A perda de manguezais no mundo apresentou uma desaceleração significativa na última década, segundo o 3º Relatório de Avaliação Mundial do Oceano (World Ocean Assessment III – WOA III), considerado o mais amplo diagnóstico científico das Nações Unidas sobre a saúde dos oceanos. Entre 2010 e 2020, a perda líquida anual desses ecossistemas caiu 44% em relação à década anterior, resultado atribuído ao fortalecimento de políticas de conservação e iniciativas internacionais de proteção.
Lançado em junho deste ano, o relatório aponta que a área perdida passou de uma média de 181,5 quilômetros quadrados por ano, entre 2000 e 2010, para 102,4 quilômetros quadrados anuais entre 2010 e 2020. O estudo reúne pesquisadores de 86 países e indica que programas globais, como a iniciativa Mangrove Breakthrough, começam a apresentar resultados concretos na preservação desses ambientes costeiros.
Apesar da melhora, o cenário geral dos oceanos continua preocupante. Um dos autores do relatório, o pesquisador Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), afirma que os manguezais representam uma exceção positiva em meio ao processo de degradação dos ecossistemas marinhos.
“Infelizmente, o relatório apontou uma degradação acelerada dos ecossistemas marinhos globais. Mas, em relação aos manguezais, percebemos uma evolução muito clara e promissora”, destacou.
Benefícios econômicos e ambientais
Além de proteger a biodiversidade, os manguezais desempenham funções consideradas estratégicas para o enfrentamento das mudanças climáticas. Segundo a ONU, esses ecossistemas geram cerca de US$ 65 bilhões por ano em benefícios econômicos, incluindo a proteção da linha de costa contra erosão e tempestades, o sequestro de carbono — conhecido como carbono azul — e a manutenção da biodiversidade.
A oceanógrafa Liziane Alberti, especialista em Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, afirma que os manguezais passaram a ser reconhecidos como uma das principais Soluções Baseadas na Natureza para reduzir os impactos das mudanças climáticas.
Segundo ela, esse reconhecimento decorre do avanço das pesquisas científicas, dos estudos sobre valoração econômica dos ecossistemas, da expansão do mercado de carbono e da crescente mobilização internacional em torno da agenda climática.
Para Christofoletti, investir na conservação dos manguezais também representa uma alternativa mais eficiente e econômica do que obras tradicionais de contenção costeira.
“Em vez de investir milhões em infraestrutura para diminuir o impacto da erosão na praia e amortecer o impacto de tempestades, a manutenção e restauração de uma área de manguezal faz isso de graça. É uma poupança para o futuro”, afirmou.

Risco de colapso
Apesar da redução no ritmo de perda, especialistas alertam que os manguezais continuam ameaçados. A avaliação global da Lista Vermelha de Ecossistemas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) aponta que metade dos ecossistemas de manguezal do planeta corre risco de colapso.
Desse total, cerca de 20% já estão classificados nas categorias mais graves de ameaça: “Em Perigo” ou “Criticamente em Perigo”.
De acordo com Liziane Alberti, a principal ameaça é o avanço das mudanças climáticas, especialmente a elevação do nível do mar, que pode submergir mais de 23 mil quilômetros quadrados de manguezais até 2050.
Outro desafio apontado pelo relatório é o baixo volume de investimentos destinados à conservação desses ambientes. Atualmente, manguezais, marismas e pradarias marinhas — conhecidos como ecossistemas de carbono azul — recebem apenas cerca de 3% dos recursos globais voltados ao financiamento climático, o que limita projetos de preservação e restauração.
O estudo também mostra que apenas cerca de metade dos países com áreas costeiras incorporou ações de proteção dos ecossistemas marinhos em suas metas climáticas apresentadas à ONU.
Brasil concentra uma das maiores áreas de manguezais do planeta
O Brasil ocupa posição estratégica na conservação desses ecossistemas. Ao lado de Indonésia, Austrália, México e Nigéria, o país concentra aproximadamente metade de toda a área de manguezais existente no mundo.
Cerca de 40 milhões de brasileiros vivem em 300 municípios que possuem manguezais, reforçando a importância desses ambientes para a economia, a proteção costeira e o enfrentamento das mudanças climáticas.
Um estudo da Fundação Grupo Boticário, realizado em parceria com o projeto Cazul, estima que os manguezais brasileiros armazenem aproximadamente 1,9 bilhão de toneladas de dióxido de carbono. No mercado voluntário de carbono, esse estoque representa um potencial econômico de pelo menos R$ 48,9 bilhões, podendo ultrapassar R$ 1 trilhão com a expansão e regulamentação do mercado de carbono.










