A trajetória da comandante Dayse Barbosa foi lembrada com emoção durante o IV Encontro Nacional sobre Segurança Pública e Enfrentamento da Violência contra a Mulher, realizado nesta quarta-feira (25), em Brasília. A homenagem ocorreu dias após a agente de segurança ser assassinada a tiros pelo ex-companheiro, que invadiu sua casa no bairro Mário Cypreste, em Vitória. O evento reuniu representantes de todo o país e contou com um momento de homenagem, marcado por um minuto de silêncio, seguido de aplausos em reconhecimento à atuação da agente.
A homenagem destacou o legado de Dayse no enfrentamento à violência de gênero e sua contribuição para a segurança pública municipal. Representando a Guarda de Vitória, a gerente de Formação, Anne Alves, participou do encontro e fez um discurso em memória à amiga, ressaltando o compromisso, a dedicação e o impacto do trabalho e vida de Dayse junto à população.
“A trajetória Dayse Barbosa, comandante da Guarda Municipal de Vitória, não pode, e não deve, ser reduzida à forma brutal e injustificável como sua vida foi interrompida. Dayse foi, antes de tudo, uma liderança comprometida, uma mulher que construiu sua história com coragem, dedicação e, sobretudo, com um propósito muito claro: enfrentar a violência e defender os direitos das mulheres”, declara Anne.
Anne ainda clamou por mudanças no enfrentamento ao feminicídio. “É urgente enfrentar a raiz do problema: a mentalidade que sustenta a violência”, diz.
Evento
Promovido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), em parceria com a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), por meio da Diretoria do Sistema Único de Segurança Pública (Dsusp), o encontro acontece nos dias 25 e 26 de março, na capital federal.
A iniciativa dá continuidade às edições anteriores e tem como foco fortalecer a integração entre os órgãos que compõem o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) no combate à violência contra a mulher. Ao longo dos anos, o evento tem contribuído para aprimorar protocolos de atendimento, ampliar a articulação entre forças de segurança e o sistema de justiça, além de promover a troca de experiências bem-sucedidas entre estados.
Os debates também têm servido de base para a formulação de políticas públicas voltadas à prevenção e à qualificação do atendimento às vítimas, especialmente em casos de violência doméstica e familiar.
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Abaixo, confira o discurso de Anne Alves durante o IV Encontro Nacional sobre Segurança Pública e Enfrentamento da Violência contra a Mulher:
A trajetória da GCM Dayse Barbosa, comandante da Guarda Municipal de Vitória, não pode, e não deve, ser reduzida à forma brutal e injustificável como sua vida foi interrompida. Dayse foi, antes de tudo, uma liderança comprometida, uma mulher que construiu sua história com coragem, dedicação e, sobretudo, com um propósito muito claro: enfrentar a violência e defender os direitos das mulheres.
Ao longo de sua carreira na Guarda Municipal de Vitória, ela não apenas ocupou um espaço de comando historicamente negado às mulheres, mas o ressignificou. Transformou autoridade em cuidado, gestão em compromisso social e função pública em instrumento de proteção. Sua atuação esteve diretamente ligada à construção de uma sociedade mais justa, onde mulheres pudessem viver sem medo.
E é justamente aqui que sua história se cruza, de forma dolorosa, com a realidade que buscamos transformar.
A morte da comandante Dayse não é um episódio isolado. Ela é expressão de uma estrutura social ainda profundamente marcada pelo patriarcado, pelo machismo e pela misoginia. Uma estrutura que naturaliza o controle sobre o corpo e a vida das mulheres, que banaliza a violência doméstica e que, em seus extremos mais cruéis, culmina no feminicídio._
Quando uma mulher é assassinada por um ex-companheiro, não estamos diante apenas de um crime individual.Estamos diante do resultado de uma cultura que, por séculos, legitimou a ideia de posse, de dominação e de superioridade masculina. Uma cultura que ensina homens a controlar e pune mulheres que ousam romper ciclos, afirmar sua autonomia ou simplesmente dizer “não”.
Dayse lutou contra essa lógica em vida e, de forma trágica, tornou-se vítima dela. Por isso, sua morte nos convoca. Não apenas à indignação, mas à responsabilidade.
Não podemos permitir que sua história seja absorvida pela estatística fria da violência. Não podemos aceitar que mais um nome se perca na repetição cotidiana de tragédias anunciadas. Cada caso como esse exige mais do que lamento exige ação concreta, compromisso institucional e transformação cultural.
É preciso fortalecer políticas públicas, ampliar redes de proteção, garantir que denúncias sejam acolhidas com seriedade e que medidas protetivas sejam efetivamente cumpridas. Mas, além disso, é urgente enfrentar a raiz do problema: a mentalidade que sustenta a violência.
Isso passa pela educação, pela desconstrução de padrões de masculinidade baseados no domínio, pelo enfrentamento de discursos que minimizam ou relativizam a violência contra a mulher.
A morte da comandante Dayse precisa marcar um ponto de inflexão.
Que ela não seja apenas lembrada como vítima, mas como símbolo de uma luta que precisa continuar com ainda mais força. Que sua história nos mobilize a romper o ciclo da violência, a questionar estruturas injustas e a construir, de fato, uma sociedade onde mulheres possam viver com dignidade, liberdade e segurança.
Porque o verdadeiro tributo à Dayse não está apenas na memória, está na mudança. E essa mudança não pode mais ser adiada.









