Affonso, 4, acordou cedo para a volta às aulas. Era o fim de um período de dois meses de férias e horários mais flexíveis. Ao ser deixado na escola onde estuda desde 1 ano e 9 meses, nada de choro ou lágrimas. “Foi supertranquilo. Ele não teve nenhuma resistência”, diz a mãe, a advogada Larissa Rezende, 28. Ao contrário de outras crianças, que choravam, Affonso deu tchau sem dramas.
A mudança brusca de rotina pode impactar o bem-estar emocional, físico e mental dos estudantes e dos pais, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, exigindo preparo, escuta e ajustes graduais para que o retorno aos estudos aconteça de forma saudável. “Durante as férias, o corpo e a mente entram em outro ritmo. Horários mais flexíveis, menos cobranças e maior tempo livre fazem parte desse período. Quando a escola retorna, é natural que crianças apresentem sinais de cansaço, irritabilidade ou desmotivação”, afirma Andréa Piloto, diretora da escola.
A cena do primeiro dia de aula de Affonso poderia ter sido outra. Dias antes, quando Larissa avisava que ele teria que voltar à escola, Affonso respondia que não iria. Dizia que queria ficar mais tempo de férias. As conversas diárias com a mãe o deixaram mais preparado para o retorno.
“Eu conversava aos poucos, para não pegá-lo de surpresa. Dizia que a escola é onde ele aprende a ler, a escrever, a ter contato com os amigos, e que é uma obrigação, como o meu trabalho. E ele concordava”, afirma Larissa.
Para ajudar nesse processo, especialistas ouvidos pela reportagem recomendam cinco estratégias simples, mas eficazes, para ajudar as crianças a se adaptarem de uma forma mais tranquila na volta às aulas.
CONVERSE SEM PRESSIONAR (E SEM MENTIR)
Segundo Cristiane Cristo, diretora pedagógica de escola bilingue, um diálogo aberto e acolhedor é fundamental, mas é também um dos pontos de maior dificuldade dos pais.
“Ouça como se fosse a coisa mais importante da sua vida. Esteja no modo presente. Quando o adulto escuta mais do que fala, a criança se sente segura para expressar o que realmente sente”, afirma.
Perguntas simples como “o que você está sentindo em relação ao retorno” ou “o que você está animado para encontrar” ajudam a criança a organizar emoções. “Com os alunos da educação infantil esse diálogo pode ser feito por meio de histórias infantis e o uso de um objeto de transição como porto seguro. Já no ensino fundamental, a empatia é importante para acolher e validar o medo, oferecendo segurança e presença”, diz Bruno Fernandes do Amaral, diretor-pedagógico geral.
Esther Carvalho, diretora de escola, afirma que os pais não devem mentir para crianças durante a adaptação escolar. “É comum os pais dizerem ‘mamãe está ali do lado, chama se precisar’, mas saírem escondidos para o trabalho. Isso não ajuda, só reforça inseguranças”, afirma.
RETOME A ROTINA AOS POUCOS
Uma volta às aulas mais tranquila envolve ajustes graduais na rotina. Horários de sono mais regulares, refeições feitas com calma e dias menos caóticos ajudam o corpo e o emocional da criança a se reorganizarem.
“O corpo precisa entender que um novo ritmo está chegando. Quando a criança dorme melhor, ela lida melhor com frustrações, mudanças e desafios”, afirma Cristo. Luiza Sassi, diretora do Instituto Gay Lussac, afirma que as férias estão cada vez mais cheias de programação, com diversas opções de atividades gratuitas, colônias, acampamentos e espaços coletivos de entretenimento, o que pode tornar o processo de adaptação mais difícil.
“A valorização da rotina precisa ser constante, tanto nas férias quanto no período de aulas. Não dá para abandonar tudo nas férias. Se a ruptura for muito forte, comece antes uma catequização gradual, com diálogo incansável para ambientar, principalmente com os adolescentes”, recomenda.
ENVOLVA NA ROTINA ESCOLAR
Na perspectiva de Amaral, envolver o filho em cada etapa ajuda a tornar o retorno mais leve. E quando se trata das crianças pequenas, uma boa estratégia está na escolha do material escolar. “Engana-se quem pensa que comprar os materiais é uma tarefa exclusiva dos adultos. Envolver os filhos na escolha dos cadernos ou na organização dos uniformes fortalece o senso de responsabilidade”, diz.
Foi o que Larissa fez. Uma semana antes do retorno, ela levou Affonso para buscar os novos materiais na escola. Lá, ele também viu brinquedos novos, melhorias no pátio da escola e encontrou a nova professora. “Tudo isso o deixou mais interessado para voltar”, afirma.
Para Cristo, criar expectativas positivas passa por lembrar a criança de vínculos que a aguardam. “Ela precisa sentir que existe continuidade entre casa e escola”, diz.
ESTEJA EMOCIONALMENTE DISPONÍVEL
Do ponto de vista psicológico, sentimentos como ansiedade, insegurança e resistência são comuns, especialmente nas primeiras semanas. “Algumas crianças demonstram isso com choro ou dificuldade de separação, enquanto outras ficam mais quietas, dispersas ou até mais agressivas”, diz Piloto. Além disso, ir bem no primeiro ou no segundo dia não garante tranquilidade nos seguintes. As novidades da escola animam no começo, mas logo pode surgir a percepção da separação real da família e do fim das férias.
“O importante é que os pais criem uma atitude positiva, apesar do medo, da angústia e da insegurança. Como você fortalece seu filho para que ele fique bem? Quanto mais seguro os pais estiverem e transparecerem isso aos filhos, melhor”, afirma Carvalho, do Colégio Rio Branco.
Segundo Cristo, muitos pais têm dificuldade de estarem emocionalmente disponíveis, porque confundem presença com programação. “Disponibilidade emocional é desacelerar, observar mudanças de humor, aceitar silêncios e acolher inseguranças sem pressa de consertar. Em uma rotina adulta acelerada, esse tipo de presença exige intenção e consciência.”
FIQUE ATENTO ÀS RECLAMAÇÕES
Ao mesmo tempo, é importante ter atenção aos sinais prolongados de uma dificuldade de adpatação, como irritabilidade excessiva, choro persistente, voltar a fazer xixi na cama, dificuldades para dormir, diminuição do apetite, queixas físicas e recusa em ir à escola.
“Pode ser o momento de buscar uma intervenção pedagógica ou diálogo mais profundo com a coordenação da escola”, diz Amaral.
Segundo Sassi, os pais nunca devem minimizar nem supervalorizar queixas. Nesses casos, é importante usar o bom senso e o diálogo para avaliar se é isolado ou recorrente, especialmente se a criança não costuma reclamar.
“A resposta imediata não é corrigir, é acolher. Nomear sentimentos ajuda muito. Dizer ‘percebo que você está mais sensível’ ou ‘parece que algo está difícil’ abre espaço para diálogo”, afirma Cristo.











