Na minha época de universidade, nos anos setenta, criamos um bloco de carnaval itinerante, juntando os primos capixabas com os amigos da faculdade e do movimento estudantil do Rio de Janeiro. Escolhíamos um balneário entre o Rio e a Bahia, organizávamos o acampamento, instrumentos e camisetas. O Bloco chamava-se “Saudade do Futuro” e tendo estreado em Porto Seguro foi depois para Conceição da Barra, Itaipava e Saquarema.
Já casado e com um filho pequeno, trocamos os acampamentos por uma casa alugada em Arraial do Cabo, onde nos juntamos a uma turma do Salgueiro que tinha um bloco animadíssimo chamado “Se você não quer me dar, me empresta meu amor.” Levamos nossos instrumentos para fortalecer a bateria e fizemos um carnaval maravilhoso.
Mesmo sendo torcedor do Fluminense, na campanha das Diretas já , concordei em juntar nossos instrumentos `a bateria da torcida “Fla-Diretas”, que ia para os estádios fazer campanha. Henfil criou o símbolo da torcida usando seu personagem famoso: a Graúna. A torcida marcava presença nos estádios e nos eventos políticos da campanha que lutava por eleições diretas para presidente e pela democracia no Brasil.
O Comitê Jovem Tancredo Neves herdou a mobilização da campanha das Diretas Já, inclusive os instrumentos de bateria. A euforia do fim da ditadura militar com a vitória de Tancredo Neves no colégio eleitoral, juntou-se com o clima de animação do Rock`n Rio, em janeiro de 1985, acendendo a vontade de criarmos um Bloco de Carnaval em Ipanema. Assim surgiu o “Simpatia é Quase Amor” que neste ano completa 41 carnavais.
Fui o primeiro diretor de bateria do Simpatia e produzi seu primeiro disco, um Long Play, em 1989 : “Cinco anos de samba em Ipanema”. Na primeira faixa do lado “A” eu canto o primeiro samba do Bloco: “Simpatia Geral” tendo a participação muito especial de Gonzaguinha. O nome veio de um personagem de um livro de Aldir Blanc, que virou o patrono; Albino Pinheiro criador da Banda de Ipanema era o padrinho e Dona Zica da Mangueira a madrinha. Isabel do vôlei era a musa do Bloco e Bussunda o Rei Momo.
Voltei para Vitória em 1992, depois de quase vinte anos estudando e trabalhando fora, a convite do governador Albuíno Azeredo. Foi fácil constatar que o fim dos desfiles das escolas de samba capixabas tinha acontecido em função da manipulação de verbas publicas estaduais por escolas de samba de fachada, maus políticos e três ligas. Depois de oito anos sem desfile e muita desconfiança da opinião publica, o mundo do samba na cidade tinha quase desaparecido.
Na campanha eleitoral de 1996 defendi a volta dos desfiles e o apoio da PMV `as escolas de samba de Vitória. Eleito prefeito trouxe Claudia Cabral do Rio de Janeiro para a Secretaria da Cultura com a missão de reestruturar o carnaval. Sem a verba do Governo do Estado e sem as Ligas levamos `a prefeituras da Grande Vitória a proposta de retomar o desfile das escolas de samba na Avenida Jeronimo Monteiro sem concurso, sem carros alegóricos, com entrada franca e uma semana antes do carnaval. Cada prefeitura apoiaria as escolas de sua cidade como pudesse.
Os prefeitos de Cariacica e Serra toparam o modelo e a PMV coordenou ao longo do ano de 1997 atividades de resgate da cultura do samba e do carnaval nas comunidades, trazendo oficinas de fantasia, percussão, adereços com professores do Rio de Janeiro e de Vitória. A PMV também patrocinou atrações para que as escolas da capital arrecadassem recursos para o carnaval e no final do ano gravou o CD com os sambas enredo que também ajudariam no levantamento de recursos. As escolas de Vitória também receberiam cada uma, no final do ano, um “cachet” no valor de uma atração musical de nível nacional.
Foram três anos trabalhando dentro deste modelo. O samba não morreu e a cultura popular foi resgatada com força nas comunidades. Em 2000 fui reeleito com o compromisso de voltar o desfile ao Sambão, que foi totalmente reformado, inclusive retirando a arquibancada central para permitir o recuo de bateria.
No carnaval de 2001 o Sambão do Povo de Vitória foi reinaugurado com a presença de Hermes Laranja, seu construtor, e a gestão do carnaval foi entregue a nova Liga das Escolas de Samba presidida por Bernadete Ladislau.
Nesses vinte cinco anos nosso carnaval só fez crescer e se organizar melhor a cada ano. Tornou-se uma verdadeira âncora da nossa cultura popular, da economia criativa e da Grande Vitória como destino turístico.









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