Foto de Thiago Guimarães
Foto de Thiago Guimarães

Todos querem seu voto e, mais do que isso, tê-lo como cabo eleitoral. O apoio do governador Paulo Hartung nesta reta final da campanha eleitoral no Espírito Santo é visto como grande trunfo de muitos candidatos. Mas a questão é que todos os movimentos do chefe do Poder Executivo estadual foram de distanciamento do processo eleitoral.

Em entrevista a ESHOJE, o governador, que reafirma estar pendurando suas chuteiras na carreira política como candidato, conta como escolhe quem vai receber seu voto. Na oportunidade Hartung, que em 31 de dezembro conclui terceiro mandato como chefe do Palácio Anchieta e oitavo mandato eletivo, faz uma avaliação de sua gestão e conta o que projeto a partir do ano que vem.

“Meus critérios são múltiplos. As pessoas precisam ter compromisso com valores republicanos e democracia, mas a conjuntura opera na questão da necessidade. Seis por meia dúzia não é renovação, temos que ter cara novas, sangue novo, com novas ideias, para mexer com a estrutura carcomida da politica brasileira”, revelou. Leia a íntegra. Trechos da entrevista estão no canal de ESHOJE no Youtube. Assista aqui

O senhor disse que não vai concorrer reeleição, porque chegou o momento de pendurar as chuteiras. O que foi determinante nesta decisão?
De certa forma eu comecei andar nesta direção em 2010, terminava uma jornada muito bem sucedida no Governo do Estado com avaliação extraordinária e decidi não sair candidato a senador. Na época era uma reivindicação grande dos aliados e lideranças sociais do Estado, mas minha decisão de não disputar surpreendeu muita gente. Me senti muito bem com a decisão. Fui para a vida privada, fiquei quatro anos, participei de conselho de empresas, uma experiência nova na minha vida e depois em 2014, ainda com muitas dúvidas, mas eu acabei tomando a decisão de sair candidato a governador mais uma vez. Fui eleito em primeiro turno e na primeira entrevista que concedi foi a jornalista Andreia Lopes, que agora é nossa secretário de Comunicação, eu afirmei que não concorreria a reeleição.  Na época agradeci aos capixabas e disse que faria duas coisas muito sólidas, que era reorganizar as contas porque o estado já estava flertando com a desorganização fiscal novamente.  A segunda era trabalhar duro na melhoria social, com muito foco na educação. Quando você fala que não vai disputar reeleição, evidentemente, sobretudo o mundo das lideranças políticas sempre fica aquela dúvida “ah, na última hora a gente empurra, e ele vai”, mas aqui no meu trabalho, todas as vezes que me apertaram muito deixei claro que era uma hipótese que não iria percorrer. Mas evidente que eu precisava governar e precisa ter coesão para isso, tanto na sociedade quanto nas instituições publicas. Então eu não ia anunciar essa decisão tão prematuramente. Isso enfraquece o governo, enfraquece o ato de governar. Então fui trabalhando, não criei esperança e expectativa das pessoas. Quando senti que estava no prazo certo, anunciei para dar tempo de todas as forças políticas se organizassem e “cada coelho achou sua casinha”. Foram feitas as coligações e o processo político está aí. É uma eleição diferente, uma eleição que o povo está muito chateado e com razão. O povo está com raiva de tudo o que aconteceu no Brasil nos últimos tempos. Então é uma eleição fria, até mesmo gelada se olhar a reação da população. Mas isso não tem a ver com a minha decisão, é importante dizer isso. Tem a ver com a realidade do país, essa confusão que o Brasil entrou nos últimos anos. É uma decisão madura. Eu disse que não vou disputar cargos eletivos, mas vou continuar um militante. Eu acredito na politica como ferramenta civilizatória. Para o debate da atualização política eu estou super disposto a participar e a interferir. Quero deixar claro que eu acredito na democracia, porque para mim ela é valor. E eu não acredito em nenhum tipo de saída, fora das instituições democráticas, não tem jeito de cortar caminho e nós precisamos aperfeiçoar as instituições da democracia representativa. Esse é o nosso desafio nesse mundo de deus que estamos vivendo.

O senhor venceu todas as eleições que disputou e há quem diga que “Paulo Hartung entra com certeza de vitória”…
Vamos separar as duas coisas: o que mostraram as pesquisas do segundo semestre para cá? O fortalecimento da imagem do governador e do governo.  E as primeiras pesquisas eleitorais mostraram que o governador é competitivo, então não sou eu que estou dizendo, são os números. Se fosse por esse raciocínio simples, hoje eu seria candidato. E sobre entrar em eleição para ganhar, não é verdade, pois só entrei em eleições difíceis, desde a primeira. Eu comecei minha carreira política como candidato a deputado estadual, tendo metade dos que me apoiavam querendo que eu concorresse a vereador, e me elegi como o quarto deputado mais votado do ES. Quando disputei a prefeitura de Vitória disputei contra o doutor Luiz Buaiz, uma figura querida da cidade de Vitória, foi duríssima. Depois eu saí da prefeitura, fui diretor do BNDES voltei e fui disputar convenção com José Ignácio, onde perdi e ele foi o candidato a governador e eu a senador, onde ganhei disputando com o doutor Élcio Álvares, ex-governador. No meio do meu mandato voltei para disputar a governador e enfrentei o ex-governador Max Mauro, que tinha feito um bom governo no ES e todo mundo tinha medo de disputar com Max. Quando fui para a reeleição parecia que não tinha adversário, mas eu sempre disse que toda eleição tem adversário e o meu foi Sergio Vidigal, que era o prefeito mais bem avaliado de toda Grande Vitória. Em 2014 disputei contra o governador, contra a máquina do Estado e a maioria dos prefeitos sem me apoiar. Ganhei no primeiro turno, aliás como em todas as eleições ao governo que disputei. Então não tem vida fácil e onde teve desafio enfrentei. Nunca disputei eleição com dossiê na mão. Nunca concorri com denuncismo, destruindo pessoas, aliás, tomei pedrada e não revidei, recolhi as pedras para construir coisas em favor da população do meu estado e do meu país. É assim que eu ajo, disputo no campo das ideias com propósito que me move militar na vida política do meu país. É nesse campo das ideias que disputei as oito eleições de mandato eletivo. Sou muito grato ao povo capixaba, que sempre me elegeu com votações expressivas e em primeiro turno. E sempre busquei retribuir com dedicação e um trabalho bonito, ético e com resultado. Como estamos colhendo com esse governo e nos governos passados, bem como mandatos parlamentares e por aonde tive oportunidade de passar.

Está decidido a sair do MDB. Qual, ou quem, foi sua maior decepção no partido?
Eu sou profundamente decepcionado com o caminho que seguiram as instituições políticas em nosso país. Não é um partido isoladamente e eu acho que lá na Constituinte de 88, pelo zelo que nossa geração tinha com a questão da liberdade, eu acho que houve um exagero na visão de organização partidária no país. E essa proliferação de partidos não tem a ver com “parte do pensamento da sociedade”, que é o que significa partido.  Isso é caça ao tesouro do fundo partidário, negócio de tempo de televisão, de negociata durante as montagens de campanha e alianças eleitorais. Eu acho que esse sistema político morreu, o sistema político brasileiro fez água e nós precisamos ter outra estrutura partidária e outra estrutura eleitoral. Eleições com número menor de partidos, se puder implantar o voto distrital e acabar com coligação no proporcional, pois ela deforma o processo. Você vota no cara do PCdoB e elege do DEM. No Brasil é desse jeito. Um é comunista e o outro, em tese, é liberal, então é um sistema político bichado. Não sou decepcionado com um partido, mas com a estrutura partidária que precisa ser reformada. A minha decepção é profunda com a involução do sistema político brasileiro. E quando tiver uma reestrutura eu quero ter filiação partidária, porque acho legal, mas filiação precisa compatível com o que eu penso em termos de mundo, em termos de Brasil, em termos do desenvolvimento da federação brasileira.

posse paulo hartung_dayana souza (287)O senhor ajudou a eleger Renato Casagrande seu sucessor. Depois voltou a concorrer com ele dizendo que o Estado estava desorganizado. As pesquisas apontam que Casagrande será eleito em primeiro turno, o senhor acredita em retrocesso?
Eu acho que águas passadas não movem moinho. Tenho que concluir meu mandato bem, diferenciado. Tenho recebido lideranças de todo Brasil que vem aqui conhecer a nossa experiência. Então o meu papel é de timoneiro que vai levando o barco até o cais seguro. Vamos entregar o Estado seguro, organizado administrativamente, organizado politicamente, organizado financeiramente e com as políticas publicas na área social produzindo resultados. Esse é o legado que eu deixo para os capixabas e o bastão que eu digo que vou passar o dono é o povo capixaba. É ele que decide a quem vou entregar. Não vou olhar para trás, vou olhar para essa missão que protesto_pmes_mulheres-217266eu tenho que cumprir, que é entregar o governo do Espírito Santo como o governo mais

Foto: Foto: Alexandre Alvares/Secom-ES
Foto: Foto: Alexandre Alvares/Secom-ES

organizado das 27 unidades da Federação.

Qual a maior marca Paulo Hartung está deixando neste encerramento de mandato e vida pública?
Eu acho que é melhorar a educação pública. Esse é um desafio do Brasil. Nós estamos vivendo na sociedade do conhecimento, sociedade atravessada pelas novas tecnologias, de informações e comunicação que modifica a vida e a forma de consumir. E qual herança que podemos entregar para filhos e netos, senão o acesso ao conhecimento? Esse é o grande legado às futuras gerações. Então conseguir fazer com que o Espírito Santo se destaque na educação, sobretudo para esse tempo que estamos vivendo é a grande marca. Para cuidar da vida das pessoas você tem que estar com as contas organizadas. Então acho que estamos deixando um conjunto de boas políticas e ressalto a questão da educação, porque educação é estratégica no país e consequentemente em nosso Estado.

Como o senhor escolhe seus candidatos?
Com um conjunto de critérios que acho razoável e depende do cargo. A vida foi me ensinando que a pessoa vocacionada para o Executivo nem sempre é para o Legislativo. Eu vi muitos bons quadros que fizeram um trabalho bonito Legislativo e quando pisaram no Executivo a carreira acabou. Tem também gente que é muito preparada para o Executivo, mas não tem a paciência necessária para conviver com o Legislativo, onde se tem um rito muito lento, negociações muito demoradas. Eu costumava dizer que entrava no Congresso Nacional, quando era deputado e senador, e não via quando anoitecia porque são negociações intermináveis até que se coloque um projeto em votação. Tem que superar muito e organizar divergências. Qual a vocação que as pessoas têm? Também tem uma coisa que serve para tudo: história de vida. Importante conhecer historia de vida de um candidato e a conjuntura muitas vezes muda o peso e a medida das coisas. Por exemplo, a conjuntura do país hoje pede renovação e o povo quer renovar as forças políticas e aí você veja a contradição: gente jovem você conhece pouco a experiência, sobretudo se nunca teve mandato. Mas o que atrapalha a renovação no momento são instituição políticas que operam para a manutenção de quem já está no poder. Não abre para oxigenar e eu acho que está na hora. Meus critérios são múltiplos. As pessoas precisam ter compromisso com valores republicanos e democracia, mas a conjuntura opera na questão da necessidade. Seis por meia dúzia não é renovação, temos que ter caras novas, sangue novo, com novas ideias, para mexer com a estrutura carcomida da politica brasileira.

De dentro do Palácio Anchieta, de pessoas que o senhor nomeou para os mais diversos cargos, saíram candidaturas ao Governo, Senado, Câmara Federal e Assembleia Legislativa: todos são atentados com selo “PH”?
Não. Estou muito cauteloso com esta eleição e tenho preferido cuidar do estado a cuidar de disputa eleitoral. Estou deixando a disputa nessas condições que estamos vivendo, nesta estrutura de um sistema político péssimo, que ela se dê com suas próprias pernas. Se me deixarem quieto vou trabalhar porque tem muita entrega para fazer, muita coisa boa para até dezembro entregar aos capixabas.

Alianças políticas mexem diretamente na gestão uma vez que são nomeados quadros em cargos de confiança. Mexe muito com a gestão?
Não. A gestão está tocando direto e os elementos fundamentais para chegar organizadinha em 31 de dezembro já estão dados. Até a LDO já foi aprovada, com os balizamentos do orçamento de 2019. A bola está redonda. Entrego esse governo diferenciado.

Qual foi seu pior e melhor momento?
Pior momento foi a coincidência da doença e a paralisação da PMES. Tive que voltar do hospital com recuperação de operação em curso para cuidar de momento delicado. Mas Graças a Deus tivermos força de maneira equilibrada para não tomar decisão errada ou precipitada. Não demos nenhum passo maior que a perna. Mas foi um momento dificilíssimo que conduzimos com calma e conseguimos superar. Já o positivo são muitos e elencar um não seria justo. Mas nunca o ES teve a credibilidade e visibilidade no país que tem hoje. Nossa educação está melhorando e a mortalidade infantil caindo, expectativa de vida alta no ES e melhorando a questão ambiental. São muitas as conquistas neste tempo e todas muito importantes. Administramos o ES debaixo de uma crise nacional gravíssima, tivemos a crise hídrica que foi nossa, depois problema de petróleo e gás e ainda teve a questão da Samarco que sozinha é 5% do PIB capixaba. E com todo esse impacto produzimos resultado. O mais feliz então é o conjunto da obra.

Encerra sua vida pública com o sentimento de dever cumprido?
Sim. E agradecido a população capixaba mais essa oportunidade. Estou feliz e dando o melhor de mim, com equipe ótima trabalhando comigo.

Fica algum arrependimento?
Não. Na vida a gente segue em frente, as vezes comete erro, e erro é humano, corrige e segue em frente. Quem não tem coragem de ousar nunca vai esbarrar em problema nenhum, vai ser página em branco.

Aos 61 anos, e com a nova função de avô, qual Espírito Santo deseja para as futuras gerações?
Eu quero que o ranking que colocou o Espírito Santo em 4ª melhor para viver seja superado, disputando com o primeiro lugar, Santa Catarina. Temos tudo para isso e o que está por vir é sempre melhor. Educação já estamos melhor, a saúde alavancando, coleta e tratamento de esgota só tem melhorado. Espero que o ES caminhe para ser o primeiro lugar. Espero muito para o Brasil de todos nós e do Lucas (neto). O Brasil precisa reencontrar seu caminho e quando penso no meu neto e nas futuras gerações, penso no país tomando rumo. Não pode ser sonho da juventude brasileira deixar o país para ter realização em outros países do mundo. Para a gente acertar o passo precisamos pegar o caminho certo e não o mais curto.

Como fazer politica sem disputar nenhuma eleição, conforme o senhor anunciou?
Escrevendo artigos, fazendo palestras, defendendo ideias, ajudando a formar novas lideranças. As vezes gasto tempo conversando com jovens lideres porque estou fazendo aposta. E vou continuar.

A sua empresa de consultoria, aberta nos quatro anos em que esteve em mandato, será reativada?
Já tenho algumas propostas que estou analisando na vida privada. Posso voltar a fazer parte de conselhos de empresas novamente, como fiz nos quatro anos em que estive fora da política com mandato.  Vou analisar com calma, mas primeiro preciso sair do governo e dar uma descansadinha de um mês, pelo menos, porque também sou filho de Deus. Estou preparando um livro, vou lançar e ele vai ensejar um conjunto de palestras Brasil afora. Também já recebi convites para palestrar em São Paulo e com o livro isso vai fluir naturalmente. O livro é um bom roteiro de como é que a gente está toando esse trabalho no Espírito Santo durante esse momento crítico e desafiador, que precisa de muita capacidade de gestão, muita capacidade de liderança, muita equipe de governo e planejamento. Precisa de muito foco. Acho que conversar sobre isso no Brasil vai ser bom e tenho muita animação para isso.

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