“Botão da M’agua’’: espetáculo de dança afro-contemporânea aborda retorno à memória e à ancestralidade feminina

Um corpo que carrega memórias antigas e aprende a se benzer no próprio movimento: assim se desenvolve o espetáculo de dança afro-contemporânea “Botão da M’agua’’, idealizado e protagonizado pela bailarina capixaba Ju Fachetti, com mentoria artística e coreográfica de Elídio Netto. As próximas apresentações acontecem nos dias 25, 26 e 27 de junho, às 19h30, no Teatro Virgínia Tamanini, no Centro Cultural Sesc Glória. Os ingressos estão à venda e podem ser adquiridos para cada uma das datas de apresentação.

Com movimentos cíclicos, “Botão da M’agua’’ representa os momentos em que lembranças, gestos e afetos emergem e provocam transformações, num corpo atravessado por vozes de mulheres, por gestos pequenos, por silêncios que ficam. A cena se constrói em espiral, como quem retorna e escuta a própria memória. A dança acontece nesse entre: cair e levantar, desfazer e refazer, lembrar e seguir.

Marcando a estreia solo e autoral de Ju Fachetti, bailarina e transdisciplinar com mais de dez anos de carreira, “Botão da M’agua’’ surge de reflexões e experiências pessoais em torno da sua ancestralidade feminina, atravessadas pela luto da perda da avó materna, Maria das Graças, e do entendimento desse processo não só como ausência, mas como um estado sensível capaz de mobilizar lembranças profundas e provocar um retorno às experiências da infância, atravessadas por memórias coletivas entre as mulheres da sua família.

A construção do espetáculo traz referências da filosofia de Bunseki Fu-Kiau, que compreende o corpo como continuidade entre vida, rito e cosmos; da ideia do tempo como espiral e da memória escrita no gesto, de Leda Maria Martins; das questões ligadas ao silêncio e trauma, estudadas por Grada Kilomba. Também inspiraram o espetáculo a percepção dos fluidos corporais na dança afro-contemporânea e o conceito popular de “arcas caídas”, associado a dores e tensões na região da boca do estômago, identificada pela artista pelo termo “botão da mágoa”, como nomeava sua avó.

“Botão da M’agua’’: espetáculo de dança afro-contemporânea aborda retorno à memória e à ancestralidade femininaO espetáculo chega à sua terceira temporada de apresentações e estreou em dezembro de 2025, como fruto do Trabalho de Conclusão do Curso de Artes Plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e resultado da Residência Artística Movência, idealizada por Ju Fachetti com mentoria do bailarino e coreógrafo Elídio Netto. A residência percorreu estudos e criação coreográfica, com imersão e vivências em dança gratuitas e abertas ao público, com a presença dos artistas Lalau Martins, Jordan Fernandes, Jadson Titânio e Gil Mendes.

“O espetáculo surge da residência Movência, onde convidei Elídio Netto para ser meu mentor artístico e ele continua comigo sendo essa presença nas apresentações. Quando vi Elídio falar de suas matriarcas, pensei que não haveria outro caminho para um primeiro trabalho solo e autoral. A gente diz que descobrimos um quarto escuro do peito, onde memórias estavam guardadas em gavetas que precisavam ser mexidas e revisitadas. Cresci na casa de minha avó, em uma família formada e sustentada por mulheres, sendo a filha mais velha de minha mãe e a primeira pessoa da minha família a escolher a arte como caminho profissional. Minha pesquisa artística investiga o luto como um provocador de retorno às memórias da infância, valorizando os saberes, gestos e histórias das mulheres que me criaram. Dançar “Botão da m’agua” é uma elaboração constante do que é a ausência, do que é resistência e do que é desaguar. Cada apresentação é diferente, é um choro diferente, é uma troca diferente. É um trabalho que convida também o público a revisitar dentro de si a história familiar que o compõe enquanto indivíduo, enquanto afetos, enquanto saudade. Não é sobre curar algo, é sobre dar vazão ao que faz o botão da mágoa doer”, explica Ju.

Ju Fachetti é artista transdisciplinar, atuando como produtora cultural, bailarina e artista visual. Bacharelanda em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), estudante de Produção Cultural pela Uniasselvi e Técnica em Dança formada pela FAFI. Acumula mais de dez anos de trajetória na cena artística capixaba, tendo integrado companhias, grupos e projetos de destaque como a Cia de Dança Afro NegraÔ e o espetáculo Inconstante, de Gabriela Moriondo e Glauber Viana. Atualmente, é idealizadora e coordenadora da residência artística em dança Movência. A partir das lembranças de suas matriarcas, desenvolve reflexões e práticas que se desdobram em cartografias sensíveis — mapas de criação que aproximam memória, corpo e águas. Entre a dança, as artes visuais e a produção cultural, busca construir processos que articulam ancestralidade, território e experiência cotidiana como matéria para a criação artística.

Links dos 🎟️ Ingressos à venda: 25/06 / 26/06 / 27/06 

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