Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Intencionalidade: quando o propósito se transforma em entrega

Há uma frase de Brian Armstrong que merece reflexão: “Intencionalidade tem um propósito, que se põe em prática não por obrigação”.

A simplicidade da afirmação esconde uma distinção profunda. Há instituições que apenas respondem às circunstâncias. Cumprindo rotinas, solucionando urgências e administrando demandas, permanecem ocupadas, mas raramente transformadoras.

Outras escolhem um caminho diferente. Definem, deliberadamente, onde desejam chegar e fazem de cada decisão um passo coerente em direção a esse objetivo. Não trabalham apenas para manter a máquina em funcionamento. Trabalham para aperfeiçoá-la continuamente.

Essa é a essência da intencionalidade.

Na administração pública, ela não se confunde com voluntarismo nem com ativismo administrativo. Intencionalidade significa governar orientado por um propósito institucional claramente definido, capaz de alinhar pessoas, processos, investimentos e prioridades em torno de um mesmo horizonte.

Quando existe propósito, as decisões deixam de ser episódicas e passam a compor uma estratégia.

Foi essa compreensão que orientou a gestão conduzida pela Desembargadora Janete Vargas Simões à frente do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo.

Desde o início, a intenção nunca foi produzir mudanças isoladas ou acumular anúncios. O compromisso assumido consistiu em construir bases permanentes para um Judiciário mais moderno, mais eficiente, mais transparente e mais preparado para os desafios das próximas décadas.

Essa visão explica por que as iniciativas desenvolvidas, embora pertençam a áreas distintas, convergem para um mesmo projeto institucional.

A implantação de uma governança mais estruturada, inspirada no modelo das Três Linhas de Defesa, fortalece a gestão de riscos, o controle interno e a integridade administrativa.

A revisão dos fluxos de trabalho, apoiada na metodologia Lean Office, busca eliminar desperdícios, reduzir tempos improdutivos e permitir que a energia institucional seja direcionada ao que efetivamente agrega valor ao serviço público.

A adoção do modelo Built to Suit para novas edificações demonstra que inovação também pode significar responsabilidade fiscal, planejamento de longo prazo e melhor utilização dos recursos públicos.

Os investimentos em infraestrutura tecnológica, a expansão da telefonia IP, o avanço dos projetos estruturantes de transformação digital, a modernização dos sistemas corporativos e a preparação institucional para o uso responsável da inteligência artificial revelam que inovação deixou de ser um projeto paralelo para tornar-se parte da própria estratégia administrativa.

Ao mesmo tempo, iniciativas voltadas à valorização das pessoas, ao fortalecimento da Escola da Magistratura, à formação continuada, às parcerias acadêmicas e ao desenvolvimento de lideranças demonstram que nenhuma transformação tecnológica produz resultados duradouros sem investimento no capital humano.

Essa talvez seja a principal característica de uma gestão verdadeiramente intencional.

Ela compreende que modernização não consiste apenas em adquirir novas tecnologias. Modernizar é construir instituições capazes de aprender continuamente, adaptar-se às mudanças e entregar resultados cada vez melhores à sociedade.

Quando existe propósito, cada contratação deixa de ser apenas uma contratação. Cada investimento deixa de ser apenas um investimento. Cada inovação deixa de ser um fato isolado.

Tudo passa a integrar uma mesma arquitetura institucional.

É justamente essa coerência que diferencia a gestão estratégica da simples administração cotidiana.

O cidadão talvez não acompanhe cada ato administrativo, cada resolução aprovada ou cada fluxo redesenhado. Mas percebe, ao final, quando a Justiça se torna mais acessível, quando os serviços funcionam melhor, quando os processos internos deixam de consumir tempo desnecessário e quando a instituição demonstra capacidade de responder, com eficiência e responsabilidade, às demandas da sociedade.

É nesse momento que a intencionalidade deixa de ser uma ideia.

Transforma-se em resultado.

E, quando resultados passam a decorrer de um propósito consistente — e não apenas da obrigação de administrar —, a gestão pública alcança sua expressão mais elevada: a capacidade de construir um legado que permanece muito além do tempo de uma administração.

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Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.

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