No segundo domingo de agosto, o Brasil celebra o Dia dos Pais, data criada em 1953 pelo publicitário Sylvio Bhering e associada ao calendário de São Joaquim, considerado na tradição católica o pai de Maria. Mais do que uma data comercial, o dia convida a pensar sobre o que um pai deixa para o filho, não apenas em bens, mas em exemplo, em presença e em valores. Poucas histórias mostram essa cadeia de gerações com tanta força quanto a de Salomão, rei de Israel, que foi ao mesmo tempo filho e pai.
Antes de morrer, Davi chamou o jovem Salomão para uma última conversa. Não deixou apenas um trono, deixou uma orientação de vida: que fosse forte, que agisse com integridade, que não se afastasse dos princípios que aprendera dentro de casa. É uma cena que qualquer pai reconhece, a vontade de dizer, antes que seja tarde, aquilo que realmente importa. Salomão levou essa conversa a sério. Anos depois, já rei, quando teve a chance de pedir a Deus o que quisesse, não pediu riqueza nem poder, pediu um coração capaz de discernir entre o certo e o errado para governar bem o seu povo. É difícil não ver ali o reflexo do que aprendeu com o pai.
Salomão, por sua vez, tentou repetir esse gesto com o próprio filho. No livro de Provérbios, tradicionalmente atribuído a ele, o texto se dirige o tempo todo a um destinatário específico, chamado repetidas vezes de filho meu. São conselhos sobre caráter, sobre escolhas, sobre o valor da sabedoria acima do dinheiro. Um pai que teve tudo tentando ensinar ao filho aquilo que considerava mais valioso do que tudo.
Mas a relação entre Salomão e seu filho Roboão não seguiu o mesmo caminho tranquilo. Quando Roboão assumiu o trono, o povo pediu que ele aliviasse o peso que o pai havia imposto ao reino. Ele ouviu dois grupos de conselheiros, os mais velhos, que recomendavam mansidão, e os que haviam crescido com ele, que sugeriam dureza. Roboão escolheu ouvir os da própria geração, respondeu com aspereza, e o reino que Davi conquistou e Salomão engrandeceu se partiu em dois ainda em vida do filho. As mesmas palavras de sabedoria que Salomão escreveu não chegaram a formar, na mesma medida, quem viria depois dele.
Há algo nessa sequência de três gerações que ultrapassa o texto bíblico e chega perto de qualquer família. Davi conversou com Salomão no fim da vida, e o filho ouviu. Salomão escreveu conselhos para Roboão, mas parece ter faltado ali o mesmo tipo de convivência próxima que ele próprio vivera com o pai. Instruir não é o mesmo que estar presente, e um filho aprende tanto com o que o pai diz quanto com o que o pai faz diante dele, no dia a dia, longe dos grandes discursos.
Neste Dia dos Pais, a história de Salomão serve menos como lição religiosa e mais como espelho. Ela lembra que a relação entre pai e filho não se resolve de uma vez, num único conselho bem dado ou numa única herança bem deixada. Ela se constrói aos poucos, na conversa que se repete, na atenção que se dedica, no exemplo que se sustenta mesmo quando ninguém está observando. É esse o legado que cada pai, à sua maneira, ainda tem a chance de construir. Afinal de contas, reza a lenda, que nenhum homem quer ver um outro melhor que si mesmo, apenas seus filhos.
*artigo escrito em parceria com meu filho, João Batista Dallapiccola Sampaio Filho, bacharel em Direito








