Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

A inocência não é mais uma opção

A ciência demonstra que o aprendizado humano começa antes mesmo do nascimento. Ainda no ambiente intrauterino, o cérebro em formação identifica sons, reconhece padrões, responde a estímulos e inicia a extraordinária arquitetura de conexões neurais que acompanhará toda a existência. Aprender não é uma etapa da vida; é a própria condição da vida.

A infância, entretanto, concede ao aprendizado uma virtude que somente ela possui: a inocência. A criança não sabe, e justamente por não saber pergunta, experimenta, cai, levanta, insiste. O erro não a diminui; faz parte do caminho. Sua ignorância não é defeito, mas ponto de partida. A natureza compreende que ninguém nasce pronto.

O tempo, porém, altera profundamente essa lógica.

Cada experiência amplia nossa capacidade de compreender o mundo, mas amplia também nossa responsabilidade diante dele. Há um momento em que já não podemos invocar a inocência como justificativa para a inércia. Quem conhece passa a responder pelo que sabe. O conhecimento transforma-se em compromisso.

Essa talvez seja uma das características mais marcantes do nosso tempo.

Durante séculos, o conhecimento adquirido na universidade ou nos primeiros anos de carreira era suficiente para sustentar uma vida profissional inteira. Hoje, essa realidade desapareceu. A velocidade da inovação científica, da inteligência artificial, da automação e da produção de conhecimento tornou obsoleta a ideia de que a experiência, sozinha, basta.

O aprendizado contínuo deixou de representar diferencial competitivo. Tornou-se requisito de permanência.

As instituições públicas talvez sintam esse fenômeno com intensidade ainda maior. A sociedade tornou-se mais informada, mais conectada e mais exigente. O cidadão espera respostas céleres, decisões consistentes, serviços acessíveis, transparência e eficiência. Essas expectativas não podem ser atendidas com ferramentas concebidas para um mundo que já não existe.

É precisamente por isso que a transformação institucional não começa pela tecnologia. Ela começa pelas pessoas.

Nenhum algoritmo substitui a capacidade humana de exercer liderança. Nenhum sistema informatizado produz, por si só, responsabilidade, sensibilidade ou discernimento. A tecnologia multiplica capacidades; são as pessoas que lhes conferem direção, propósito e legitimidade.

Mas também é verdade que a experiência, por mais valiosa que seja, já não autoriza resistência ao novo. O conhecimento acumulado precisa dialogar com a inovação. A tradição precisa conviver com a transformação. O passado oferece fundamentos; jamais pode representar limites para o futuro.

Esse talvez seja o maior desafio da liderança contemporânea: construir organizações capazes de aprender continuamente.

Instituições aprendem quando seus integrantes aprendem. Evoluem quando substituem a cultura da acomodação pela cultura da curiosidade. Tornam-se resilientes quando compreendem que inovação não é um projeto, mas um comportamento permanente.

Essa compreensão tem orientado a atual gestão do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo. Ao celebrar seus 135 anos de existência, o Tribunal reafirma uma convicção que ultrapassa a incorporação de novas tecnologias: modernizar significa desenvolver pessoas, aperfeiçoar processos, fortalecer a governança e construir uma organização preparada para aprender todos os dias.

A inteligência artificial, a transformação digital, a gestão baseada em dados e a simplificação dos fluxos administrativos não representam um fim em si mesmas. São instrumentos para que a Justiça cumpra, com mais qualidade e mais humanidade, a missão que lhe foi confiada pela Constituição.

Talvez exista uma segunda infância reservada às grandes organizações. Não aquela marcada pela ingenuidade, mas pela disposição permanente de aprender. A maturidade institucional não consiste em acreditar que todas as respostas já foram encontradas. Consiste em conservar a humildade necessária para continuar fazendo perguntas.

Porque chega um momento em que já não podemos dizer que não sabíamos.

O tempo presente exige ação. Exige coragem para abandonar modelos esgotados, serenidade para preservar aquilo que merece permanecer e inteligência para integrar experiência e inovação em favor da sociedade.

Aprendemos antes mesmo de nascer.

Mas é somente quando compreendemos que jamais deixaremos de aprender que nos tornamos verdadeiramente maduros.

Anselmo Laghi Laranja
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Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.

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