Dois casos recentes registrados no Espírito Santo expõem diferentes formas de violência contra crianças dentro do próprio ambiente familiar. Em um deles, um menino de 10 anos teve as mãos queimadas pela mãe como forma de castigo. No outro, uma criança de 7 anos ficou ferida ao tentar defender o pai durante uma agressão. Especialistas alertam que, quando a violência parte de quem deveria proteger, os impactos vão além das marcas físicas e podem comprometer o desenvolvimento emocional e psicológico.
Casos ocorreram em Sooretama e Vila Velha
No primeiro registro, um menino de 10 anos foi vítima de maus-tratos praticados pela própria mãe, que queimou a palma das mãos da criança com uma colher aquecida. A suspeita, de 25 anos, foi detida no último sábado (4), na localidade de Barra do Chumbado, em Sooretama.
A mulher confessou ter provocado as lesões e afirmou que utilizou a colher quente como forma de castigo, alegando que o filho teria participado de um suposto furto.
O segundo caso aconteceu nesta terça-feira (7), em Terra Vermelha, Vila Velha. Um menino de 7 anos ficou ferido ao tentar defender o pai durante uma agressão dentro de casa. A criança dormia ao lado do pai e dos dois irmãos quando o homem foi atacado pela ex-companheira.
Ao tentar protegê-lo, o menino acabou atingido no braço por uma tesoura usada pela mãe e precisou levar oito pontos. Segundo testemunhas, o ferimento poderia ter sido ainda mais grave.
De acordo com o relato do pai, a mulher foi até a residência, onde a filha de 6 anos abriu a porta. Apontada por testemunhas como dependente química, ela procurava dinheiro. Como não encontrou o valor, entrou no quarto onde estavam o ex-companheiro e os filhos e iniciou as agressões.
A criança foi socorrida pelo pai e encaminhada ao hospital. Apesar dos relatos das testemunhas, a Polícia Militar (PMES) e a Polícia Civil (PCES) informaram que não houve acionamento para atender a ocorrência.
Em nota, a Polícia Civil esclareceu que o crime de lesão corporal depende da representação da vítima ou de seu responsável legal para que a investigação seja instaurada. A corporação orienta que o registro da ocorrência seja feito em uma delegacia ou por meio da Delegacia Online, acompanhado de informações, provas e testemunhas que possam auxiliar na apuração.

Violência de quem deveria proteger causa impactos profundos
Além das consequências físicas, especialistas afirmam que situações como essas podem deixar marcas profundas no desenvolvimento emocional e psicológico de crianças e adolescentes, especialmente quando a violência parte justamente de pessoas que deveriam representar proteção, segurança e cuidado.
Segundo a psicóloga clínica e neuropsicóloga Nívia Netto Moraes Eduardo, a violência vivenciada dentro do ambiente familiar pode provocar alterações no desenvolvimento cerebral e influenciar a forma como a criança lida com emoções, medo e relacionamentos ao longo da vida.
“Quando uma criança sofre ou presencia uma situação de violência, o cérebro entende aquele momento como uma ameaça à sobrevivência. Com isso, são ativados sistemas de alerta, especialmente regiões ligadas ao medo e à resposta ao estresse, como a amígdala, além da liberação de hormônios como adrenalina e cortisol”, explicou.
A especialista afirma que, quando o episódio é isolado e a criança recebe acolhimento e proteção após o ocorrido, há maiores possibilidades de elaborar emocionalmente a experiência. No entanto, quando a violência é intensa, recorrente ou acontece justamente no ambiente que deveria oferecer segurança, o cérebro pode permanecer em estado constante de vigilância.
“Esse estado interfere diretamente na capacidade da criança de regular emoções, manter a atenção, dormir, aprender e construir relações saudáveis. Muitas vezes, comportamentos como irritabilidade, medo, agitação, retraimento ou dificuldade de concentração refletem um sistema nervoso que permanece em alerta”, destacou.

Psicóloga clínica e neuropsicóloga Nívia Netto Moraes Eduardo explica os impactos da violência familiar no desenvolvimento cerebral e emocional das crianças.
Quando a agressão parte de uma figura de cuidado, o impacto tende a ser ainda mais profundo. Segundo Nívia Netto, pais e responsáveis representam, para a criança, referências de proteção, organização emocional e segurança.
“Quando quem deveria proteger também causa medo ou dor, ocorre uma ruptura na sensação de segurança. Isso pode provocar confusão emocional, culpa, medo, insegurança e dificuldades para confiar nos adultos.”
A psicóloga ressalta que esse cenário também pode comprometer os vínculos de apego.
“A criança pode crescer associando afeto à ameaça, cuidado à imprevisibilidade ou autoridade ao medo. Por isso, a violência dentro da relação de cuidado costuma ter um peso emocional muito significativo.”
Traumas podem comprometer aprendizagem e relações sociais
Segundo a neuropsicóloga, experiências traumáticas na infância podem afetar diversas áreas do desenvolvimento.
“No campo emocional, a criança pode apresentar medo excessivo, ansiedade, tristeza, irritabilidade, culpa, baixa autoestima e dificuldade para regular as próprias emoções.”
Ela explica que o trauma também pode comprometer funções cognitivas importantes.
“No desenvolvimento cognitivo, o trauma pode prejudicar atenção, memória, aprendizagem, planejamento e rendimento escolar. Isso acontece porque uma criança em estado permanente de alerta emocional tem menos disponibilidade para aprender. O cérebro fica mais ocupado tentando se proteger do que em explorar, brincar, estudar e se desenvolver.”
A especialista acrescenta que também podem surgir comportamentos como agressividade, isolamento, oposição, choro frequente, regressões, dificuldades para dormir, necessidade excessiva de controle ou comportamentos de evitação.
“Algumas crianças ficam mais agitadas; outras tornam-se mais quietas e retraídas. Nem sempre o sofrimento aparece da mesma forma. É importante lembrar que o trauma não determina o futuro da criança. Com proteção, cuidado, vínculo seguro e intervenção adequada, é possível reduzir os danos e favorecer a reorganização emocional.”

Mudanças de comportamento podem indicar sinais de alerta
Nívia Netto destaca que mudanças bruscas no comportamento, no sono, no apetite, no humor e no rendimento escolar podem indicar que a criança precisa de atenção.
Ela afirma que também podem surgir pesadelos, medo de ficar sozinha ou de determinados adultos, irritabilidade, choro frequente, tristeza, apatia ou maior dependência dos cuidadores.
“Também podem aparecer sintomas físicos sem causa médica evidente, como dores de cabeça, dores de barriga, náuseas ou cansaço constante. Algumas crianças passam a reviver o ocorrido por meio de brincadeiras, desenhos ou falas repetitivas. Outras evitam falar sobre o assunto, permanecem em silêncio, negam o que aconteceu ou parecem emocionalmente desligadas.”
No ambiente escolar, os sinais podem incluir queda no desempenho, dificuldade de concentração, explosões de raiva, isolamento dos colegas ou mudanças importantes em relação ao comportamento habitual da criança.
Proteção e apoio psicológico são fundamentais para reduzir os impactos
Para a especialista, a exposição à violência doméstica durante a infância pode deixar consequências duradouras, principalmente quando a criança não recebe proteção, acolhimento e acompanhamento adequado.
“Na adolescência e na vida adulta, essas experiências podem aumentar o risco de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, baixa autoestima, dificuldades nos relacionamentos, medo de confiar nas pessoas e maior sensibilidade a situações de ameaça ou rejeição.”
Ela explica que também podem surgir dificuldades no controle das emoções, impulsividade, agressividade, isolamento, problemas escolares ou profissionais e maior vulnerabilidade a relações abusivas. Em alguns casos, a violência pode até ser naturalizada como forma de resolver conflitos por ter sido aprendida dentro do ambiente familiar.
“É muito importante reforçar: risco não significa destino. A presença de adultos protetivos, apoio familiar saudável, uma escola atenta, uma rede de proteção e acompanhamento psicológico podem mudar significativamente a trajetória dessa criança.”
Segundo Nívia Netto, o acompanhamento psicológico precoce é essencial para reduzir os impactos do trauma.
“Quanto antes a criança for acolhida e protegida, maiores serão as chances de elaborar essa experiência sem que o sofrimento se torne persistente.”
Ela ressalta que o primeiro passo é garantir a segurança da criança, já que nenhuma intervenção psicológica será suficiente enquanto ela continuar exposta à violência. Depois disso, o tratamento busca ajudá-la a compreender que não teve culpa pelo ocorrido, reconstruir a sensação de segurança e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com emoções como medo, tristeza, raiva e insegurança.
“Na infância, esse processo costuma acontecer por meio de conversas, brincadeiras terapêuticas, desenhos, histórias, técnicas de regulação emocional e orientação aos cuidadores. A participação de adultos seguros é essencial, porque a criança precisa voltar a experimentar relações de confiança, previsibilidade e proteção.”
Para a especialista, a recuperação não significa apagar o que aconteceu, mas ajudar a criança a ressignificar essa experiência de forma menos dolorosa, fortalecendo a autoestima, a segurança emocional e a capacidade de voltar a confiar nas pessoas e no ambiente em que vive.










