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Apesar da geração Z, sonho dourado da CLT sobrevive

Por mais que pesquisas atuais mostrem o contrário, José Vitor Faustino, 83, não considera normal ver um trabalhador trocar de emprego. “Vejo como fracasso, para dizer a verdade. Muitos jovens nem querem trabalhar e ninguém se apega a nada. Trabalho com muitos jovens e dou minha pitada de experiência para eles. Digo: ‘olha, trabalhar nunca matou ninguém, gente'”, afirma.

Hoje gerente da Itaiquara Alimentos, em Tapiratiba (280 km de São Paulo), Faustino foi contratado pela empresa na idade mínima legal, em 1956, quando estava com 14 anos. Em 2026, ele completará sete décadas de carteira assinada pelo mesmo empregador. Lembra ter feito serviços anteriores para a usina de açúcar do grupo antes disso. Mas era algo informal e quem recebia o pagamento era seu pai, Luiz Faustino.

José Vitor continuou a trabalhar de segunda a sexta mesmo após ter sofrido um AVC (acidente vascular cerebral) que o fez perder a visão do olho esquerdo, para consternação da família. Mas ele gosta de desafiar prognósticos, reconhece.
“Quando percebi que meus filhos estavam criados, resolvi que queria ser advogado. Aí me formei bacharel em Direito”, conta. Quando isso aconteceu, ele estava com 74 anos.

Mas casos como o dele, de alguém que passa muitos anos na mesma empresa trabalhando em regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), deverão ser cada vez mais raros.
Relatório Clima e Engajamento de 2024, da plataforma Gupy, aponta que a Geração Z (nascidos entre a metade dos anos 1990 até 2010) fica, em média, apenas nove meses no mesmo emprego.

Pesquisa Datafolha, publicada em junho de 2025, mostra que 58% dos brasileiros preferem trabalhar de forma autônoma do que com carteira assinada. Na faixa etária dos 16 aos 24 anos, o número sobe para 68%.

“A geração Z prioriza fatores como saúde mental e equilíbrio, o que desafia uma cultura de esgotamento que muitas vezes era aceita pelas gerações anteriores. Essas pessoas valorizavam mais a segurança de um emprego formal, a lealdade à empresa e viam o trabalho árduo como caminho para a ascensão social”, diz Maria Cristina Pereira Matos, professora e consultora em recursos humanos e organizações das empresas.

Não há uma estatística a respeito de trabalhadores com décadas no mesmo empregador. Estatísticas do Ministério do Trabalho e Emprego, divulgadas em 2020, demonstram que na força de trabalho entre 50 a 64 anos, 41,7% permanecem dez anos ou mais no mesmo emprego.

É uma alteração de mentalidade que Marilisa Grottone, 79, viu crescer nos últimos tempos. Ela é diretora-geral do Colégio Santa Cecília, em Santos, desde 1980. Diz que por trabalhar todos os dias com crianças e adolescentes, percebe que a maneira de ver o mundo mudou.
“Talvez não entendam que alguém possa ficar tanto tempo no mesmo lugar. Mas é a minha realização pessoal”, afirma.

Ela entrou no colégio aos 16 anos, em 1962, como auxiliar de administração. Depois virou professora, antes de assumir a diretoria. Não pensou em demissão nem quando passou em concurso público para dar aulas em escolas estaduais.

“No primeiro momento que entrei no [colégio] Santa [Cecília], foi amor à primeira vista. Vivo mais o Santa do que a minha própria casa”, completa.
Segundo especialistas do setor, o desapego das gerações mais jovens mudou também a forma como empresas fazem recrutamento.

Levantamento da LCA Consultores aponta que 74% dos empregadores no país reconhecem que candidatos da Geração Z são mais exigentes quanto à remuneração. Entre os trabalhadores dessa faixa etária, 68% disseram procurar vagas que estejam alinhadas com seus valores pessoais.

“O maior erro das empresas é continuar a recrutar como se os jovens fossem ficar para sempre. O que mudou não foi apenas o tempo de permanência nas empresas. Foi a lógica na relação do trabalho. A geração dos nossos pais via a empresa como um porto seguro. Hoje, os jovens veem a empresa como um projeto, com início, meio e fim”, opina Tiago Santos, VP da Sesame.

Tudo pode ser uma questão de como encarar o tema. A solução de Sergio Crude, 65, é o bom humor. Há 45 anos registrado na Henkel, a multinacional alemã de produtos químicos, diz que sua história na companhia “está registrada em papiros.”
“Meu primeiro emprego foi vendendo enciclopédias. Precisa explicar para os mais jovens o que é uma enciclopédia”, afirma.

Ele acredita que a curiosidade em trocar de áreas e aprender novos trabalhos o mantém motivado para continuar, apesar da diferença de idade em relação a colegas do mesmo setor. Crude é hoje em dia liderança regional responsável pelas áreas de saúde, segurança e meio ambiente.

“Eu evoluí junto com a empresa. Não sou a mesma pessoa de 45 anos atrás e a companhia também não é. Não trato as pessoas mais jovens com o meu mundo. Tenho de tratá-las no mundo em que elas vivem hoje. Eu procuro me atualizar o máximo que posso. Mas sou tão experiente que sei operar até fax…”, completa.

Se a Geração Z não demonstra, no geral, apego ao emprego, Faustino, Marilisa e Crude não pensam em parar. Nem é mais questão de aceitar “o trabalho como uma algema de ouro em troca de estabilidade”, como define Maria Cristina Pereira Matos. É por não se verem fazendo outra coisa.

“Eu sou aposentado desde 2014, mas não quero saber disso, não”, diz o funcionário da Henkel, sobre ficar em casa.
“Tenho avôs que trazem os netos aqui e foram meus alunos no Santa Cecília. Você não tem noção de como isso é gratificante. Minha vida é isso”, afirma a diretora-geral.
“Eu vou trabalhar até a véspera do meu enterro”, finaliza Faustino.

Por Alex Sabino – São Paulo, FolhaPress

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