Marcelo D2 chega ao Espírito Santo com um samba que ele mesmo teve de nomear. O rapper carioca está confirmado no encerramento do Festival Movimento Cidade, no domingo, 16 de agosto, no Parque da Prainha, em Vila Velha, levando ao palco o repertório do Manual Prático do Novo Samba Tradicional — a série de quatro discos que estendeu e sistematizou o caminho aberto por IBORU (2023), álbum indicado ao Grammy Latino de melhor disco de samba.
A fórmula do projeto está na própria instrumentação. D2 juntou a bateria eletrônica 808 ao repique e ao tantã do Cacique de Ramos, à cuíca ancestral do Mestre Quirino e ao pandeiro. Do encontro entre o grave sintético do rap e a percussão de terreiro nasceu o que ele batizou de Novo Samba Tradicional.
Concebido com Luiza Machado, sócia, parceira criativa e esposa do artista, o Manual Prático se organiza como uma narrativa guiada por mulheres decisivas na trajetória de D2. O Vol. 1: Dona Paulete, lançado em dezembro de 2024, homenageia sua mãe, Paulete Maldonado, morta em 2021. Suas sete faixas sincretizam releituras de clássicos das rodas cariocas — “Castelo de Um Quarto Só”, “Como Um Caso de Amor”, “Maneiras”, eternizada por Zeca Pagodinho — com temas autorais como “Desabafo” e a inédita “Estou Voltando”, de Almir Guineto, Adalto Magalha e José Roberto Bezerra, o Capri.
O Vol. 2: Tia Darci saiu em janeiro de 2025, com participação do Fundo de Quintal e nova versão de “A Maldição do Samba”, do referencial À Procura da Batida Perfeita (2003). Em março veio o Vol. 3: Luiza, batizado em referência à parceira do projeto, que inclui sua leitura de “Lucidez”, de Jorge Aragão. O quarto volume fecha o ciclo.
A abertura do primeiro disco resume a intenção de todo o conjunto. “Estou seguindo o meu caminho a serviço do samba”, disse D2 na apresentação do projeto. “O público é grande parte do Novo Samba Tradicional, tem que chegar junto, eu sou uma ferramenta.”

Trinta anos entre extremos
Marcelo Maldonado Peixoto tem 30 anos de carreira. Cria do Andaraí, fundador do Planet Hemp — banda perseguida nos anos 1990 pelo próprio discurso e vencedora de dois Grammys Latinos em 2024 com Jardineiros —, foi o primeiro artista a gravar um samba no Electric Lady Studios, o estúdio de Jimi Hendrix em Nova York. Cantou Bezerra da Silva, saiu em turnê pela Europa com um projeto de jazz, levou seu som a 28 países em cinco continentes. São 21 álbuns entre banda e carreira solo, três discos de ouro, nove VMBs e mais de 700 milhões de streams só na discografia solo.
No Movimento Cidade, ele dividirá o domingo com João Gomes, Maré Tardia e o encontro inédito entre Rachel Reis e Marina Sena. Na véspera, o sábado (15) reúne Emicida, Zeca Pagodinho, Urias, Fabriccio, O Kannalha e o projeto Budah Convida. A abertura, na sexta-feira (14), é gratuita mediante doação de 1kg de alimento não perecível, com Gaby Amarantos, Ajulliacosta, Ury Vieira e Roberta de Razão.
Criado em 2018 e hoje o maior festival de artes integradas do Espírito Santo, o Movimento Cidade reuniu 100 mil pessoas em 2025 e já vendeu ingressos para público de nove estados e do Distrito Federal. A edição de 2026 traz mais de 15 atrações em cerca de 20 horas de programação, sob o tema “Cidade são pessoas” — tese que a apresentação de D2, com sua banda Um Punhado de Bamba, deve ilustrar muito bem.










