Ao deparar-se com o título desta coluna, o leitor deve estar curioso sobre o porquê da junção entre lince, um animal; e cidadania, um tema tão (literalmente) batido nos últimos tempos – de impeachment, crise, manifestações, reformas, etc.
O lince é um animal com grande capacidade de visão, é um felino notável, que enxerga sua presa de maneira poderosamente eficaz. Então, a partir de agora, o ESHOJE traz para você, justamente esse olhar sobre o exercício da cidadania e como podemos, cada um de nós, contribuir de forma assertiva para que o “gigante pela própria natureza” se erga novamente.
“Como posso fazer isso, cara colunista?”, você deve ter-se perguntado. Exercendo a sua cidadania. Cidadania é exatamente esse ato de ter parte nas decisões políticas do nosso país, do nosso estado e da nossa cidade; de gozar ativamente de nossos direitos sociais e políticos – porque a Constituição Federal nos diz, com clareza, que o poder emana do povo. Então, por mais clichê que a frase soe, “se cada andorinha, mesmo só, buscar o verão”, ele virá. E será radiante.
Vamos começar?
A melhor hora de começar um diálogo com você sobre o exercício da cidadania, é esta, na qual vivenciamos uma crise sem precedentes na área da segurança pública.
Bairros nobres e periferia sentindo na pele, há dias, a violação de um de seus direitos civis mais básicos, de acordo com a nossa Constituição Federal, o de ir e vir em segurança. E por quê? Pelo endurecimento das relações entre os cidadãos e seus representantes. Digo isso, porque além de serem mulheres e familiares de policiais militares envolvidas nesse processo de crise institucional, as pessoas que ali estão nas entradas dos quartéis reivindicando um direito legítimo da categoria, são acima de tudo, cidadãs.
O Governo assistiu a centenas de homicídios, vandalismo, desordem social, assaltos, prejuízo aos comerciantes (que já penam nestes tempos de crise) e sua ação de primeiro momento, foi endurecer-se perante o movimento das mulheres e chamá-lo de “chantagem”, porquanto a categoria militar é proibida por lei de realizar greves.
No entanto, essa mesma categoria, que sai às ruas diuturnamente para defender as nossas vidas e obedece a rígidos códigos de conduta e hierarquia, também é formada por indivíduos que têm os mesmos direitos constitucionais a nós garantidos, como o valor social do trabalho e o direito à dignidade humana.
Para além de nossa revolta por estarmos encarcerados devido à insegurança que infelizmente é notícia no mundo inteiro, algum de nós usou da empatia e se colocou no lugar dessas famílias que estão há anos com uma renda defasada e mesmo assim, veem seus provedores cumprirem com uma missão tão nobre, que é a de proteger a vida humana?
É certo que todos queremos de volta a normalidade dos nossos dias e para isso, a presença da polícia – instituição que tantos criticam, é fundamental, como pudemos comprovar nestes dias de total abandono do poder público e um verdadeiro clima de guerra civil instalado em várias cidades do estado.
O discurso legalista do governo para não ceder ao reajuste pleiteado pelos militares tem, sim, suas fundamentações e merece ser conhecido pela população – e debatido com ela. Não foi em vão que o governador apelou para a Lei de Responsabilidade Fiscal, ao dizer que é impossível conceder o aumento da remuneração e um reajuste capaz de cobrir as perdas inflacionárias de anos aos militares. Ele sabe que tem a obrigação de manter limites legais relacionados ao pagamento de pessoal. Mas também sabe fazer ajustes em situações de crise, como anuncia sua equipe de publicidade, como ninguém.
Porém, numa negociação “ganha-ganha”, os dois lados devem sair vitoriosos. E se pensarmos que a vitória significa a preservação da vida e a ordem social acima de tudo, é imprescindível que esse acordo seja bem-sucedido para ambas as partes.
Nosso governo divulga constantemente seus esforços para manter o equilíbrio de suas contas, portanto, certamente também é capaz de traçar metas e estratégias capazes de atender (ainda que a médio prazo) a essa reivindicação legítima de uma categoria que executa uma das políticas públicas primordiais para a nossa vida em sociedade: a segurança pública.
É preciso, neste momento, abandonar o endurecimento institucional do diálogo e colocar sobre a mesa as posições, dos dois lados, de forma equânime e chegar a um acordo que tire dessas famílias de policiais o sentimento de indiferença e abandono por parte do governo (o lado que quer permanecer mais forte na negociação a qualquer custo); e de nós, cidadãos, a sensação de que estamos presos sem ter cometido crime algum.

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