O que o ES pode aprender com região de alta longevidade

Entre as regiões do mundo conhecidas como “Zonas Azuis” — locais onde a população apresenta maior expectativa de vida e menor incidência de doenças crônicas — uma delas está na América Latina: a Península de Nicoya, na Costa Rica.

O interesse pela região vem de estudos que identificaram um número expressivo de pessoas centenárias e padrões de vida associados ao envelhecimento saudável. O conceito de “Blue Zones” foi utilizado pela primeira vez pelo pesquisador Michel Poulain e popularizado pelo escritor e pesquisador Dan Buettner em parceria com a National Geographic.

De acordo com a médica da família Jatele Saleme, as chamadas Zonas Azuis são regiões geográficas onde há maior quantidade de pessoas que vivem mais de 100 anos e menor incidência de doenças crônicas em comparação com áreas próximas.

“Grande parte das evidências vem de estudos observacionais e demográficos que identificam padrões associados à longevidade, como alimentação saudável, atividade física, conexões sociais e redução do estresse”, explica.

Estilo de vida e ambiente

Na Península de Nicoya, a combinação entre alimentação, movimento cotidiano e fatores ambientais ajuda a explicar a longevidade da população.

Segundo Saleme, estudos realizados na região apontaram uma dieta rica em fibras, proteínas e carboidratos naturais, com baixo consumo de alimentos processados e carne vermelha. A atividade física também faz parte da rotina diária.

“Altos níveis de atividade física têm origem nas práticas agrícolas tradicionais e no movimento diário”, afirma.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a prática de exercícios nas Zonas Azuis não costuma ocorrer em academias ou programas estruturados.

“Nessas comunidades, o movimento acontece de forma natural, por meio de atividades como caminhar, cultivar alimentos ou realizar trabalhos domésticos e rurais, evitando longos períodos de sedentarismo”, diz.

A médica ressalta ainda que a longevidade não pode ser atribuída a um único fator. Segundo ela, genética, ambiente e estilo de vida atuam de forma conjunta.

Alimentação baseada em comida de verdade

Outro aspecto frequentemente associado às regiões mais longevas do mundo é o padrão alimentar.

A nutricionista Milena Barbosa Zambom explica que a dieta das Zonas Azuis é baseada principalmente em alimentos naturais e minimamente processados.

“A alimentação inclui frutas, verduras, legumes, grãos integrais e leguminosas, com baixo consumo de produtos industrializados”, afirma.

Entre os alimentos mais presentes estão vegetais, frutas, cereais integrais, azeite de oliva e leguminosas como feijão, lentilha e grão-de-bico.

“Esses alimentos são ricos em fibras, vitaminas e antioxidantes, nutrientes associados à prevenção de doenças crônicas”, explica.

Segundo a nutricionista, reduzir o consumo de ultraprocessados também faz diferença para a saúde ao longo da vida.

“Esses produtos costumam ter excesso de açúcar, sódio e gorduras de baixa qualidade, além de baixo valor nutricional, o que pode aumentar o risco de doenças como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares.”

Ela destaca ainda que esse tipo de alimentação pode ser adaptado à realidade brasileira.

“O Brasil tem uma grande variedade de alimentos naturais, como arroz, feijão, frutas, verduras e tubérculos, que se encaixam bem nesse padrão alimentar.”

Vínculos sociais e propósito de vida

Além da alimentação e da atividade física, outro fator importante observado nas Zonas Azuis é a força das relações sociais.

Para a psicóloga Marília Zanette, os vínculos sociais têm impacto direto na saúde mental e física.

“Quando a pessoa se sente pertencente a um grupo, seja família, amigos ou comunidade, ela experimenta maior sensação de segurança emocional e pertencimento, o que ajuda a reduzir sentimentos de solidão, ansiedade e depressão”, afirma.

Outro conceito frequentemente citado em estudos sobre longevidade é o chamado “senso de propósito”.

“Na prática, significa ter motivos para levantar da cama todos os dias. Muitas vezes isso está ligado a papéis simples, como cuidar da família, trabalhar com algo significativo ou sentir que contribui de alguma forma para o mundo”, explica.

Segundo a psicóloga, pessoas que percebem sentido na própria vida tendem a cuidar mais da saúde e lidar melhor com desafios.

Ritmo de vida menos acelerado

Em comum, muitas dessas regiões apresentam um ritmo de vida menos acelerado, com mais tempo dedicado à convivência e ao descanso.

“Ritmos de vida muito acelerados favorecem sobrecarga mental e excesso de estímulos. Em contextos mais desacelerados, as pessoas tendem a ter mais tempo para convivência e atividades que geram satisfação”, afirma Zanette.

Por outro lado, o isolamento social pode trazer impactos negativos ao longo dos anos.

“O ser humano é essencialmente relacional. A falta de contato e de troca afetiva pode aumentar sentimentos de solidão, tristeza e desmotivação”, diz.

O que dá para aplicar no Brasil

Apesar das inspirações trazidas pelas Zonas Azuis, especialistas destacam que a longevidade não depende apenas de escolhas individuais.

Segundo Saleme, fatores estruturais como acesso à saúde, saneamento básico, alimentação adequada e condições de vida também influenciam diretamente na expectativa de vida.

“A longevidade é resultado de uma combinação complexa de fatores, que incluem estilo de vida, genética, ambiente e determinantes sociais da saúde”, afirma.

Ainda assim, pequenas mudanças podem fazer diferença no dia a dia.

“Incorporar mais movimento na rotina, priorizar alimentos menos processados, cuidar do sono e fortalecer vínculos sociais são hábitos que podem contribuir para um envelhecimento mais saudável”, orienta.

Para especialistas, a principal lição das Zonas Azuis talvez seja justamente a valorização de aspectos simples da vida.

“Relações significativas, rotina equilibrada, propósito e cuidado com a saúde física e emocional são elementos que ajudam a sustentar o bem-estar ao longo dos anos”, conclui Zanette.

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