Minha avó — e desconfio que a do leitor também — dispensava código, doutrina e jurisprudência: tinha um repertório de sentenças em que bastava pronunciar a primeira metade para que a criançada compreendesse o programa inteiro, sanção incluída. Criança que brinca com fogo, dizia ela, e nem precisava terminar, porque o final todo mundo conhecia de cor — e a profecia, ao contrário de certas promessas de rentabilidade, cumpria-se com pontualidade britânica.
Pois o fogo mudou de fórmula, mas a criança continua brincando.
A variedade moderna do fenômeno tem barba desenhada, relógio do tamanho de uma prestação de apartamento e a pressa de quem considera a experiência um defeito dos lentos. Filho de gente que confunde patrimônio e posição social com licença — na doce suposição de que a blindagem veio no pacote da unção —, criado à sombra confortável de um sobrenome que abre portas, resolve, entre um réveillon e outro, revolucionar setores que levaram séculos para aprender a caminhar — investimentos, fusões, incorporações, aquisições —, na certeza íntima de que a obscuridade em que vive é apenas a sala de espera entre o berço e o estrelato, e que a passagem de uma a outro é questão de meses, no máximo de uma temporada.
E os pais, que a prudência mandaria acudir com o balde d’água, apagando as chamas no nascedouro, preferem soprá-las — e soprá-las, note-se, com uma corneta, de preferência bem decorada e estereofônica, porque essa fogueira em particular não se alimenta de ar, alimenta-se de barulho. Jactam-se da genialidade do rebento, financiam a fábrica de imagem — festas caras devidamente povoadas de influenciadores e de gente que se arvora rei do camarote, entrevistas encomendadas com perguntas do tamanho exato das respostas decoradas, índices fabricados sob medida —, trocam a experiência que não têm pela resposta rápida da mídia que compram, e aproveitam a proximidade dos atores do poder, que os bajulam, para um lobby que quase sempre se apresenta em seu formato mais festivo: a ostentação com finalidade específica.
Detalhe que a vitrine registra mas que a moldura dourada prefere esconder: aqueles diplomas de grandes escolas estrangeiras, exibidos como relíquias, correspondem com frequência a cursos de fim de semana que valem sobretudo pelo carimbo — a foto na porta da instituição, duas tardes de palestra devidamente fotografadas em pose de gênio da lâmpada, e muita festa nos intervalos.
Munidos dessa bagagem, saem a vender fórmulas econômicas que nenhum economista tarimbado assinaria embaixo, mas que os encantados compram na fé singela de que a economia é uma grande galinha: basta enfiar alguns ovos a mais debaixo dela, aumentar a temperatura e aguardar o nascimento dos pintos de ouro, milagres novidadeiros a serem comemorados nos altares dos novos gurus. E assim pessoas honestas, que amealharam suas economias em décadas de esforço, e até empresas sérias, que cederam à tentação de ganhar mais do que anos de tino demonstraram ser possível ganhar trabalhando, entregam recursos a aventuras que têm sempre o mesmo desenho, o mesmo roteiro e o mesmo final: escândalo, ruína, duelo de narrativas, dedos em riste apontados — sempre — para os filhos dos outros, impacto em setores básicos da economia, choro e ranger de dentes.
Isso é mais antigo do que andar para a frente.
E, como em todo furacão, aparecem os defensores e os acusadores de plantão, uns e outros igualmente desprovidos da menor noção dos fatos, dos desdobramentos, das autorias e, sobretudo, do assunto principal — o que, convenhamos, nunca impediu ninguém de opinar com veemência.
Quando o desastre acontece — e ele sempre acontece —, sobra para os bobos da corte. Como sempre ocorreu nas cortes mais lustrosas, são eles que ficam no salão sujo depois que os nobres recolhem seus anéis e saem pela porta dos fundos: limpam a sujeira, sofrem a ira dos dilapidados — os mesmos que instantes antes louvavam os protagonistas como se a tal unção — a benfazeja bênção que veio no combo do nascimento alheio — protegesse suas próprias economias das leis do mundo real. Isso quando não são os próprios bobos que pagam a conta, salgada, exatamente por terem se deixado seduzir pela promessa de resultado rápido e extraordinário — a arma paradoxalmente mais antiga e mais moderna desse tipo de arapuca.
Antes do fecho, duas advertências ao expectador — e escrevo expectador, não leitor, porque isto há muito deixou de ser leitura para virar espetáculo.
A primeira: se, no momento em que o desastre mal chega ao conhecimento público, ninguém — nem os mais isentos, nem os maiores especialistas — é capaz de apontar com precisão nomes, datas, fatos e os demais detalhes absolutamente indispensáveis a qualquer julgamento que mereça o nome, convém moderar o entusiasmo com que se fala dos filhos dos outros. Filhos todos temos, ou os teremos, sujeitos às mesmas armadilhas, tropeços e devaneios; e muito do que fazem — às vezes por nós encorajados, às vezes na comovente intenção de nos dar orgulho — só nos chega ao conhecimento quando já aconteceu. E há um agravante: o distanciamento crítico é privilégio de quem examina filhos alheios — ou seria melhor dizer a crítica distanciada, distanciada exatamente porque a queda não é no quintal de quem critica —, de modo que somos, nós, os pais, os últimos a ouvir a ficha cair, e os que mais demoram a medir o tamanho do estrago que a queda produziu. Quando ela cai, em geral o avião já caiu antes.
A segunda vem de La Fontaine, da fábula da Águia e da Coruja, e dispensa delongas: feita a paz entre as duas, a coruja pediu que a águia poupasse seus filhotes, e descreveu-os como as criaturas mais belas e graciosas do bosque; a águia, encontrando num ninho uns bichos feios e desengonçados, devorou-os sem hesitar — não correspondiam, afinal, à descrição. É assim que muitos pais descrevem seus filhos ao mundo; e é assim que o mundo, que não leu a descrição, costuma tratá-los quando a crueza se impõe.
Volto, por fim, à minha avó, que nunca precisou de compliance para completar a sentença: criança que brinca com fogo faz xixi na cama.
E olhe que, se o resultado dessas artes petizes ficasse no lençol da própria cama, estaria tudo tranquilo e administrável — roupa de cama se lava, colchão se vira, e a vida segue. O desconcertante é que, nessa modalidade de peraltice, a criança brinca com o fogo em casa e faz xixi, invariavelmente, nos lençóis alheios. E lençol alheio, o expectador que o diga, ninguém devolve limpo.









