Dia Internacional do Reggae: o Rei que o “som de Bob” sempre procurou

Dia Internacional do Reggae: o Rei que o "som de Bob" sempre procurouNo dia 1º de julho, quando se celebra o Dia Mundial do Reggae, milhões de pessoas recordarão um gênero musical que ultrapassou as fronteiras da Jamaica para se tornar símbolo de resistência, paz e esperança. Mas poucos percebem que, por trás de seus acordes marcantes, há uma narrativa profundamente inspirada na Bíblia.

Não é por acaso que palavras como “Sião”, “Babilônia”, “Êxodo”, “Leão de Judá” e “Jah” aparecem com frequência nas letras de reggae. Elas não nasceram na cultura jamaicana. Vieram das páginas das Escrituras.

O reggae canta uma esperança antiga. A mesma esperança que atravessa toda a história do povo de Israel. A diferença é que, em determinado momento, seus caminhos se separam.

A canção dos que ansiavam por libertação

O reggae nasceu entre descendentes de africanos escravizados, em uma Jamaica marcada pela pobreza, pela desigualdade e pelas feridas do colonialismo. Ao abrirem a Bíblia, muitos enxergavam sua própria história refletida na trajetória de Israel.

Assim como os hebreus foram escravizados no Egito, eles também conheciam o peso da opressão. Assim como Israel clamou por libertação, eles também esperavam por um dia de justiça.

Não surpreende que a história do Êxodo tenha se tornado um dos grandes pilares da espiritualidade ligada ao reggae. O Deus que declarou a Moisés: “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo” (Êxodo 3.7) continuava sendo visto como o Deus que escuta o clamor dos aflitos.

Dia Mundial do Reggae: o Rei que o "som de Bob" sempre procurou
“Exodus” (1997) é um dos discos mais marcantes da carreira de Bob Marley

Essa leitura encontra sólido fundamento bíblico. Afinal, desde o início, Deus revela seu cuidado pelos oprimidos, pelos estrangeiros, pelas viúvas e pelos órfãos. O anseio por justiça presente no reggae não é estranho às Escrituras. Pelo contrário: ele ecoa a voz dos profetas e dos salmistas.

Sião e Babilônia: símbolos que vieram da Bíblia

Entre as imagens mais presentes no reggae estão Sião e Babilônia.

Na Bíblia, Sião representa Jerusalém, a cidade do grande Rei, lugar da presença de Deus e símbolo da esperança do povo da aliança. Já Babilônia tornou-se o retrato do império arrogante, da opressão e do exílio.

No reggae, esses símbolos ganharam novos contornos. Sião passou a representar liberdade, dignidade e restauração. Babilônia tornou-se metáfora para sistemas injustos, racistas e opressores.

Essa releitura cultural ajuda a explicar por que tantas letras do gênero dialogam naturalmente com os Salmos, Isaías e outros livros do Antigo Testamento.

Onde os caminhos se dividem

É justamente nesse ponto que surge o rastafarianismo.

Esse movimento religioso reconheceu diversas verdades presentes nas Escrituras: a soberania de Deus, a esperança de restauração e a expectativa por um Rei justo. Entretanto, identificou o imperador etíope Haile Selassie I como o Messias esperado.

Dia Mundial do Reggae: o Rei que o "som de Bob" sempre procurou
Haile Selassie I (1892-1975) foi Imperador da Etiópia de 1930 a 1974. Ele é considerado o Messias e a própria encarnação de Deus na Terra para a grande maioria dos adeptos do movimento Rastafari

É aqui que o Evangelho apresenta um caminho diferente.

Desde Gênesis, a Bíblia aponta para um único Redentor. Os profetas anunciaram que Ele viria da descendência de Davi, nasceria conforme as promessas divinas e estabeleceria um reino eterno não apenas sobre um povo, mas sobre todas as nações.

Para os cristãos, essa promessa se cumpriu em Jesus Cristo.

Ele é o Servo Sofredor anunciado por Isaías, o Filho de Davi esperado por Israel e o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1.29).

Como observava João Calvino, todas as promessas de Deus encontram seu cumprimento em Cristo. A esperança espalhada pelo Antigo Testamento converge para uma única pessoa.

O Leão de Judá já veio

Talvez nenhum símbolo seja tão conhecido no reggae quanto o Leão de Judá.

Nas Escrituras, porém, esse título não aponta para um imperador terreno. Desde Gênesis 49, ele identifica a linhagem real da qual surgiria o Messias. Em Apocalipse 5, a identidade desse Leão é finalmente revelada.

É Jesus.

Curiosamente, o mesmo texto apresenta uma das imagens mais belas de toda a Bíblia. João ouve falar de um Leão poderoso, mas quando olha, vê um Cordeiro que foi morto.

O Rei vence não pela força das armas, mas pelo sacrifício da cruz.

É essa a diferença fundamental entre qualquer expectativa humana de libertação e a libertação oferecida pelo Evangelho.

A busca que também marcou Bob Marley

O maior nome do reggae, Bob Marley, ajudou a popularizar muitos elementos da espiritualidade rastafári. Entretanto, nos últimos meses de sua vida, ele confessou Jesus como Salvador e Senhor de sua vida, foi batizado e recebido na Igreja Ortodoxa Etíope e recebeu o nome Berhane Selassie, “Luz da Trindade”.

Dia Mundial do Reggae: o Rei que o "som de Bob" sempre procurou
Bob Marley foi adepto do rastafarianismo a maior parte de sua vida. Em seus últimos dias, ele confessou Jesus como Salvador e Senhor de sua vida, sendo batizado e recebido na Igreja Ortodoxa Etíope

Os detalhes de sua caminhada espiritual continuam sendo debatidos, e não cabe a nós emitir juízo sobre seu destino eterno. Ainda assim, sua trajetória revela algo profundamente humano: a busca incessante pela verdade.

Essa busca não começou com Marley, nem terminou com ele.

Ela acompanha toda a humanidade.

O Rei que o reggae sempre procurou

O reggae canta sobre libertação. Canta sobre justiça. Canta sobre paz. Canta sobre um reino onde a opressão finalmente terá fim.

Esses anseios são legítimos. Na verdade, eles ecoam as promessas que Deus fez desde o princípio das Escrituras.

Mas a Bíblia vai além. Ela anuncia que o Rei esperado não nasceu em um palácio, nem conquistou povos pela espada.

Nasceu em uma humilde manjedoura, entregou-se voluntariamente em uma cruz e ressuscitou ao terceiro dia para vencer o pecado, a morte e toda forma de escravidão espiritual.

No fim das contas, toda canção que anseia por um mundo restaurado aponta, ainda que sem perceber, para aquele que declarou: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5).

Talvez seja por isso que o reggae continue emocionando tantas pessoas. Porque, mesmo sem saber, ele canta uma esperança que só encontra seu cumprimento definitivo em Jesus Cristo, o verdadeiro Rei que o mundo sempre procurou.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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