Fernando Carreiro
Fernando Carreiro
Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases
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A Odisseia de Ricardo, de Lula e muitos governadores

Está em todos os cinemas. Christopher Nolan reconta uma das histórias mais antigas da humanidade. Fora dela, a política brasileira parece empenhada em produzir a sua própria adaptação de ‘A Odisseia’.

Quase todo mundo se lembra do Cavalo de Troia. Pouca gente se lembra de Ítaca. A explicação talvez esteja na natureza humana: as grandes conquistas fascinam mais do que os difíceis retornos. Celebramos a batalha vencida, a cidade tomada, a faixa atravessada no peito. Prestamos menos atenção ao caminho de volta — justamente onde os heróis costumam descobrir que a vitória anterior não lhes assegurou o futuro.

Odisseu venceu a guerra. Foi decisivo na queda de Troia. Tinha história, feitos, autoridade e glória suficientes para acreditar que o mais difícil havia passado. Estava enganado. Entre Troia e Ítaca existia um oceano. E oceanos, como eleições, raramente respeitam currículos.

A viagem de volta submeteu Odisseu a monstros, tentações, tempestades, alianças frágeis e decisões equivocadas. Quando finalmente alcançou sua terra, encontrou a casa ocupada, a mulher assediada por pretendentes e o poder que julgava seu sendo disputado à mesa. O passado lhe conferia legitimidade histórica. Não lhe garantia a posse do presente.

A metáfora parece escrita para a política brasileira de 2026. Muitos governantes e postulantes chegam ao ano eleitoral acreditando que já venceram a sua Guerra de Troia. Administraram, inauguraram, entregaram, viajaram, discursaram e distribuíram fotografias diante de obras públicas. Alguns receberam governos organizados. Outros acumulam décadas de experiência e uma biografia que, em tese, deveria protegê-los das intempéries eleitorais.

Mas uma eleição não é uma cerimônia de reconhecimento pelo conjunto da obra. É uma nova travessia. E talvez parte dos candidatos tenha esquecido de preparar o barco.

O problema de muitos governos não é necessariamente a ausência de entregas. É a crença excessiva de que elas falam sozinhas. Não falam. Obras não votam. Indicadores não apertam a mão de ninguém. Equilíbrio fiscal não cria, por geração espontânea, pertencimento político.

Uma administração pode organizar o orçamento e, ainda assim, desorganizar sua relação com o imaginário popular. A boa gestão produz resultados. A boa política transforma resultados em sentido. Quando essa tradução não acontece, o eleitor vê a obra, mas não necessariamente reconhece o autor. Experimenta um serviço melhor, mas não converte a experiência em confiança. Percebe que alguma coisa avançou, porém não sente que participou daquela construção.

No Espírito Santo, Ricardo Ferraço talvez represente um dos exemplos mais evidentes desse paradoxo. Herdou um governo organizado, fiscalmente equilibrado, abastecido por investimentos e amparado por uma agenda extensa de entregas. Possui experiência, trânsito político, sobrenome conhecido e o apoio de uma estrutura partidária inicialmente ampla. Ainda assim, alterna com Lorenzo Pazolini a liderança das pesquisas, num movimento de sobe-e-desce que transforma qualquer sensação de favoritismo em miragem.

O caso capixaba não significa que o governo tenha fracassado. Revela algo mais sutil e, talvez, mais perigoso: o sucesso administrativo não se converte automaticamente em domínio eleitoral. Como Odisseu, Ricardo saiu de Troia imaginando que sua Ítaca permanecia intacta.

O episódio mais recente envolvendo a Federação União Progressista torna a metáfora ainda mais eloquente. A convenção da Federação, inicialmente marcada para 1º de agosto, foi transferida para 5 de agosto, às 18 horas — exatamente o mesmo dia e horário da convenção do MDB de Ricardo Ferraço. Oficialmente, a alteração teria ocorrido para permitir maior alinhamento nacional. Nos bastidores, porém, o movimento foi interpretado como reação à tentativa dos prefeitos Euclério Sampaio e Enivaldo dos Anjos de emplacar Sérgio Vidigal na vaga de vice, posição reivindicada pela própria Federação.

Não se trata apenas de uma mudança no calendário. Calendários também falam. Ao escolher o mesmo dia e a mesma hora da convenção do MDB, a Federação não apenas adiou uma decisão. Produziu um gesto político. Sentou-se à mesa, marcou território e lembrou ao candidato governista que alianças anunciadas em auditórios não são alianças definitivamente conquistadas.

O apoio da União Progressista tem peso, musculatura eleitoral, chapas competitivas e tempo relevante de propaganda. Sua eventual saída da coligação representaria um desfalque significativo para Ricardo. A remarcação, portanto, expõe uma campanha que, perto do limite das convenções, ainda discute quem ocupará a cadeira ao lado do protagonista.

É uma cena quase homérica. Enquanto o herói se prepara para reivindicar o reino, os aliados discutem os lugares à mesa.

Em Pernambuco, Raquel Lyra também atravessa águas turbulentas. Mesmo comandando a máquina estadual e chegando à eleição com a força natural de quem governa, enfrenta João Campos em uma disputa competitiva. Levantamento divulgado em abril chegou a registrar empate entre os dois; outras pesquisas mostraram o prefeito do Recife à frente, evidenciando que o cargo oferece estrutura, mas não produz imunidade.

No Amapá, a lição é ainda mais dura. Clécio Luís chega ao período eleitoral com aprovação significativa do governo, mas aparece muito atrás de Dr. Furlan em levantamento recente. É a demonstração quase didática de que aprovação administrativa e intenção de voto podem habitar universos diferentes. O eleitor pode reconhecer o governo e, ao mesmo tempo, desejar outro governante.

Nenhum desses casos autoriza sentenças definitivas. Pesquisa é fotografia, não destino. Campanhas existem justamente porque cenários podem mudar. Mas fotografias também revelam posturas. E a postura mais perigosa para quem busca a recondução é a de quem confunde patrimônio com propriedade; legado com garantia; reconhecimento com voto.

No plano nacional, Lula enfrenta sua própria odisseia. Poucos brasileiros possuem uma história política comparável à sua. Lula venceu eleições, sobreviveu a crises e a uma prisão e voltou ao poder depois de uma trajetória que, em outros países ou personagens, teria encerrado definitivamente uma carreira pública. Sua biografia é monumental. Mas monumentos também sofrem a ação do tempo.

Mesmo liderando alguns levantamentos, Lula aparece em disputas apertadas contra Flávio Bolsonaro. Uma pesquisa registrou empate técnico, com 46,3% para Lula e 46,1% para o adversário; outra, mais recente, apontou vantagem de 48% a 43%. Os números variam, mas a mensagem permanece: nem mesmo uma das maiores lideranças populares do país pode se dar ao luxo de imaginar que sua história fará sozinha a travessia até a urna.

O passado credencia, não substitui o presente. Essa talvez seja a lição mais política de A Odisseia. Odisseu não perdeu Ítaca porque lhe faltasse história. Quase a perdeu porque esteve ausente por tempo demais e presumiu que sua história continuaria ocupando todos os espaços deixados vazios.

Na política, o vazio nunca permanece vazio. Quando um governante não conta suas entregas, alguém lhes atribui outro significado. Quando não cultiva os aliados, alguém oferece outra mesa. Quando não transforma administração em vínculo, o adversário transforma insatisfação difusa em desejo de mudança. Quando acredita que a casa continua sendo sua, pode descobrir que os pretendentes já aprenderam o nome de todos os moradores.

Muitos candidatos fizeram o dever administrativo. Poucos fizeram integralmente o dever político. Construíram estradas, mas não construíram a narrativa do caminho. Entregaram hospitais, mas não produziram a sensação de cuidado. Organizaram números, mas não organizaram afetos. Reuniram partidos, mas não formaram necessariamente uma aliança. E uma campanha eleitoral é justamente o momento em que todas essas diferenças, antes escondidas pelos ritos do poder, aparecem sob a luz.

Talvez Homero jamais tenha imaginado escrever um tratado sobre eleições. Christopher Nolan provavelmente também não pretendeu filmar uma advertência aos candidatos brasileiros de 2026. Ainda assim, ela está lá, projetada na tela. Toda Troia vencida cria a ilusão de que o herói já fez o suficiente. Toda Ítaca reencontrada lembra que ninguém governa apenas pelo que foi.

Troia produz heróis. Ítaca decide se eles ainda merecem a casa.

Fernando Carreiro
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Jornalista e consultor especializado em reputação, crises de imagem, comportamento humano e estratégia política e de marcas, é autor de ‘Campanhas, Casos & Cases

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