Há algum tempo, na distante Índia, uma interessante experiência foi levada a cabo: estacionaram um veículo com os vidros escurecidos, e dentro dele foi acionada uma gravação simulando um estupro – lá estavam os berros de um homem e os gritos desesperados de uma mulher.
         O que se viu a seguir foi deplorável: a esmagadora maioria das pessoas passava, ouvia os gritos, olhava para o carro e ia embora. Simplesmente ia embora! Sequer um telefonema para a polícia dava! Apenas alguns poucos demonstraram indignação e reagiram, tentando arrombar o veículo para interromper o estupro ou chamando as autoridades.
         Este episódio me trouxe à lembrança um outro, ocorrido lá na China: uma criança foi atropelada e largada no leito de uma rua. Dezenas de pessoas passavam, olhavam aquele corpinho todo sujo de sangue e iam embora sem sequer reduzir o passo. Não houve nem quem se preocupasse em mover a vítima para o canto da via – que ficasse lá, retorcida, na sarjeta, juntamente com nossa humanidade (seja lá o que for isso).
         Diante destes dois episódios, nossa imediata reação é de repúdio aos indianos e aos chineses que de forma tão insensível se comportaram – e nos esquecemos de que estas cenas, afinal, fazem parte do nosso cotidiano. Em nossas favelas quantas crianças continuam sendo devoradas por ratos, enquanto gastamos tantas fortunas com propaganda institucional? Em nossas periferias quantas mulheres e crianças padecem sob quadrilhas que, lá, já se sobrepuseram ao Estado, enquanto passamos os dias a discutir teses jurídicas?
         Quantos idosos, quantos doentes, sofrem nas mãos de tão poucos que desviam os recursos a eles destinados pelo sacrifício de todo um povo – e ao som ensurdecedor do nosso silêncio? Quantas crianças morrem por dia vítimas da falta já histórica de um simples esgoto sanitário, em contraste com a periódica renovação de caríssimos logotipos e símbolos institucionais?
         Cada um de nós, por ação ou omissão, já fraquejou diante desta realidade – afinal, quão complexa é a vida, a nos impor momentos de Pilatos! Quantas vezes, vencidos pelas regras de conduta social, pelo medo ou pela desesperança, passamos ao lado de vítimas as mais infelizes, olhamos e nos afastamos sem nada fazer… Quantas vezes, vítimas de inseguranças acima de tudo humanas, silenciamos diante do mal – quando não o cortejamos.
         Enquanto isso, não faz muito tempo, recebi um vídeo lá do Chile. Foi feito pela câmera de segurança de uma das mais movimentadas rodovias daquele país, a Costanera. Trata-se de uma via de três faixas para cada mão, pela qual os veículos passam em velocidades próximas de 100 km/h.
         E eis que um infeliz cachorro é atropelado por um caminhão e fica lá, ferido, entre a primeira e a segunda faixa da rodovia. Outros carros e caminhões continuam passando a centímetros dele, sempre em alta velocidade.

         O que se viu em seguida foi emocionante: um segundo cachorro aparece, e vai para o meio da estrada. Fica junto do seu semelhante. E começa, da forma mais surpreendente possível, uma tocante operação de resgate.

         Este segundo cachorro começou a puxar o primeiro para o acostamento, antes que um novo atropelamento acontecesse. Tocou-me o coração ver que ele não fez isso com os dentes, ou de forma brusca. Não. Com as patas dianteiras, milímetro a milímetro, foi arrastando seu semelhante até a beira da estrada. Não mostrou, em um momento sequer, medo diante do risco de vida que corria – a indomável vontade de salvar seu semelhante foi maior até mesmo que o instinto de sobrevivência.

         Que, sob o pano de fundo das nossas fragilidades e fraquezas, meditemos sobre isso. Afinal, como alertou Josh Billings, “ter pena não custa e nem vale nada”.

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