Dia desses, meditando sobre nós, consumidores, recordei-me de uma interessante reflexão de Eric Hodgins: “medicamento milagroso é qualquer um que realize o prometido pela bula”.
         Decidi, para ter uma visão mais ampla sobre o problema da qualidade do que consumimos, percorrer meu “banco de dados”. Segue abaixo uma mínima parcela do que encontrei – necessitaria de um livro para reproduzir tudo!
         Comecemos pelo Reino Unido, país no qual recente inspeção sanitária constatou que o queijo das pizzas contém apenas 40% de… queijo! Os outros 60% são uma mistura barata de óleo vegetal e soro de leite, que imita o sabor de queijo. Na mesma operação encontraram desde vodca com anticongelantes até suco de frutas com retardantes de fogo.
         Nos EUA, recente pesquisa encontrou um composto químico altamente tóxico denominado azodicarbonamida em mais de 500 tipos de alimento, desde pão até hamburguer. Aliás, naquele país, serviram comida imprópria para consumo em recente conferência sobre a segurança dos alimentos – mais de cem participantes desta importante reunião foram parar no hospital.
         Na Rússia, os funcionários de um laticínio foram fotografados banhando-se dentro de um tanque cheio de leite, antes deste ser embalado e vendido – decerto buscam, à semelhança da saudosa rainha Cleópatra, alcançar uma cútis sedosa!
         Na Coreia do Sul, uma inspeção encontrou nada menos que 315 restaurantes prometendo um alimento e entregando outro – as fraudes iam desde a origem até a qualidade do produto.
         Na Índia, inacreditáveis 20% de todos os alimentos testados por órgãos governamentais ao longo de todo um ano estavam adulterados ou impróprios para consumo humano – são potenciais causadores de problemas de saúde que vão de doenças cardíacas a problemas neurológicos, especialmente em crianças.
         No Brasil, o Instituto de Nutrição da UERJ constatou, não faz muito tempo, que 90% dos legumes e vegetais consumidos pelos cariocas estão contaminados por substâncias químicas. Há ainda as denúncias de que a adulteração do leite – inclusive aquele consumido por nossas crianças – é comum e está espalhada pelo Brasil.
         No Japão, recentemente mais de mil pessoas foram parar no hospital por conta de contaminação em alimentos. Ainda naquele país, diversas empresas foram acusadas de fraudes relativas à validade dos produtos vendidos.
         Na China, órgãos de fiscalização encontraram, recentemente, o que considero o paroxismo: a comercialização de frangos com a validade vencida há 46 anos! Repito, para total clareza: as penosas morreram na década de 1960!
         Na Europa, perde-se a cada ano 31 bilhões de Euros por conta de doenças causadas pelo consumo de produtos estragados ou contaminados – a lista de malefícios é longa, incluindo câncer, diabetes, obesidade e até infertilidade.
         A nível global, a OMS calcula que a ingestão de comidas e bebidas contaminadas por bactérias, vírus ou parasitas, é responsável pelo recrudescimento de mais de 250 tipos de doenças transmitidas por alimentos, com destaque para a toxoplasmose, cólera e botulismo.
         Acredito, à vista da origem dos exemplos que coletei, ter ficado claro que o problema não é de “falta de dinheiro” para fiscalização – afinal, estamos a falar de alguns dos mais ricos locais do planeta, tão pródigos em desperdícios.
         Diante deste quadro, retrato da humanidade, fiquei a pensar em Mahatma Gandhi, segundo quem “a terra provê o suficiente para a necessidade de todos os homens, mas não para a voracidade de todos”. Recordei-me também de um famoso provérbio alemão, que aqui dedico às autoridades que, por ação ou omissão, permitem a impunidade dos maus e a perpetuação do crime e da corrupcão: “quem segura a escada é mau como o ladrão”.

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