Pensei muito antes de começar a coluna desta sexta (inclusive deixei para fazê-la aos 45 do segundo tempo) porque com certeza essa receita é cheia de carga emocional e uma das mais emblemáticas da minha vida. Mas não quero que pareça triste, pois não me traz tristeza e sim saudade.
Meu pai tinha defeitos, mas era o cara. Ensinou-nos o valor da honestidade, a importância de ler, de fazer contas de cabeça – sim, mesmo sendo horrorosa em exatas, sei fazer as operações básicas sem papel ou calculadora –, ser curioso e procurar aprender sobre tudo, tratar todas as pessoas com cortesia e educação, devolver o troco a mais, procurar o dono do que encontrar, ajudar as pessoas, fazer críticas construtivas, lutar pelo que tem direito… ufa! Foram tantos preceitos que eu poderia passar o dia escrevendo!
Há quem diga que o maior ensinamento é o exemplo. O amor à gastronomia, com certeza, foi apreendido assim. A cada fim de semana com receitas exóticas, a cada bife ‘assustado’ – por fora torradinho e por dentro, sangrando – e a cada mexidinho do jantar, preparado com as sobras do almoço.
No entanto, a receita desta última sexta antes do Natal me foi instruída pelo meu velho nos detalhes e levou quatro anos para que eu aprendesse. Rabanada todo mundo conhece, mas a rabanada do Miranda… ah, essa vai além do ‘pão molhado’!
Na história – Conhecida também como fatia dourada ou fatia de parida (por ter fama de auxiliar na produção do leite materno durante a gravidez), a rabanada é um doce natalino feito de fatias grossas de pão, mergulhadas no leite, passadas em ovos batidos, fritas em óleo e polvilhadas com açúcar e canela.
Por trás da história da rabanada, muitas lendas e uma origem incerta. Sabe-se que foi criada devido à necessidade do reaproveitamento do pão, que sempre foi considerado um ingrediente sagrado. Sua origem sempre se remete a Portugal, mas em todo o mundo é possível encontrar variações da rabanada, como o “Eggy bread” na Inglaterra, o “French toast” nos EUA, e o “Pain Perdu” na França.
De qualquer forma, foram os portugueses os responsáveis por trazer a receita da rabanada para o Brasil, que rapidamente se espalhou e tomou conta do Natal. Mesmo sendo considerada extremamente calórico, o doce tem a adoração de muitas pessoas, o que não permite que ela caia no esquecimento, mesmo com tanto tempo em destaque.
Na minha história – Meu pai fazia feijoada, massas frescas, pães, cozido, churrasco, peixe assado, lagosta e milhares de outros pratos, mas, entre os doces, apenas um era confeccionado por suas hábeis mãos. Todo Natal, além do presunto, do peru e da farofa de miúdos da ave era responsabilidade dele preparar as rabanadas. E a sobremesa era um sucesso entre familiares e amigos, que sempre se perguntavam como ele conseguia transformar o miolo do pão num recheio de a textura tão cremosa.
Confesso que eu nunca fui muito fã delas. Sempre preferi os doces com chocolate e frutas que a minha mãe preparava. Isso até 2008, quando meu pai teve um infarto durante uma visita a Brasília e passou mais de sete meses entre o hospital e a casa do meu irmão Rogério.
Nesse ano, no Natal, não teve rabanada. Meu pai estava bem debilitado, perdeu mais de 14kg durante as internações e tinha que tomar doses periódicas de antibiótico na veia. Foi aí que me veio a ideia de aprender a receita e manter a tradição da família.
Depois disso, passei quatro tardes de 24 de dezembro seguidas na cozinha. No primeiro ano, auxiliei meu pai no preparo dos ingredientes; no segundo, dividimos o controle do fogão; em 2011, preparei tudo sob a supervisão dele. Por fim, no último Natal que passamos juntos, em 2012, seu Miranda só se encarregou de passar as fatias de pão dourado no açúcar com canela.
E assim, 2013 foi minha estreia solo no preparo da rabanada. Confesso que foi entre lágrimas, e até hoje é. Dizem que meu prato fica igual ao dele, mas eu não concordo. A rabanada do meu pai tinha gosto de alegria, a minha tem gosto de saudade.
Receita – Para fazer a rabanada da minha família, você precisará:
1 baguete de pão de rabanada
3 ovos
1 litro de leite integral
4 colheres de sopa cheias de açúcar
Óleo (o quanto baste para fritar as fatias por imersão)
Canela e açúcar para polvilhar
Modo de preparar:
Descasque a baguete e depois corte fatias de mais ou menos 4 centímetros. Acomode as fatias em um refratário e reserve. Batas as claras dos três ovos e acrescente as gemas, uma a uma. Aqueça o leite e, sem deixar ferver, acrescente o açúcar. Despeje o leite sobre as fatias.
Passe cada pedaço de pão nos ovos e coloque na frigideira com óleo quente. Quando estiver dourado, retire da frigideira, deixe escorrer e coloque em um papel toalha. Polvilhe ou passe as fatias no açúcar misturado à canela.
Bom apetite e um Feliz Natal!











