Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja
Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Rebeldes e Convergentes: a liderança que transforma diferenças em resultados

Toda organização vive uma tensão permanente entre duas forças.

De um lado, estão aqueles que preservam. Conhecem os processos, respeitam os protocolos, zelam pela conformidade, evitam riscos e garantem que a instituição continue funcionando com estabilidade. São os convergentes. Aproximam-se dos objetivos institucionais pela disciplina, pela previsibilidade e pela confiança que inspiram.

Do outro lado, encontram-se aqueles que inquietam. Questionam procedimentos, desafiam modelos consolidados, identificam oportunidades invisíveis aos demais e insistem em perguntar por que algo continua sendo feito da mesma maneira há tantos anos. São os rebeldes. Não porque rejeitem a instituição, mas porque recusam a acomodação.

A primeira impressão pode sugerir que esses grupos ocupam lados opostos. Na realidade, constituem duas faces da mesma organização.

Walter Longo observa que empresas inovadoras aprendem a conviver com ambos os perfis. A administração pública não é diferente. Talvez essa necessidade seja ainda maior.

O Poder Judiciário vive um momento singular. A inteligência artificial automatiza atividades repetitivas, a transformação digital modifica fluxos de trabalho, a gestão por dados substitui decisões intuitivas e a sociedade exige respostas cada vez mais rápidas, transparentes e eficientes.

Nesse ambiente, a simples repetição do passado deixou de ser suficiente. Mas a ruptura permanente também não é uma alternativa aceitável.

Tribunais existem para produzir segurança jurídica. Sua legitimidade repousa precisamente na previsibilidade das decisões, na integridade dos procedimentos, na estabilidade institucional e na confiança da sociedade.

É justamente por isso que a inovação precisa ser conduzida com responsabilidade.

O rebelde identifica possibilidades que ainda não foram percebidas. O convergente assegura que essas possibilidades sejam incorporadas sem comprometer a estabilidade da instituição.

Quando um elimina o outro, ambos fracassam.

Organizações compostas apenas por convergentes tornam-se burocráticas. Aperfeiçoam o passado, mas encontram dificuldades para construir o futuro.

Organizações formadas apenas por rebeldes vivem em permanente reinvenção. Produzem entusiasmo, mas frequentemente sacrificam a continuidade, a governança e a segurança.

A maturidade administrativa consiste em compreender que inovação e estabilidade não competem entre si. Elas se complementam.

Essa talvez seja uma das tarefas mais sofisticadas da liderança contemporânea.

O líder não existe para uniformizar pessoas. Existe para harmonizar talentos diferentes em torno de um propósito comum.

Sua função não é transformar rebeldes em burocratas nem converter convergentes em revolucionários.

Sua verdadeira responsabilidade é criar um ambiente onde o inconformismo produza inovação e a disciplina transforme inovação em política institucional.

Essa compreensão ganha ainda mais relevância no contexto da inteligência artificial.

As máquinas executarão processos, elaborarão minutas, organizarão informações e acelerarão rotinas. Entretanto, continuarão incapazes de exercer prudência, discernimento, responsabilidade institucional e julgamento ético.

A liderança permanece insubstituível justamente porque administra pessoas, e não apenas processos.

Ao completar 135 anos de existência, o Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo demonstra que instituições longevas não sobrevivem porque resistem às mudanças, mas porque aprendem a mudar sem abandonar os princípios que lhes conferem identidade.

A boa governança nasce exatamente desse equilíbrio.

É ela que permite preservar aquilo que não pode mudar e transformar, com coragem e responsabilidade, tudo aquilo que precisa evoluir.

No fim, as organizações mais sólidas não são aquelas que silenciam seus rebeldes nem aquelas que exaltam apenas os convergentes. São aquelas que descobriram que o futuro pertence às instituições capazes de fazer dessas diferenças a sua maior força.

Anselmo Laghi Laranja
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Anselmo Laghi Laranja é juiz de Direito, Secretário Geral do TJES, Mestre em História Social das Relações Políticas e Doutor em Direito Constitucional.

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