A versão capixaba da “Quadrilha” de Drummond que beneficia apenas Casagrande

Em 1930, Carlos Drummond de Andrade publicou Quadrilha, imortalizando o desencontro dos afetos: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. No Espírito Santo de 2026, a cena política compõe a sua própria versão do poema. O enredo não trata de desilusões amorosas, mas de algo igualmente volátil: o pragmatismo das alianças eleitorais. Traçado que, de alguma forma, prejudica os nomes do governador Ricardo Ferraço (MDB) e do deputado federal Helder Salomão (PT), que disputarão o Governo do Estado.

O ex-governador Renato Casagrande (PSB) apoia o presidente Lula (PT) em Brasília, mas, ao olhar para o Palácio Anchieta, rifou o PT de Helder para lançar Ricardo. Helder, por sua vez, ama o palanque de Lula, mas precisa disputar votos no estado contra a aliança MDB-PSB apoiada pelo plano federal.

Enquanto isso, o bolsonarismo tenta fechar fileiras em torno de Lorenzo Pazolini (Republicanos), tendo ao fundo a figura do senador Magno Malta (PL), que escalou a própria filha, Maguinha Malta (PL), para a disputa ao Senado. E ainda terão o deputado Evair de Melo (Republicanos) no segundo voto de senador.

Nesse cruzamento de interesses, as candidaturas ao governo do Estado entram na reta final de definição com trunfos e gargalos bem delimitados.

Bastidores e o nó do Senado

A versão capixaba da “Quadrilha” de Drummond que beneficia apenas CasagrandeO cálculo para o Palácio Anchieta passa, inevitavelmente, pelas duas vagas em disputa para o Senado. Se Casagrande aparece consolidado para a primeira vaga, a segunda vaga transformou-se no verdadeiro nó cego da eleição.

No MDB de Ricardo tem o nome de Rose de Freitas, enquanto no PSD tem Serginho Meneguelli.

A indicação de Maguinha Malta (PL) na chapa de Pazolini tensionou o espaço da própria direita, que vê concorrentes como Evair de Melo (Republicanos), Leonardo Monjardim (Novo) e o deputado Callegari disputando o mesmo perfil de eleitor. Contudo, no caso deste terceiro, embora se diga bolsonarista, Callegari está no DC que quer estar com Ricard.

No fim, a política capixaba confirma que, no verso final de Drummond, a eleição estadual costuma ser decidida por quem consegue reunir a maior coalizão pragmática — aquele ator que, tal como o “J. Pinto Fernandes” do poema, entra na história para ficar com a cadeira principal.

Os que navegam com vento a favor

  • Ricardo Ferraço (MDB): Sustentado pela máquina estadual e pela alta aprovação do governo Casagrande, Ferraço lidera as intenções de voto e detém a menor rejeição entre os postulantes ao Executivo. Seu trunfo é a amplitude: consegue transitar do centro empresarial ao eleitorado moderado de centro-esquerda. O desafio será não ser tragado pela polarização ideológica nem soar como uma mera sombra do atual governador.

  • Lorenzo Pazolini (Republicanos): Ex-prefeito da capital é o nome da oposição para rivalizar com o projeto governista. Com forte apelo na Grande Vitória e trânsito consolidados na pauta da segurança pública, Pazolini ganha tração com a aliança oficial do PL. O favoritismo no eleitorado conservador é real, mas o gargalo permanece o mesmo de pleitos anteriores: penetrar com consistência no interior, onde o peso do governo estadual é tradicionalmente decisivo.

Os que enfrentam mar agitado

  • Helder Salomão (PT): Tem densidade eleitoral própria, fidelidade partidária e a marca do Governo Federal. O entrave do deputado federal é de ordem estrutural. Vítima da engenharia local do PSB, Helder corre o risco de ver seu teto eleitoral encolher pela falta do apoio da máquina governista estadual. Enfrenta ainda a histórica resistência ao PT em regiões do interior capixaba.

  • Ricardo Ferraço (MDB): O governador passa por mares calmos e revoltos pela composição de chapa e falta de um presidenciável. Defende que seu histórico político sempre foi de centro-direita, mas tem apoios do PSB (que está com Lula) e do PDT, de Sergio Vidigal. Situações que causam desconforto e risco de recuo de apoios do Podemos e da federação União Progressista, que já haviam sido anunciadas.
  • A pulverização das siglas médias: Candidaturas lançadas por legendas como o Novo (que testa seu projeto) e movimentações de partidos de centro como o DC de Marcos Caran acabam atuando mais como fiadores de bancadas proporcionais ou peças de barganha para um eventual segundo turno. O DC, por exemplo, ensaia apoio à reeleição do MDB na disputa majoritária, enquanto abriga em sua plataforma ao Senado nomes do campo bolsonarista — um retrato acabado do pragmatismo que rege o pleito estadual.

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