Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.
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Escolas e crime

Há pouco tempo, lendo o respeitado jornal The Times, deparei-me com uma matéria excepcional. Eis o seu título: “Os crimes violentos na Escócia caíram em quase 50% ao longo da última década”.

Diante de tão acentuada queda atirei-me à leitura do texto. Inicialmente contemplemos os números, fruto de pesquisa oficial. Constatou-se que a criminalidade em geral foi reduzida em 45% e a violenta em 48%. O estudo, que incluiu estimativas de subnotificação, encontrou ainda que a proporção de pessoas que foram vítimas de crime caiu de 20,4% em 2009 para 12,4% em 2019.

Estes são números absolutamente vistosos e consistentes, porquanto relativos a toda uma década. Chama a atenção, ainda, o fato de a pesquisa ser oficial, porém realizada com a ajuda da sociedade civil organizada.

Surge, então, a indagação: como conseguiram isso? Construindo mais prisões? Fundando esquadrões da morte? Torturando os presos? Isolando os marginais em guetos? Não. O principal fator, pasme, veio das escolas.

Chegou-se à conclusão de que as escolas não deveriam desistir de nenhum aluno. Assim, os professores começaram a identificar crianças com problemas de comportamento, traumas etc. Aí entraram em cena assistentes sociais e a própria polícia, agindo preventivamente.

Havia aquelas crianças que, por conta da pobreza, viviam em comunidades problemáticas. Cuidou-se para que permanecessem o máximo de tempo possível nas escolas – que nelas pudessem divertir-se e aprender novos ofícios.

Transcrevo as palavras, infinitamente sábias, de Humza Yousaf, Secretário de Justiça: “A intervenção pronta e a prevenção foram, e continuam a ser, críticas nos esforços para manter a criminalidade baixa e as comunidades seguras”.

E as de Karyn McCluskey, chefe da Justiça Comunitária: “Mantenha as crianças engajadas e fora das ruas, se necessário até de suas casas nos casos de traumas intensos, e suas vidas serão transformadas”.

Pois é. Enquanto isso, moro no centro de uma capital, a poucos metros das sedes de vistosas instituições – sob cujas vistas as escolas vivem sitiadas por criminosos. Onde professores trabalham acuados pelo tráfico – que não raramente decreta até o fechar de portas. Este quadro é nacional e já começa a ser histórico. E não o enfrentamos. Vivemos iludidos, cercados pelo crime. Pobre Brasil!

Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.

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