Ataque com mortes em VV foi ordenado por líderes do tráfico

Os adolescentes apreendidos pelos ataques que resultaram nas mortes de Andrezza Conceição, de 31 anos, e Sophia Vial, de 15, foram comandados por lideranças do crime organizado. As duas vítimas foram atingidas por balas perdidas após suspeitos passarem atirando. 

Além das mortes de Andrezza e Sophia, outras duas crianças ficaram feridas durante os ataques. Todas as vítimas estavam no local por acaso e não tinham qualquer ligação com o tráfico de drogas ou envolvimento com membros de facções criminosas.

As investigações apontam que os adolescentes envolvidos fazem parte de organizações criminosas e atuavam sob ordens diretas de lideranças do tráfico.

Lideranças de facções comandam ataques

De acordo com o adjunto da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vila Velha, delegado Cleudes Junior, a equipe trabalha para responsabilizar não apenas os executores, mas também quem está por trás dos ataques, as lideranças que autorizam e coordenam as ações criminosas, muitas vezes à distância.

“Com as investigações, nosso objetivo é identificar e responsabilizar quem está fomentando esses ataques. A gente sabe que, dentro da estrutura das facções, que é verticalizada, os membros de base não agem por conta própria. Nenhum ataque desse tipo ocorre sem autorização. Se não houver ordem das lideranças, eles não agem. É uma lógica interna do crime organizado,” afirmou o delegado.

Cleudes Junior, destacou ainda o uso recorrente de adolescentes pelas facções como estratégia para evitar punições mais severas.

“Esses crimes não são impulsivos, são racionais. As lideranças não colocam a cara. Eles usam os adolescentes, porque sabem que, pela legislação, eles não têm a mesma culpabilidade. E o adolescente, por sua vez, se sente incentivado: ele ataca, participa do tráfico, e quando é apreendido, passa pouco tempo internado,” completou.

Nego Stanley- Terceiro Comando Puro (TCP)

Ataque com mortes em VV foi ordenado por líderes do tráfico
Stanley dos Santos da Silva, Nego Stanley (TCP).

Entre os nomes citados está Stanley dos Santos da Silva, conhecido como Nego Stanley. Em 2024 e início de 2025, Stanley era ligado à facção TCP e estava foragido no Rio de Janeiro. “Lá ele dizia ser o “dono” das áreas conhecidas como Beco do Alemão e Pingo D’Água. Contudo, após desviar dinheiro e drogas da própria facção, foi decretado e abandonado pelos próprios aliados, que se voltaram contra ele. Sem apoio, Nego Stanley retornou ao Espírito Santo como foragido e teria promovido pessoalmente os primeiros ataques”,

O delegado ressalta que Nego Stanley se aproximou da facção rival PCV, alegando conhecer bem a região e oferecendo apoio logístico e armado para que o grupo tomasse os pontos de tráfico que antes controlava. Ele teria feito um acordo pedindo novos membros e armamentos da nova facção. O suspeito segue foragido.

 

Ataque com mortes em VV foi ordenado por líderes do tráfico
Nego Stanley sendo recebido pela nova facção.



Tio Chico- Primeiro Comando de Vitória (PCV)

De acordo com o delegado, outra liderança que pode estar envolvida nos ataques é Douglas Souza Lopes, conhecido como Tio Chico. O homem faz parte do Primeiro Comando de Vitória (PCV), e está preso na Bahia.

“Na verdade, é uma das lideranças do Primeiro Comando de Vitória (PCV). A região da Ilha da Conceição é dominada por essa facção. Ali eles eram intitulados como ‘Tropa do Pirata’. Esse indivíduo está preso no presídio da Bahia. Ele possui uma condenação de homicídio aqui em Vila Velha, com pena de 26 anos de reclusão. Mesmo detido, continua atuando de dentro da prisão,” explicou o delegado.

Segundo Cleudes Junior, as investigações indicam que o criminoso tem acesso a telefone celular dentro do sistema prisional baiano, de onde estaria ordenando ações violentas no Espírito Santo, inclusive o ataque que vitimou Andrezza Conceição, de 31 anos, e sua filha Sophia Vial, de apenas 15.

“As informações que chegaram até nós indicam que, mesmo preso, ele está fomentando esses ataques aqui na região. Inclusive, a Guarda Municipal de Vila Velha apreendeu, só no último mês, três fuzis que estariam ligados a essa mesma facção,” completou o delegado.

 

Ataque com mortes em VV foi ordenado por líderes do tráfico
Douglas Souza Lopes, conhecido como Tio Chico (PCV).

O delegado reforçou que, por conta dos mandos de  ataque, a Polícia Civil do Espírito Santo vai pedir a transferência de “Tio Chico” para o estado.

“Ele está detido na Bahia mas comanda ataques aqui na região, por isso vamos pedir a transferência dele para Vila Velha ou quem sabe para a prisão federal.”

Apreensões dos autores do ataque em Santa Rita

O delegado Cleudes Junior também relembrou os primeiros momentos da investigação, ainda na noite do ataque, quando as equipes da Polícia Civil chegaram ao bairro Santa Rita após serem informadas de que quatro pessoas haviam sido baleadas.

“Tivemos conhecimento de quatro pessoas baleadas em Santa Rita: crianças, uma adolescente e uma mulher. Nos deslocamos com uma equipe de investigação ao local, e já ali, no calor da emoção, começamos os primeiros levantamentos, conversamos com testemunhas. As pessoas estavam muito abaladas, mas conseguimos coletar informações importantes para a identificação dos autores,” explicou.

 

Ataque com mortes em VV foi ordenado por líderes do tráfico
Suspeitos na moto utilizada para atividades do tráfico de drogas.

 

Segundo o delegado, ainda naquela noite foi possível qualificar os possíveis envolvidos e dar início imediato aos procedimentos investigativos.

“Naquele momento, já conseguimos a identificação e qualificação dos possíveis autores, inclusive com fotografias. Com base nessas informações, passamos a trabalhar rapidamente para tentar localizá-los ainda em situação de flagrante. Já sabíamos que os disparos haviam sido efetuados por dois menores,” relatou.

As buscas continuaram no dia seguinte, inclusive durante os velórios das vítimas. A Polícia Civil acompanhou de perto os momentos de despedida de Andrezza Conceição e Sophia Vial, em um gesto de respeito e compromisso com a dor das famílias.

“No domingo, também nos deslocamos com uma equipe. Estivemos presentes nos dois velórios, tanto no da Andrezza quanto no da Sophia. A Polícia Civil se fez presente não só para dar apoio, mas também para mostrar aos familiares que o nosso trabalho estava sendo feito. Dissemos: ‘Olha, nosso papel quanto Polícia Judiciária está sendo cumprido. Nós já identificamos os executores desse crime’,” afirmou Cleudes Junior.

As investigações prosseguem com foco na responsabilização das lideranças criminosas que, mesmo de longe, ordenaram os ataques que tiraram a vida de duas vítimas inocentes e deixaram a população local em estado de medo e luto.

As ações policiais avançaram rapidamente após a identificação dos adolescentes envolvidos. Na segunda-feira (11), um dos suspeitos foi encontrado em Jardim Carapina, na Serra, o “Mete-bala” e encaminhado a delegacia, ele foi autuado pela prática do ato infracional análogo ao crime de homicídio.

 “Na segunda-feira, o primeiro adolescente foi encaminhado à delegacia onde fizemos o auto de apreensão de adolescente infrator e representamos pela internação provisória dele”,afirmou o delegado Cleudes Junior.

Na terça-feira (12), a equipe da Polícia Civil conseguiu localizar e apreender o segundo adolescente, identificado como o autor dos disparos que atingiram Andrezza e Sophia. Conhecido como Patinho, o adolescente foi encontrado em Ataíde, Vila Velha. Durante o interrogatório, as investigações avançaram ainda mais com a localização de provas materiais.

“Na data de ontem conseguimos efetuar a apreensão do segundo adolescente, aquele que seria o responsável direto pelos disparos. Representamos também pela internação provisória dele. Ainda ontem, enquanto ele era apresentado na DHPB, nossa equipe conseguiu localizar a bota que ele utilizava no momento do crime,” contou o delegado.

Ambos os adolescentes possuem histórico de envolvimento com o tráfico de drogas e outros atos infracionais graves.

“São menores já conhecidos por envolvimento com o tráfico, inclusive, em alguns meses, chegaram a ser apreendidos duas vezes. Um deles já era investigado também por tentativa de homicídio. Fizemos o que nos competia. Conseguimos, junto ao Ciaz (Centro Integrado de Atenção Socioeducativa), a internação dos dois adolescentes,” explicou Cleudes Junior.

O procedimento foi finalizado com a autoria dos dois e foi feita a representação e os dois estão aprendidos provisoriamente, conforme estabelece o estatuto da criança adolescente.

 

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