Quando o sono afeta a memória: o que pode estar por trás dos esquecimentos na terceira idade

Esquecer onde deixou os óculos, repetir uma conversa ou precisar de mais tempo para lembrar uma informação nem sempre é sinal de uma doença neurodegenerativa. Embora alterações cognitivas mereçam investigação, especialistas alertam que outro aspecto costuma passar despercebido nesse processo, a qualidade do sono.

É durante o sono que o cérebro consolida memórias, organiza informações adquiridas ao longo do dia e desempenha processos importantes para o funcionamento cognitivo. Quando esse descanso é interrompido por despertares frequentes, fragmentação do sono ou distúrbios como a apneia obstrutiva do sono, a atenção, a concentração e a capacidade de lembrar também podem ser afetadas.

Segundo a especialista em Medicina do Sono Jéssica Polese, esse é um erro comum entre pacientes e familiares.

“Quando um idoso começa a apresentar esquecimentos, é natural que a preocupação se volte imediatamente para doenças como a demência. Mas, antes de qualquer conclusão, é preciso entender como esse paciente está dormindo. Um sono de má qualidade pode reduzir a capacidade de atenção, dificultar a consolidação da memória e provocar sintomas que muitas vezes são confundidos com um problema exclusivamente cognitivo”, explica.

A especialista explica que o envelhecimento traz mudanças naturais na arquitetura do sono. O sono tende a ficar mais leve e os despertares noturnos podem se tornar mais frequentes. Isso, porém, não significa que noites mal dormidas devam ser encaradas como consequência inevitável da idade.

“Existe uma diferença entre as mudanças fisiológicas do envelhecimento e um distúrbio do sono. Ronco intenso, pausas respiratórias, despertares repetitivos ou sonolência excessiva durante o dia não são sinais que devem ser ignorados. Muitas dessas condições têm tratamento e podem melhorar significativamente a qualidade de vida”, conta.

A preocupação ganha importância em um cenário de envelhecimento populacional. De acordo com o primeiro Relatório Nacional sobre a Demência, divulgado pelo Ministério da Saúde, cerca de 8,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais vivem com algum tipo de demência, o equivalente a aproximadamente 1,8 milhão de pessoas.

Para Jéssica, justamente por esse motivo, é fundamental que a investigação seja ampla. “Nem todo esquecimento é provocado por uma doença neurodegenerativa. O cérebro depende de um sono adequado para desempenhar funções essenciais. Quando o paciente chega ao consultório com queixas de memória, olhar para o padrão de sono faz parte de uma avaliação completa e pode revelar problemas que estavam passando despercebidos”, alerta.

A médica ressalta que alterações persistentes da memória sempre merecem avaliação médica, mas lembra que cuidar do sono também é uma forma de cuidar da saúde cerebral. Quanto mais cedo distúrbios do sono forem identificados e tratados, maiores são as chances de preservar a qualidade de vida, a autonomia e o bem-estar ao longo do envelhecimento.

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