Um simples tropeço na rotina pode representar um impacto devastador e muito mais do que um susto para a população idosa do Espírito Santo. Em questão de segundos, uma queda aparentemente boba dentro do lar pode resultar em fraturas graves, perda total da autonomia, longas internações hospitalares e, nos casos mais severos, levar ao óbito.
Nesta quarta-feira (24), quando se celebra o Dia Mundial de Prevenção de Quedas, os indicadores de saúde no Estado acendem uma luz vermelha. Dados oficiais da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) apontam que, de janeiro a junho de 2026, 168 pessoas morreram no Espírito Santo após sofrerem uma queda. As vítimas tinham idades entre 60 e mais de 80 anos. O cenário dá continuidade ao patamar crítico observado em todo o ano passado, quando as quedas provocaram a morte de 630 idosos em território capixaba.
O volume de pessoas que necessitam de leitos hospitalares no Estado devido a esses acidentes também impressiona: de janeiro a abril de 2026, o Espírito Santo já contabilizou 1.634 internações de idosos (população 60+). Em todo o ano de 2025, o total de hospitalizações por essa mesma causa havia chegado a 4.995 pacientes na rede pública e particular.
O panorama global e o fator doméstico
A gravidade do problema local ecoa uma realidade mundial. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 684 mil pessoas perdem a vida anualmente devido a quedas, o que transforma esse tipo de acidente na segunda principal causa de morte por lesões não intencionais no planeta, ficando atrás somente das estatísticas de trânsito. Adicionalmente, estimas apontam que entre 30% e 40% das pessoas com mais de 65 anos sofrem ao menos uma queda por ano.
No Brasil, o Ministério da Saúde faz uma advertência ainda mais direcionada: sete em cada dez mortes acidentais de pessoas com mais de 75 anos são provocadas por quedas. E o dado mais impactante para as famílias capixabas é o local da ocorrência: cerca de 70% desses acidentes acontecem dentro de casa, onde os riscos arquitetônicos e de mobília passam despercebidos.
Envelhecimento acelerado e o impacto no SUS
Para a médica geriatra Elisangela Chaves, o avanço do envelhecimento populacional torna o debate urgente para as políticas públicas do Espírito Santo. A projeção da OMS indica que, até 2050, cerca de 30% da população brasileira terá mais de 60 anos, superando o número de crianças e adolescentes de até 14 anos.
“O aumento da expectativa de vida e o crescimento acelerado da população idosa tornam a prevenção das quedas uma prioridade de saúde pública. Investir em medidas preventivas é significativamente menos oneroso do que lidar com as consequências de uma queda grave”, pontua a geriatra Elisangela Chaves.
De acordo com dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, as principais causas de internações prolongadas e cirurgias de alto custo na terceira idade são decorrentes de fraturas de fêmur, punho, coluna e traumatismos cranianos gerados pelo impacto contra o solo.
Quedas não são normais: identifique os sinais de alerta antes do acidente
A especialista desmistifica a ideia de que cair faz parte natural do processo de envelhecer. Na maioria das vezes, o acidente é o resultado final de uma soma de fatores clínicos, como a perda progressiva de força e massa muscular (sarcopenia), labirintites, deficits de visão, problemas cognitivos ou doenças como o Parkinson e sequelas de AVC. O uso de múltiplos medicamentos (polifarmácia), como sedativos e anti-hipertensivos, também eleva o risco.
O portal reuniu os principais sinais físicos de que o idoso está perdendo estabilidade e precisa de avaliação médica imediata:
Dificuldade para levantar-se de cadeiras ou sofás sem o apoio das mãos;
Redução perceptível da velocidade ao caminhar ou tropeços frequentes;
Sensação de desequilíbrio, insegurança ou necessidade de apoiar-se em móveis e paredes;
Demonstração de medo de caminhar, mesmo que não tenha caído recentemente;
Tonturas ou instabilidade ao se levantar rapidamente da cama ou da cadeira.
Guia de sobrevivência residencial: pequenas mudanças que salvam vidas
Modificar o ambiente doméstico é a estratégia mais rápida e barata para zerar os riscos de acidentes. A geriatra Elisangela Chaves destaca as principais recomendações técnicas para os familiares:
Iluminação: Manter os cômodos bem claros, principalmente os acessos ao banheiro durante a noite;
Obstáculos: Eliminar de vez tapetes soltos, capachos, desníveis de piso e manter os corredores livres de móveis móveis;
Segurança no banheiro: Instalar barras de apoio adequadas em boxes, próximos ao vaso sanitário e em escadas;
Áreas molhadas: Aplicar pisos ou faixas antiderrapantes e secar imediatamente qualquer respingo de água;
Vestuário: Priorizar o uso de calçados fechados e com solados de borracha antiderrapante, evitando chinelos velhos ou meias lisas.
Na pauta do Congresso: Política Nacional de Prevenção
O reflexo desse gargalo social e de saúde mobilizou o Legislativo Federal. A Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei nº 4.376/2024, que propõe a criação da Política Nacional de Prevenção de Quedas entre Pessoas Idosas.
A proposta foca no desenvolvimento de programas públicos de exercícios para equilíbrio, adaptações em postos de saúde e reabilitação integral pós-acidente. Contudo, a matéria ainda segue em tramitação pelas comissões do Congresso Nacional e aguarda as próximas etapas de votação antes de seguir para a sanção da Presidência da República.










