Os historiadores têm uma vantagem sobre os jornalistas. Enquanto nós insistimos em dividir a política em eleições, eles a dividem em ciclos. E quase sempre enxergam melhor.
Os ciclos não começam na cerimônia de posse nem terminam quando um governador entrega a faixa ao sucessor. Eles atravessam governos, sobrevivem a derrotas, incorporam antigos adversários e moldam gerações inteiras de lideranças. Mudam os partidos, mudam os discursos, mudam até os personagens secundários. O eixo do poder, por sua vez, permanece praticamente o mesmo.
É exatamente esse fenômeno que o Espírito Santo atravessa este ano.
Desde 2003, a política capixaba foi organizada em torno de um mesmo centro gravitacional. Paulo Hartung e Renato Casagrande alternaram governos, estilos, estratégias e prioridades administrativas, mas, acima de tudo, definiram o ambiente político dentro do qual todas as demais lideranças precisaram existir. Durante quase um quarto de século, quem desejava crescer politicamente precisou, inevitavelmente, estabelecer algum tipo de relação com um deles — de aliança, de oposição ou, no mínimo, de convivência.
Essa permanência nunca significou ausência de disputa. Ao contrário. Houve confrontos intensos, rupturas, reaproximações improváveis, tentativas de surgimento de novos grupos e alianças que pareceriam impossíveis em outros tempos. Mudavam os roteiros. Permaneciam os mesmos protagonistas.
O Brasil conhece bem esse fenômeno. A Nova República nasceu sob a hegemonia do PSDB. Vieram os oito anos de Fernando Henrique Cardoso, depois a longa predominância do PT com Lula e Dilma Rousseff. Jair Bolsonaro rompeu aquela arquitetura, reorganizou a disputa política nacional e deslocou o centro do debate. Lula voltou ao poder, mas já representando muito mais a continuidade de uma geração histórica — além do antibolsonarismo clássico — do que propriamente o início de outra. Não por acaso, a sucessão presidencial de 2030 já ocupa silenciosamente o imaginário político brasileiro.
Na Serra, o mesmo movimento aconteceu em escala municipal. Durante 28 anos, a maior cidade do Espírito Santo alternou seu comando entre Sérgio Vidigal e Audifax Barcelos. Eram adversários permanentes, embora fossem oriundos do mesmo grupo político — assim como Hartung e Renato foram um dia membros de uma mesma chapa, de uma mesma relação. Formaram vereadores, elegeram deputados, produziram sucessores e transformaram a política serrana em uma disputa que, eleição após eleição, girava em torno dos mesmos protagonistas.
A escolha de Weverson Meireles em 2024 rompe essa lógica. Embora seja fruto político da influência de Sérgio Vidigal, ela encerra uma alternância de quase três décadas. O grupo continua influente. O ciclo muda. E essa é uma distinção importante: grupos podem sobreviver; gerações políticas, não.
É justamente por isso que a eleição deste ano no Espírito Santo possui um significado que vai muito além da escolha do próximo governador. Se Ricardo Ferraço vencer, seu governo poderá representar o capítulo final de uma geração política iniciada com Paulo Hartung e consolidada por Renato Casagrande — não custa lembrar, Ricardo foi vice de ambos. Seu eventual mandato funcionará como um epílogo, conduzindo uma transição gradual entre duas épocas.
Se Lorenzo Pazolini ou Helder Salomão vencerem, a mudança ocorrerá imediatamente. Não por uma questão de idade, mas porque ambos chegariam ao Palácio Anchieta fora do eixo político que estruturou o Estado nos últimos vinte e cinco anos. Em qualquer hipótese, um ciclo histórico se encerra. Mas talvez essa nem seja a questão mais importante.
Toda geração política é convocada a resolver os problemas do seu tempo. Hartung e Casagrande receberam um Espírito Santo que precisava recuperar credibilidade, reorganizar suas finanças, fortalecer as instituições e criar um ambiente capaz de atrair investimentos. O equilíbrio fiscal, a capacidade de investimento e a estabilidade administrativa transformaram-se na marca desse período. Independentemente das divergências políticas, é difícil negar que essa agenda moldou o Estado contemporâneo.
O problema é que nenhuma geração pode viver eternamente respondendo às perguntas do passado. O desafio da próxima já será outro. O Espírito Santo não será mais cobrado apenas por administrar bem. Será cobrado por crescer melhor.
A estabilidade conquistada ao longo das últimas décadas precisa deixar de ser o objetivo final para se tornar ponto de partida. Um estado equilibrado financeiramente, com boa capacidade de investimento e segurança institucional, já não pode medir seu sucesso apenas pela qualidade da gestão. Precisará ser capaz de definir um projeto de desenvolvimento para as próximas décadas.
E essa talvez seja a grande discussão que ainda não entrou na campanha. Qual será a vocação do Espírito Santo depois da era da organização fiscal? A resposta passa, antes de tudo, pela capacidade de transformar vantagens naturais em vantagens competitivas. O Estado possui posição geográfica privilegiada, portos estratégicos, um dos mais importantes polos de petróleo e gás do país, indústria consolidada, agronegócio competitivo e um ambiente institucional respeitado.
A pergunta não é mais se o Espírito Santo tem ativos. É se conseguirá transformá-los em liderança econômica.
Isso significa deixar de ser apenas um corredor logístico para agregar valor àquilo que produz e movimenta. Significa utilizar a riqueza do petróleo para financiar a economia do pós-petróleo, investindo em inovação, tecnologia, qualificação profissional e transição energética. Significa compreender que competitividade não será construída apenas com equilíbrio fiscal, mas também com conhecimento.
Há outro desafio igualmente relevante: o desenvolvimento precisa alcançar todo o território. O Espírito Santo não pode continuar concentrando oportunidades apenas na Região Metropolitana. O norte, o sul, a região serrana e o noroeste precisam participar de um novo ciclo de crescimento, seja por meio da infraestrutura, da interiorização dos investimentos ou da transformação do turismo em uma verdadeira política de desenvolvimento regional.
Há poucos estados brasileiros com potencial turístico tão diversificado quanto o nosso. Praias, montanhas, gastronomia, cultura, turismo religioso, negócios e natureza convivem em poucas horas de distância. Ainda assim, o turismo continua sendo tratado muito mais como vocação do que como estratégia econômica. Talvez seja hora de mudar essa lógica.
Também será preciso investir naquilo que nenhuma riqueza natural substitui: gente. O Espírito Santo precisará reter talentos, aproximar universidades do setor produtivo, estimular inovação, preparar sua economia para a inteligência artificial e para as novas tecnologias e criar oportunidades para que seus jovens construam aqui o futuro que hoje procuram em outros estados. Nossa política de serviços é e continuará sendo um dos motores da nossa economia.
Esse é o verdadeiro desafio da próxima geração política. Não administrar a escassez; administrar as possibilidades. Afinal, existe uma diferença enorme entre organizar um Estado e definir seu destino. A primeira tarefa exigiu disciplina de nossos governantes. A segunda exigirá visão.
É exatamente nessa fronteira que o Espírito Santo se encontra.
O eleitor imagina estar escolhendo apenas um governador. A história, provavelmente, registrará algo maior. Registrará a eleição que encerrou um dos mais longos ciclos de poder da política capixaba e abriu a discussão mais importante das próximas décadas: depois de colocar a casa em ordem, qual será o próximo sonho coletivo do Espírito Santo?
Talvez essa seja, no fim das contas, a única pergunta que realmente importa.









