Luto prolongado pode atingir 50% dos que perderam entes em mortes trágicas

Perder alguém faz parte da experiência humana. Ainda assim, lidar com a ausência continua sendo um dos maiores desafios da vida. Em uma sociedade acostumada a respostas rápidas e à retomada imediata da rotina, nem sempre existe espaço para vivenciar a dor no próprio tempo. O resultado é que muitas pessoas enfrentam o sofrimento em silêncio, tentando seguir em frente antes mesmo de compreender o que perderam.

O tema ganhou ainda mais relevância nos últimos anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluir o transtorno de luto prolongado na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). A condição é caracterizada pela persistência de sofrimento intenso após uma perda significativa, comprometendo a capacidade da pessoa de retomar aspectos importantes da vida cotidiana.

Embora não existam dados epidemiológicos oficiais consolidados sobre a prevalência exata do Transtorno do Luto Prolongado (TLP) específicos para o Brasil ou para o Espírito Santo, estudos internacionais de referência apontam que entre 2,5% e 10% das pessoas que enfrentam uma perda significativa desenvolvem o luto prolongado. Esse índice sobe drasticamente, podendo atingir entre 30% e 50% dos enlutados em casos de homicídios, suicídios, acidentes graves ou mortes repentinas.

Uma tese realizada no Instituto Nacional de Câncer (INCA) avaliou pais que perderam filhos em decorrência do câncer e identificou que 17,2% dos respondentes preenchiam os critérios clínicos para o Transtorno do Luto Prolongado, associado a um índice de 32,3% de sintomas depressivos graves na mesma amostragem.

Segundo o psiquiatra forense Vitor Maia, mestre em ansiedade e depressão, o reconhecimento da condição não significa que o luto tenha se tornado uma doença, mas reforça a necessidade de compreender seus impactos e identificar situações que exigem atenção especializada.

“O luto, por si só, não é uma doença. Mas a persistência de sofrimento intenso sem apoio adequado pode aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos mentais, como depressão, transtornos de ansiedade, abuso de substâncias e alterações importantes do sono”, explica.

Embora toda perda provoque sofrimento, a intensidade e a duração desse processo variam de pessoa para pessoa. No luto considerado natural, mesmo diante da tristeza e da saudade, ocorre uma adaptação gradual à nova realidade. Aos poucos, a pessoa consegue reconstruir a rotina, preservar vínculos afetivos e encontrar maneiras de seguir a vida, sem que a ausência deixe de existir.

Comprometimento

O alerta surge quando o sofrimento permanece intenso e passa a comprometer diferentes áreas da vida. Nesses casos, sentimentos persistentes de desesperança, isolamento extremo, prejuízos nas relações pessoais, dificuldades no trabalho e pensamentos recorrentes relacionados à morte podem indicar a necessidade de ajuda profissional.

“Quando o sofrimento permanece intenso por longos períodos, sem sinais de elaboração, ou quando surgem desesperança persistente, isolamento extremo, prejuízo significativo do funcionamento pessoal e profissional, pensamentos recorrentes de morte ou desejo de não continuar vivendo, torna-se recomendável procurar acompanhamento psiquiátrico ou psicológico”, afirma.

Para o especialista, um dos equívocos mais comuns é acreditar que existe um prazo determinado para superar uma perda. O processo de luto não segue um calendário nem pode ser medido pelas expectativas de quem observa a situação de fora.

Outro desafio está na forma como familiares e amigos tentam oferecer apoio. Frases frequentemente utilizadas com a intenção de confortar podem acabar transmitindo a mensagem de que a dor deveria ser menor ou mais breve do que realmente é. “Muitas vezes, mais importante do que encontrar as palavras certas é oferecer presença, escuta e disponibilidade para acolher o sofrimento sem julgamentos ou cobranças”, destaca.

As perdas que doem, mas raramente são reconhecidas

Quando se fala em luto, a maioria das pessoas associa a experiência à morte de um familiar ou amigo próximo. No entanto, outras rupturas também podem provocar sofrimento profundo, mesmo sem receber o mesmo reconhecimento social. O fim de um relacionamento, uma perda gestacional, a infertilidade, a aposentadoria involuntária, a perda da autonomia ou a morte de um animal de estimação estão entre as situações que podem desencadear processos legítimos de luto.

Apesar disso, muitas dessas experiências seguem cercadas por incompreensão. Em vez de acolhimento, quem enfrenta essas perdas frequentemente se depara com comentários que minimizam a dor ou sugerem que o sofrimento não é justificável.

Segundo a psicóloga Tainá Machado, esse fenômeno é conhecido como luto não reconhecido, ou não legitimado. A situação ocorre quando uma perda significativa para a pessoa não é compreendida nem validada por quem está ao redor. “O luto não reconhecido ocorre quando a perda vivenciada pela pessoa não é validada, reconhecida ou apoiada pelas pessoas ao redor. A pessoa sofre uma perda real e significativa para si, mas sente que não tem ‘permissão’ para externalizar sua dor ou receber o acolhimento necessário”, explica.

De acordo com a especialista, algumas perdas recebem mais acolhimento porque são culturalmente entendidas como eventos dolorosos. Outras acabam sendo invisibilizadas por não se encaixarem nas expectativas sociais sobre o que merece ser lamentado.

Esse cenário faz com que muitas pessoas enfrentem não apenas a perda em si, mas também a dificuldade de encontrar espaço para falar sobre o que estão vivendo. Em alguns casos, surge até o questionamento sobre a legitimidade dos próprios sentimentos. “Algumas perdas acabam recebendo mais acolhimento social porque são reconhecidas pela cultura e pelas pessoas como eventos dolorosos e significativos. Já outras tendem a ser diminuídas por não se encaixarem nas expectativas sociais sobre o que tem direito de ser lamentado”, afirma.

Para Tainá, ampliar a compreensão sobre as diferentes formas de luto é uma maneira de tornar o acolhimento mais acessível a pessoas que, muitas vezes, atravessam processos de sofrimento sem o suporte que receberiam diante de perdas socialmente reconhecidas.

O corpo também sente os efeitos da perda

Embora o luto seja geralmente associado às emoções, seus impactos podem alcançar diferentes aspectos da saúde. Alterações no sono, fadiga constante, dores físicas, mudanças no apetite e dificuldade de concentração estão entre as manifestações frequentemente observadas por profissionais que acompanham pessoas enlutadas.

Segundo o neuropsicólogo e terapeuta cognitivo-comportamental André Zonta, mente e corpo respondem conjuntamente ao estresse provocado por perdas significativas. Quando o sofrimento se prolonga, os efeitos podem surgir de formas que nem sempre são imediatamente associadas ao processo emocional.

“É comum surgirem sintomas físicos como fadiga constante, dores musculares, tensão na nuca e nos ombros, dores de cabeça, alterações gastrointestinais, falta de apetite ou aumento da fome, insônia, palpitações e sensação de falta de ar”, explica.

De acordo com o especialista, muitas pessoas procuram atendimento médico por causa desses sintomas sem perceber que eles podem estar relacionados ao momento de perda que estão vivendo.

O luto, por si só, não segue um prazo determinado. Cada pessoa encontra maneiras próprias de lidar com a ausência, reconstruir a rotina e adaptar-se à nova realidade. Ainda assim, existem situações em que o sofrimento passa a exigir atenção especializada.

Entre os sinais de alerta estão o isolamento social acentuado, a dificuldade de retomar atividades cotidianas, sentimentos persistentes de desesperança, crises frequentes de ansiedade, uso abusivo de álcool ou outras substâncias e pensamentos relacionados à morte. “O foco não está apenas no tempo decorrido desde a perda, mas principalmente na intensidade do sofrimento e no impacto que ele causa na vida cotidiana”, ressalta.

Nesses casos, o acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico pode ajudar a pessoa a compreender o que está vivenciando e encontrar estratégias para atravessar esse processo de forma mais saudável.

Para André, buscar apoio profissional não significa incapacidade de lidar com a perda, mas uma forma de cuidado diante de uma experiência que afeta diferentes dimensões da vida. “Quando acolhemos o luto, não estamos alimentando a dor, mas honrando uma história de afeto que foi importante”, conclui.

 

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