Dois crimes que abalaram o Espírito Santo, separados por mais de duas décadas, revelam pontos em comum: planejamento meticuloso, execução violenta e o envolvimento de possíveis mandantes poderosos.
Os assassinatos do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, em 2003, e do empresário Wallace Borges Lovato, em 2025, escancaram a persistência da lógica dos crimes de mando no Estado — e os desafios enfrentados pelas autoridades para elucidar esse tipo de delito.
Dois cenários, a mesma brutalidade
Em março de 2003, o juiz Alexandre Martins foi morto a tiros ao sair de uma academia em Vila Velha. Jovem, atuante e conhecido pelo combate às milícias e à corrupção no sistema prisional, ele já havia denunciado ameaças e integrava a lista de juristas sob risco.
O crime foi tratado desde o início como execução — hipótese confirmada pela condenação de militares e civis, incluindo o coronel Walter Gomes Ferreira, apontado como mandante.

Em junho de 2025, Wallace Lovato, empresário do setor de tecnologia e CEO da Globalsys, também foi assassinado ao sair do trabalho, na Praia da Costa, em plena luz do dia. O atirador estava escondido no banco traseiro de um carro com placas clonadas e fez apenas um disparo certeiro.
O caso também foi rapidamente tratado como execução, sem indícios de latrocínio. Três suspeitos já foram presos, entre eles o executor. A Polícia Civil mantém o inquérito em sigilo, e não descarta motivação por disputa comercial ou crime passional.
Padrões que se repetem
Apesar das diferenças de tempo e contexto, os dois crimes apresentam uma série de elementos em comum:
- Execução premeditada: ambos os assassinatos foram planejados e ocorreram em locais públicos, com uso de veículos para fuga e anonimato.
- Crimes de mando: as investigações apontam para a existência de mandantes, o que torna a apuração mais complexa e demorada.
- Repercussão estadual e nacional: as vítimas tinham forte presença pública — um pela atuação no Judiciário, outro pelo protagonismo empresarial no setor tecnológico.
- Reação da sociedade: em ambos os casos, a comoção foi intensa, com apelos por justiça e maior proteção às autoridades e empresários ameaçados.

Complexidade investigativa
O caso Alexandre Martins levou mais de uma década para alcançar parte dos responsáveis. Foram anos de reviravoltas, delações, prisões e tentativas de obstrução. Embora alguns mandantes tenham sido condenados, o sentimento de impunidade ainda paira sobre o caso.
No assassinato de Wallace Lovato, a Polícia Civil trabalha com linhas de investigação sigilosas, e já prendeu três pessoas. A celeridade inicial contrasta com a dificuldade esperada na identificação dos verdadeiros mandantes, caso existam.
Justiça sob ameaça
Os dois crimes jogam luz sobre a fragilidade do sistema diante de grupos articulados que operam com dinheiro, influência e acesso a executores profissionais. O assassinato de um juiz escancarou a infiltração do crime organizado nas estruturas do poder público. Já a morte de um empresário de tecnologia mostra que, mesmo em novos setores, disputas podem terminar em violência extrema.
O que mudou — e o que ainda precisa mudar
Desde 2003, o Espírito Santo avançou em diversas frentes: redução dos índices de homicídio, reformas no sistema prisional e investimentos em inteligência policial. No entanto, a existência de novos crimes de mando demonstra que ainda há brechas a serem fechadas — especialmente no combate às redes criminosas que atuam nos bastidores do poder.
Enquanto familiares, colegas e a sociedade cobram respostas, os assassinatos de Alexandre Martins e Wallace Lovato seguem como símbolos de duas eras que, embora distantes no calendário, se conectam na essência: o silêncio imposto pela força bruta, e a resistência da justiça em não deixar esses crimes impunes.










