o local, mas negam quem efetivamente aplicou a tortura, aplicou o sofrimento.”
Situação dos envolvidos
Por fim, ele informou a situação dos envolvidos na Justiça.
“Eles já foram denunciados, estão presos pelos crimes de homicídio qualificado, ocultação de cadáver, tortura do Marcos Vinicius e organização criminosa. Além disso, tem outras duas torturas que foram separadas para serem denunciadas em outra vara criminal. Eles estão respondendo na terceira vara criminal do júri.”
Tortura e morte de Marcos Vinícius
O crime aconteceu na madrugada de 17 de março deste ano, quando Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, de 35 anos, foi sequestrado na Praia do Suá, em Vitória, e levado para a Serra.
Uma semana antes, a vítima havia sido abordada pelo mesmo grupo e espancada. Segundo o delegado, Marcos Vinícius apanhou e os suspeitos chegaram a tentar arrancar um dente dele com um alicate, mas ele conseguiu escapar e fugir.
O caso começou como um desaparecimento, mas logo passou a ser tratado como sequestro. A mãe de Marcos Vinícius procurou a equipe após não encontrá-lo no local onde ele costumava ficar. Apesar de viver em situação de rua, ela conhecia a condição do filho e costumava levar marmitas para ele. Como já havia sido espancado anteriormente, ela procurou a equipe.
Tarcísio Otoni ressaltou ainda que a companheira da vítima presenciou o momento em que ele foi levado e contou o que havia acontecido à sogra e à equipe policial.
No dia do crime, Marcos Vinícius foi abordado pelos suspeitos em um carro e outros em motos. Imagens de videomonitoramento mostram o momento da abordagem e a forma estratégica como as motos foram estacionadas no meio do cruzamento.
Por volta da meia-noite, a vítima foi capturada na Rua Ulisses Sarmento, na Praia do Suá, em Vitória, e colocada dentro de um carro. Em seguida, os suspeitos passaram pela Reta da Penha e pela Avenida Fernando Ferrari, seguindo para a Serra.
Já no município de Serra, próximo à Lagoa Juparanã, eles pegaram uma estrada de terra em direção a uma floresta de eucalipto, onde mataram e enterraram o corpo da vítima.
O delegado relatou ainda que Marcos Vinícius foi morto com requintes de crueldade. Segundo ele, o resultado final do laudo ainda era aguardado, mas tudo indicava que a vítima havia sido espancada e asfixiada antes de ser enterrada.
Imagens feitas pelos próprios homens mostram momentos antes do sequestro. A vítima dormia em uma calçada quando foi filmada. Os denunciados acordam o homem e o colocam dentro de um carro. Assustado, ele pede: “Calma, senhor! Calma, senhor!”, acreditando se tratar de uma autoridade. Diante da agressividade dos homens, a vítima grita por socorro.
Outras imagens mostram outras vítimas sendo chutadas e pisoteadas.
Vítimas feitas reféns
O delegado-geral da PCES, Jordano Bruno, classificou o caso como grave e explicou o que foi identificado durante a investigação.
“É um crime gravíssimo. Ao longo da investigação, foi possível constatar, de forma categórica, que, inicialmente, esses suspeitos realizavam essas ações de forma contratada entre os condomínios. Eles utilizavam essa fusão justamente para fazer com que os condomínios dessas pessoas aparecessem naqueles locais onde havia o sinal.”
Segundo Jordano, a investigação também apontou como as vítimas eram submetidas durante a prática criminosa.
“Com o avanço da investigação, ficou caracterizado que essas pessoas eram feitas reféns e submetidas a esforços. Foi comprovado que, em muitos casos, esses esforços musculares eram uma forma de execução.”
O delegado destacou ainda a importância de reunir informações que possam ajudar na identificação dos envolvidos.
“Nós também pedimos o levantamento de informações sobre os familiares dessas pessoas. Eventualmente, isso pode permitir que outras pessoas façam denúncias e, diante de algum indício, possamos identificar e responsabilizar todos os envolvidos nessa prática.”
Réus vão a júri popular
Jordano reforçou que os suspeitos deverão responder criminalmente pelas ações e que a polícia seguirá nas buscas. “Outro ponto muito importante é que esses suspeitos vão responder criminalmente. Esse tipo de ação é absolutamente repudiado, e a polícia não vai medir esforços para identificar, localizar e prender todos os envolvidos.”
Denúncias
Por fim, o delegado ressaltou que a participação da população é fundamental para que práticas semelhantes sejam identificadas.
“A Polícia Civil e a Polícia Militar não conseguem identificar esse tipo de comportamento sem a ajuda da população. Por isso, os familiares devem denunciar e procurar a polícia para registrar a ocorrência. Sabemos que, muitas vezes, por medo ou dúvida, essas pessoas acabam não procurando as autoridades. É fundamental que familiares, amigos, conhecidos ou qualquer cidadão que tenha informações sobre práticas semelhantes denunciem e repassem os dados à polícia, para que possamos investigar e agir.”










