Apesar de não ser uma queixa incomum entre os capixabas, a dor na coluna ainda enfrenta lacunas no acesso a diagnóstico e tratamento no Espírito Santo. Especialistas chamam atenção para desigualdades entre capital e interior e para a ausência de políticas públicas de prevenção, educação postural e ergonomia.
Dados da Secretaria da Saúde (Sesa) mostram que o número de cirurgias de coluna passou de 318 em 2023 para 537 em 2024 (aumento de 68,8%), com 429 procedimentos realizados até 13 de outubro de 2025. Consultas em ortopedia na Região Metropolitana chegaram a 2.118 em 2024, contra 1.829 em 2023.
De acordo com o professor Thiago Dias Sarti, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), os principais entraves para o acesso adequado aos cuidados com a coluna estão relacionados à distribuição desigual de serviços e à demora nas consultas com especialistas.
“Nas regiões mais vulneráveis, o problema é ainda maior, porque pode haver falta de profissionais de saúde, longas distâncias até os centros de referência e poucos serviços de diagnóstico por imagem, como ressonância magnética ou tomografia computadorizada”, afirma.
Segundo o docente, outro fator que agrava o problema é a demora das pessoas em buscar ajuda. “Muitas demoram a procurar atendimento por acharem que a dor vai passar sozinha ou por falta de informação sobre a importância do cuidado precoce. O resultado é o agravamento do problema, com mais sofrimento e até afastamentos do trabalho”, alerta.
Thiago destaca que a atenção primária poderia resolver grande parte dos casos com medidas simples de fortalecimento muscular, exercícios e orientação postural. Ele assegura que apenas uma minoria das pessoas com problemas de coluna precisa de exames complexos ou avaliação de ortopedista, neurocirurgião ou reumatologista.
“A maioria pode tranquilamente ser acompanhada na Unidade de Saúde mais próxima, fortalecendo a musculatura, aprendendo alongamentos e adotando medidas ergonômicas”, explica.
Segundo o especialista, a oferta de fisioterapia e reabilitação pelo Sistema Único de Saúde (SUS) melhorou nos últimos anos, mas ainda há concentração de serviços na Grande Vitória. As cirurgias de coluna continuam centralizadas na capital, o que gera filas e longos períodos de espera.
Não é uma questão individual
Para Thiago, a grande questão é que a dor nas costas ainda é tratada de forma individual, sem integração com políticas públicas que considerem causas sociais e ocupacionais. “A dor nas costas é uma das principais causas de afastamento do trabalho e incapacidade no Brasil, mas costuma ser tratada apenas do ponto de vista médico e individual. Faltam políticas públicas mais amplas que considerem as causas sociais”, afirma.
Segundo ele, é necessário que o tema seja incorporado de forma efetiva nas estratégias de atenção primária à saúde. “É preciso investir na capacitação dos profissionais, ampliar o acesso à fisioterapia na atenção básica e incluir a saúde da coluna nas rotinas de cuidado”, recomenda. “É essencial ouvir a comunidade: entender como o trabalho, as condições de moradia e o estilo de vida estão afetando a saúde das pessoas. A partir disso, as ações podem ser mais efetivas e conectadas à realidade de cada território”, conclui.
O cotidiano de quem sofre com a coluna
Glace Damiana, 52 anos, convive há anos com a famosa “dor na coluna”. Depois de várias consultas médicas, descobriu que tem um desvio e precisaria de acompanhamento constante — algo que ainda não conseguiu fazer pelo SUS. “Marcar consulta demora, agendar exame demora. O médico disse que eu precisava ter acompanhamento com um fisioterapeuta, mas ainda assim estou perdida”, conta.
Em entrevista ao ES Hoje, ela relata que a dor afeta cada aspecto de sua rotina. “Já deixei de trabalhar, já deixei de fazer muita coisa por conta das dores nas costas. Isso impacta diretamente minha qualidade de vida. Com a idade, sinto que está piorando. Preciso juntar dinheiro e correr atrás do tratamento o quanto antes”, desabafa.
Ela já precisou ir várias vezes ao hospital, quando a coluna trava de dor, mas o procedimento é sempre o mesmo: imobilização, analgésico e encaminhamento para o ortopedista. “Por muito tempo ouvi que era só deitar que a dor passava. Conseguir uma consulta é difícil e, por isso, ainda não faço acompanhamento, mas sei que preciso”, relata.
O fisioterapeuta Márcio Roberto afirma que, no SUS, a estrutura ainda é insuficiente. “As consultas com especialistas demoram muito tempo para acontecer, o que pode agravar quadros de hérnia de disco e outros problemas de coluna”, diz.
Ele explica que grande parte dos casos tem relação com o sedentarismo. “As pessoas não têm consciência da importância do fortalecimento muscular e dos benefícios da atividade física. A falta de exercício interfere na postura e na resistência dos músculos e ossos da coluna”, observa.
Segundo ele, a fisioterapia não atua apenas na prevenção: é fundamental no tratamento de dores crônicas e no pós-cirurgia. “A fisioterapia ajuda a reverter indicações de cirurgia, conscientiza o paciente sobre seu caso e orienta exercícios e cuidados que devem ser feitos em casa”, afirma.
De acordo com o especialista, o grupo mais afetado atualmente é o de pessoas entre 35 e 65 anos, mas adolescentes e idosos também têm procurado atendimento com frequência. Para prevenir problemas, Márcio reforça medidas simples do dia a dia: “Praticar atividade física regular de duas a três vezes por semana, evitar permanecer muito tempo na mesma posição, não usar colchão muito mole, manter boa alimentação e beber bastante água”, orienta.
Tratamentos disponíveis pelo SUS
A Secretaria da Saúde do Espírito Santo informa que a dor nas costas não é de notificação compulsória, por isso não há dados específicos sobre pacientes com dores na coluna na rede pública. O tratamento gratuito ocorre nas unidades básicas de saúde e, conforme a necessidade, os pacientes são encaminhados para atendimento especializado, seja ambulatorial ou hospitalar.
Em Cariacica, o Centro de Referência em Práticas Integrativas e Complementares (CRPIC) do CRE Metropolitano oferece homeopatia e acupuntura para o tratamento de dores crônicas.
No Norte do Estado, o AmparADOR — Consultório Multiprofissional Especializado em Dores Crônicas — atende pacientes encaminhados pelas unidades de saúde no CRE de São Mateus, com anestesiologista, farmacêutico, fisioterapeuta e psicólogo.
Já o Centro de Reabilitação Física do Estado (Crefes), em Vila Velha, possui um Ambulatório de Dor Crônica com especialistas em ortopedia e anestesiologia. Além disso, oferece fisioterapia, acupuntura, terapia ocupacional e acompanhamento psicológico aos pacientes em tratamento.











