Entre surtos psicóticos, internações recorrentes e severas dificuldades para conseguir atendimento médico especializado, dezenas de famílias de pacientes que sofrem com esquizofrenia convivem diariamente com uma rede pública de saúde mental fragilizada. No Espírito Santo, o ecossistema de atendimento é marcado por graves falhas estruturais. Enquanto o debate contemporâneo sobre saúde mental ganha relevância nas redes sociais e em campanhas de conscientização, pacientes com quadros graves e seus respectivos cuidadores seguem enfrentando obstáculos diários para garantir a manutenção do tratamento contínuo e o acesso à assistência médica qualificada.
De acordo com o especialista em saúde pública Thiago Dias, o Espírito Santo enfrenta atualmente um déficit estimado de cerca de 60 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e pelo menos 115 leitos dedicados à saúde mental em hospitais gerais. Esse cenário deficitário impacta diretamente a qualidade do acolhimento e do tratamento de esquizofrenia, aumentando expressivamente a sobrecarga física e emocional das famílias.
Dias avalia que essa deficiência crônica na estrutura afeta principalmente os indivíduos em estágios mais agudos, inviabilizando o acompanhamento linear dentro da rede pública de saúde.
“Uma pessoa com diagnóstico de esquizofrenia precisa de acompanhamento integral em múltiplos pontos da rede, o que engloba a Unidade Básica de Saúde (UBS), os CAPS, centros especializados e, em momentos de crise, o suporte hospitalar. Quando essa rede falha em se organizar, o paciente perde totalmente a continuidade terapêutica e a família acaba assumindo um peso desproporcional”, esclarece o especialista.
Os gargalos nos CAPS e a falta de psiquiatras e psicólogos
Os dados oficiais extraídos do Censo das Unidades Básicas de Saúde do Espírito Santo de 2024 expõem a dimensão do problema: aproximadamente 45% das UBSs capixabas relatam extrema dificuldade para encaminhar pacientes regulados para os CAPS. Além disso, outros 37% das unidades apontam falhas e desabastecimento no fornecimento regular de medicamentos essenciais utilizados estritamente no controle clínico da esquizofrenia.
O levantamento estatístico também revela uma severa fragilidade no quadro técnico da atenção básica: apenas 2% das UBSs do Espírito Santo contam com o apoio de um psiquiatra e quase 70% sequer dispõem de psicólogo próprio para os atendimentos.
Para Thiago Dias, a insuficiência generalizada da rede força os pacientes a retornarem ao sistema de saúde somente em momentos críticos, quando as condições clínicas já se agravaram de forma alarmante. “Quando o paciente não consegue manter a rotina de cuidado preventivo regular, em grande parte dos casos ele só volta a acessar o serviço médico por meio das alas de emergência ou por ordens de internação de urgência”, pondera.
O especialista em saúde pública aponta também que muitos CAPS operam rotineiramente com equipes técnicas incompletas e vínculos profissionais instáveis, o que sabota a perenidade do atendimento especializado, gerando filas de espera quilométricas e interrupções abruptas no acompanhamento psicossocial.
O impacto transcende o paciente. Dias faz um alerta contundente sobre o desgaste físico e mental dos familiares responsáveis pelos cuidados diários.
“Muitas vezes, trata-se de uma mãe ou de uma irmã que se vê obrigada a abandonar o mercado de trabalho, consome todos os seus recursos financeiros com remédios particulares e transporte, e acaba adoecendo em conjunto. A cuidadora, eventualmente, passa a necessitar do exato sistema de saúde que já não consegue oferecer o amparo necessário ao seu familiar”.
Surtos psicóticos e reinternações: as causas do abandono do tratamento
A manifesta dificuldade em assegurar um acompanhamento médico perene contribui ativamente para a escalada de crises agudas e para o crescimento das taxas de reinternações hospitalares. Thiago Dias correlaciona de maneira direta o abandono do tratamento com a deterioração do quadro clínico e o consequente retorno em massa às emergências médicas.
“Quando o indivíduo interrompe o uso da medicação prescrita ou deixa de frequentar as consultas com as equipes multidisciplinares do CAPS, o risco de eclosão de um novo surto psicótico cresce exponencialmente. E cada novo surto cobra um preço biológico e social alto, resultando em mais internações e perdas severas na autonomia do indivíduo para gerir a sua própria rotina diária.”
Contudo, o especialista faz questão de evidenciar que o distanciamento do tratamento médico raramente ocorre por livre arbítrio ou negligência deliberada do paciente. O cenário real envolve barreiras logísticas e administrativas: a demora crônica para agendamento de consultas, a complexidade no acesso físico aos CAPS, a falta crônica de fármacos na farmácia popular e os custos proibitivos com transporte público.
“O abandono do tratamento quase nunca é uma escolha. Na maioria das vezes, é a consulta médica que demora meses, o remédio que falta nas prateleiras públicas ou a unidade do CAPS que fica localizada geograficamente distante da realidade socioeconômica daquela família”, pontua Dias.
Para o especialista, mitigar de vez esse ciclo vicioso demanda uma forte integração operacional entre os hospitais gerais, os CAPS e as Unidades Básicas de Saúde, garantindo que o fluxo de cuidados seja ativado imediatamente após a alta hospitalar. “O ideal técnico é que o cidadão saia da internação conectado ao CAPS e à UBS de seu território de moradia, com a próxima consulta devidamente agendada e o acesso à sua medicação plenamente garantido.”
Sintomas da esquizofrenia e o combate ao estigma social
Para além das barreiras físicas e estruturais do SUS, o preconceito arraigado e a desinformação crônica figuram como os principais obstáculos socioambientais enfrentados por indivíduos diagnosticados com esquizofrenia no Brasil. A constatação técnica é respaldada pela psicóloga Tainá Costa, especialista atuante na área de saúde mental.
Segundo Costa, além de lidar com os sintomas intrínsecos à patologia, as pessoas afetadas pela esquizofrenia enfrentam exclusão sistemática, ruídos graves nas relações interpessoais e barreiras de entrada no ambiente educacional e no mercado de trabalho formal.
“O estigma social e o preconceito continuam operando como barreiras invisíveis para a obtenção do diagnóstico precoce e a adesão ao tratamento da esquizofrenia. Inúmeras famílias retardam a busca por auxílio profissional especializado por receio do julgamento público e da rotulação social”, adverte a psicóloga.
A profissional detalha que o abandono terapêutico também está intimamente atrelado a componentes psicológicos complexos, como a anosognosia (a incapacidade neurológica ou psicológica de reconhecer a própria condição), os efeitos colaterais severos dos antipsicóticos, a negação do diagnóstico e o isolamento por falta de uma rede de apoio familiar coesa.
Do mesmo modo, os cuidadores sofrem danos profundos à sua integridade emocional. “Os núcleos familiares coabitam em estado de alerta permanente, sob a égide do medo, da ansiedade e da total insegurança, sobretudo durante os picos de crise. Há uma sobrecarga emocional crônica e invisibilizada.”
A psicóloga faz um apelo para que a sociedade aprenda a identificar os principais sintomas da esquizofrenia e os sinais de alerta que exigem intervenção clínica imediata: isolamento social profundo e prolongado, discursos ou falas desconexas, desconfiança paranoica excessiva, apatia severa e episódios evidentes de surto psicótico.
Para Tainá Costa, assegurar dignidade e qualidade de vida a esses pacientes requer uma transformação cultural imediata. “Construir um tecido social verdadeiramente acolhedor não se resume exclusivamente à administração de protocolos clínicos e terapêuticos; exige disseminação massiva de informação qualificada, políticas ativas de inclusão social e a humanização irrestrita do cuidado em saúde mental”, conclui.
O que diz a Sesa
Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informou que atua com foco no cuidado integral em saúde mental, seguindo as diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Segundo a pasta, o objetivo é garantir acolhimento, atendimento e acompanhamento às pessoas com transtornos mentais ou em sofrimento psíquico.
De acordo com a Sesa, a porta de entrada da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) são as Unidades Básicas de Saúde (UBS) dos municípios, onde os pacientes são atendidos inicialmente pelas equipes de Atenção Primária e Saúde da Família.
A secretaria explicou que casos considerados graves, crônicos ou persistentes são encaminhados para acompanhamento especializado nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Atualmente, o Espírito Santo conta com 45 unidades em funcionamento.
A pasta destacou ainda que, em situações de crise em saúde mental, a população pode acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192), além de procurar prontos-socorros e unidades de pronto-atendimento.
Segundo a Sesa, o Estado possui leitos de saúde mental em hospitais gerais e também leitos psiquiátricos especializados para atendimento de adultos no Hospital Estadual de Atenção Clínica (HEAC) e no Centro de Atendimento Psiquiátrico Aristides Alexandre Campos (CAPAAC). Já o atendimento infantojuvenil é realizado no Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba).
A secretaria informou ainda que também conta com clínicas credenciadas para atendimento em saúde mental, com internações reguladas por meio do Protocolo Estadual de Classificação de Risco em Saúde Mental.
Sobre os tipos de internação, a Sesa explicou que elas podem ocorrer de forma voluntária, quando há consentimento do paciente; involuntária, quando há necessidade de internação sem consentimento; e compulsória, quando determinada pela Justiça.
A pasta ressaltou que toda solicitação de internação involuntária depende de avaliação médica e emissão de laudo, sendo adotada apenas após o esgotamento das possibilidades terapêuticas e dos recursos extra-hospitalares disponíveis na rede de atendimento.









