Nova regra da CNH permite instrutor “relâmpago” e gera alerta sobre segurança nas aulas

Uma mudança recente nas regras para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) reacendeu um debate nacional sobre segurança, qualificação profissional e fiscalização no processo de formação de motoristas no Brasil. A nova regulamentação permite que um instrutor de trânsito se credencie em tempo recorde — em alguns casos, em menos de uma hora — algo que, até pouco tempo atrás, exigia uma formação com mais de 180 horas.

A flexibilização foi introduzida pela Resolução nº 1.020/2025 do Contran, que alterou procedimentos ligados à habilitação com o objetivo de tornar a CNH mais acessível e reduzir custos para os candidatos. No entanto, um episódio recente trouxe a discussão para o centro do setor automotivo: um repórter da Revista Quatro Rodas conseguiu se credenciar como instrutor autônomo por meio da plataforma do Governo Federal do Brasil em menos de uma hora.

O caso levantou questionamentos importantes: quem está verificando a qualificação desses novos instrutores? Como garantir que os veículos utilizados nas aulas estejam dentro das regras? E, principalmente, como preservar a segurança de quem está aprendendo a dirigir?

Debate chega ao Espírito Santo

No Espírito Santo, a discussão ganhou força entre representantes do setor de formação de condutores. O presidente do Sindicato dos Centros de Formação de Condutores do Espírito Santo (Sindauto-ES), Gabriel Couzi, afirma que a nova norma pode gerar interpretações equivocadas — especialmente sobre o uso de veículos particulares nas aulas.

Segundo ele, embora a regulamentação permita maior flexibilidade para instrutores autônomos, as exigências do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) continuam valendo.

“A nova regulamentação permite o uso de carro particular para aulas e exame prático. No entanto, o artigo 154 do CTB não foi alterado e continua exigindo que veículos de aprendizagem sejam identificados com faixa específica e a inscrição ‘AUTO-ESCOLA’. O que está acontecendo é uma interpretação equivocada de que o carro particular estaria dispensado dessa identificação. Isso não é verdade”, explica Couzi.

Pela legislação, veículos utilizados para ensino devem apresentar identificação específica — faixa amarela quando pertencentes a um Centro de Formação de Condutores e branca removível quando usados eventualmente.

Risco de multa e responsabilização

O problema é que, na prática, muitos candidatos podem não saber dessas exigências. Caso sejam abordados em uma fiscalização, o resultado pode ser uma série de penalidades.

De acordo com o artigo 162 do CTB, conduzir um veículo sem atender às exigências legais pode resultar em multa, retenção do veículo e outras sanções administrativas.

“Não existe uma fiscalização prévia da condição do veículo antes das aulas ou da prova prática. Tudo acaba dependendo de abordagens aleatórias em blitz. O candidato pode ser surpreendido”, alerta Couzi.

O risco vai além de uma multa simples. O Manual Brasileiro de Fiscalização de Trânsito estabelece que um aprendiz conduzindo um veículo não caracterizado como de aprendizagem pode ser autuado por infração gravíssima — mesmo que esteja acompanhado de um instrutor e portando a Licença de Aprendizagem.

Além disso, o artigo 310 do CTB prevê responsabilização penal para quem permite ou entrega a direção de um veículo a pessoa não habilitada.

“Na prática, pode acontecer um efeito cascata: o aluno é multado, o instrutor pode responder criminalmente e o proprietário do veículo também pode ser responsabilizado”, afirma o presidente do sindicato.

Quem fiscaliza os instrutores autônomos?

Outro ponto que gera preocupação no setor é a supervisão dos novos instrutores que atuam de forma independente.

Com a nova regulamentação, a atuação autônoma se torna mais acessível, mas especialistas questionam se há mecanismos suficientes para garantir a qualificação técnica e pedagógica desses profissionais.

“O caso do repórter da Quatro Rodas mostrou que o processo pode ser extremamente rápido. Mas rapidez não pode ser confundida com qualidade ou segurança. Quem garante que esse instrutor está plenamente apto? Quem acompanha o trabalho dele no dia a dia?”, questiona Couzi.

Impactos no sistema de habilitação

No Espírito Santo, onde os Centros de Formação de Condutores passam por fiscalização constante e precisam cumprir uma série de exigências estruturais e pedagógicas, a nova regra também levanta preocupações sobre concorrência desigual no setor.

Para representantes das autoescolas, o risco é que a flexibilização fragilize o sistema de formação de motoristas e gere insegurança jurídica tanto para profissionais quanto para alunos.

“A intenção declarada do governo é reduzir os custos da primeira habilitação, o que é positivo. Mas não podemos transferir toda a responsabilidade para o candidato e enfraquecer os mecanismos de controle. Segurança no trânsito não pode ser tratada como detalhe”, conclui Couzi.

O Sindauto-ES afirma que continuará acompanhando a aplicação da nova regra e defende que haja esclarecimentos oficiais sobre a interpretação da norma, critérios técnicos para instrutores autônomos e formas de fiscalização que garantam segurança no processo de formação de novos condutores.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários
  1. Sou instrutor de trânsito ativo a 20 anos e estou cansado de ver quem não entende do assunto dar palpites e colunista ouvindo só sindicato de autoescola ou proprietário das mesmas. Claro que não são a favor, a mina secou…. Para os bons instrutores isso foi como uma alforria.. pode ser a melhor auto escola, no final quem entrega o resultado é o coitado do instrutor que sempre foi humilhado e nunca valorizado.. sempre ganharam muito dinheiro nas nossas costas e nas dos alunos.. Eu como instrutor achei a melhor coisa que aconteceu, e por quê? Era um monopólio, o candidato a primeira habilitação ou inclusão, era feito de refém do cfc. Quando o aluno reprovava tinha que pagar em média 350 reais
    Pelo aluguel do carro e não podia muda de auto escola sem pagar caro por isso.
    Retirada da baliza tbm foi muito conveniente. O aluno deixava de praticar em torno de 5 aulas na rua pra aprender e praticar a baliza e muitas e muitas vezes eu tive alunos que dirigiam a anos sem habilitação e desistiam de tudo abandonado o carro na baliza depois de vários retestes. Tbm acho que qualquer pessoa pode se formar instrutor mais nem todos podem ser instrutores.. INDICO PROCURAREM UM COM ANOS E EXPERIÊNCIA E COM REFERÊNCIA por que nem todos que tem experiência tem paciência e educação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas