Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Menos ruim

Antes de qualquer coisa, destaco que a expressão “menos ruim”, ao contrário do “mais ruim”, é correta no âmbito gramatical, porque exprime alguma coisa que, num julgamento sobre sua qualidade, representa menos prejuízo à escolha do que a outra. Posta tal explicação, faço um questionamento aos meus três queridos leitores, ou leitoras: alguma vez, saindo ao comércio para comprar uma roupa, um carro, um alimento ou um ingresso para um evento artístico, seu objetivo era encontrar um vestido “menos mal costurado”, um carro menos defeituoso, uma comida menos tóxica ou uma peça de teatro ou show musical menos enfadonho?

A gente sabe que em algumas situações do cotidiano, nossas escolhas são reduzidas ao nível do “comer aquilo ou passar fome”, do “sair correndo ou ser agredido” ou do “pular no vazio ou morrer queimado”. Mas, na maioria das vezes em que temos a oportunidade de escolher, duvido que, conscientemente, nossa avaliação tenha como parâmetro apenas a opção menos traumática ou menos desqualificada entre duas ou três que nos chegam.

Todavia por preguiça, descompromisso, orgulhosa ignorância ou por razões que fogem ao racional, cada vez mais pessoas aceitam a ideia de que nada é tão ruim que não possa piorar, optando pelo conforto do automatismo, tolerando suas atuais condições de vida como bem mais satisfatórias do que aquelas horrorosas que afetam vizinhos, conhecidos e determinados segmentos miseráveis de nossa sociedade.

Quando vejo alguém comparando determinado grupo a uma manada de bovinos por conta de suas manifestações, opções políticas ou valores humanos, tento imaginar dois pastos, um deles mal cercado, permitindo que os animais andem soltos e comam o que encontrarem pelo caminho, e o outro devidamente vigiado, com os bichos recebendo seu adestramento, sua água e seu alimento na medida que interessa aos donos daquele rebanho.

Do ponto de vista dos bois que povoam cada um dos campos do exemplo acima e dentro das suas perspectivas de vida, seu fim é diferente? É evidente que não, já que todos eles, inevitavelmente, terminarão pendurados no gancho do açougueiro. É que esses bichos, e tantos outros animais, não têm escolhas, sequer entre uma e outra opção pior.

Nós, pessoas, temos, nem que seja para não optarmos por nenhuma das alternativas que se nos apresentam. Inclusive quando uma delas implica no sacrifício supremo da própria vida em defesa da preservação de valores maiores do ponto de vista humano.

Constantemente acompanho pesquisas de opinião daquelas que são feitas por políticos à beira das eleições. Os dados que essas pesquisas revelam, principalmente aquelas feitas por empresas sérias, comprometidas com os rigores científicos de suas atividades, são extremamente relevantes para compreendermos melhor nosso ambiente social e, claro, no restrito âmbito do interesse de seus contratantes, proporcionam aos mesmos o tracejamento de suas campanhas eleitorais.

Todavia o que poucos sabem, ressalvando aqui que a vasta maioria da sociedade, quando muito, apenas lê os resultados de intenção de voto entre tais ou quais candidatos, é que o tesouro dessas informações, o verdadeiro “graal” dos chamados marqueteiros e estrategistas, não são as boas referências e alusões aos seus clientes, mas a rejeição dele e de seus hipotéticos concorrentes.

Quem resolve lançar um novo sabão em pó no mercado preocupa-se em apresentar sua fórmula e conteúdo, seu preço e sua “eficácia” da melhor forma possível, não em saber que o concorrente possui determinadas falhas e problemas para oferecer seu produto como aquele que causa menos manchas, desbota menos a roupa ou agrega nelas, ao cabo da lavagem, um cheiro menos desagradável. É que sabem que, mesmo podendo existir diferenças em seus preços e quantidade, ou maior ou menor atratividade entre o rótulo de um e o de outro, o consumidor, dentro de suas condições, vai levar aquele que lhe garanta um melhor resultado. Não o menos ruim do título deste artigo.

Dentro no ambiente eleitoral, sabemos todos que apenas podemos votar naqueles candidatos que tiverem o registro de suas candidaturas deferido, mas não somos obrigados a escolher nossos representantes apenas pelo viés da deficiência moral, da ignorância ou da delinquência, maiores em um e menores em outros. Fazer isso nos nivela aos tais rebanhos que usamos como alegoria para criticar ou apequenar aqueles que pensam, agem e vivem de modo diverso do que nós.

Em qualquer circunstância na qual podemos fazer opção qualificada entre duas ou mais alternativas, o agir inteligente, equilibrado e enriquecedor de nossas realidades, condições e futuro nos impõem, ainda que seus frutos não estejam imediatamente à nossa disposição, o confronto dos valores positivos, não dos defeitos daquelas coisas e pessoas que se oferecem ao nosso escrutínio.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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