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Afinal, há semelhanças entre situação em Gaza e o Holocausto?

A analogia do presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, durante participação na Cúpula da União Africana no último final de semana, gerou grande debate mundial por comparar a atual situação na Faixa de Gaza ao Holocausto. Especialistas destacam o motivo por trás das críticas.

“O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu. Quando Hitler resolveu matar os judeus”, afirmou Lula.

Para o mestre em História Social das Relações Políticas, Abner Wotkosky, a leitura expressa pelo presidente Lula, quer seja da classificação dos israelenses em Gaza como genocídio, quer seja do ponto de vista da comparação com o genocídio perpetrado pelos nazifascistas, não é uma leitura isolada e nem é recente. “Em 1948, numa carta publicada no jornal The New York Times e assinada por importantes intelectuais como Hannah Arendt e Albert Einstein, grupos de judeus denunciavam as ações violentas cometidas no território palestino por agentes do recém criado Estado de Israel”, comentou.

O termo genocídio, conforme exemplifica o doutorando, professor e mestre em história, Guilherme Gouvêa, foi cunhado durante a Segunda Guerra para fazer referência à destruição dos judeus pelos nazistas. “Logo, a tentativa de destruição física de um povo configura um genocídio, como se pode ver nas imagens de televisão dos ataques à população civil nos territórios palestinos”, explicou Gouvêa.

Portanto, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Shoah – termo usado pelos judeus para se referir ao Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial – passa a ser um conceito utilizado para comparar o entendimento do que é um genocídio. “O genocídio é utilizado para se referir a eventos anteriores e posteriores à própria Shoah, como por exemplo, o genocídio dos povos originários nas Américas desde o século XV, o genocídio Armênio no inicio do Século XX, e mais recentemente o Genocídio em Ruanda, em 1994, e o ocorrido durante a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995”, exemplifica Abner Wotkosky.

Conforme elucida Wotkosky, até hoje existem opiniões divididas dentro da comunidade judaica acerca desses assuntos. “Com exceção do próprio governo israelense, na figura do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que declarou Lula  Persona Non Grata, até o presente momento não ocorreu nenhuma manifestação de crítica ou oposição da parte de outras autoridades internacionais”, ressaltou.

Toda essa situação indica, na visão dos especialistas, que em um primeiro momento não há grande revés para o governo Lula do ponto de vista diplomático. “Especialistas apontam que, do ponto de vista político, a fala de Lula não se deu por acaso. Estando às vésperas do que pode ser a maior operação militar israelense em Gaza no atual contexto, com uma ofensiva na cidade de Rafah, a declaração do presidente pode ser identificada como um chamado de posicionamento quanto à necessidade do cessar fogo, levando em conta inclusive a posição do Brasil enquanto importante voz dos países do sul Global”, afirma Wotkosky.

No entendimento de Guilherme Gouvêa, o papel que o governo Lula busca assumir guarda semelhança com o que foi feito nos mandatos exercidos anteriormente pelo presidente, isto é, colocar o Brasil como um “player” global sem alinhamento automático às grandes potências. “Ao contrário do que foi aventado, não vejo que a fala do Lula foi de improviso. Tanto que o embaixador foi chamado de volta e o governo não sinalizou recuo e não houve uma resposta de outros países além, obviamente, do presidente e do primeiro ministro de Israel. A diplomacia dos governos petistas é marcada por pragmatismo”, relembrou.

Abner Wotkosky explica que “persona non grata” é um termo em latim utilizado para indicar que um indivíduo não é bem-vindo em determinado lugar. “No caso em questão significa um instrumento jurídico que indica a perda de status diplomático de um determinado representante estrangeiro”.

Sem comparações?

Nesse sentido, o mestre elucida que o debate dentro das Ciências Humanas não aponta para uma interdição desse comparativo entre a Shoah e outros genocídios. “Sim, a Shoah é um evento único, assim como todo evento histórico, mas não é um evento incomparável, sobretudo porque é a partir das comparações que é possível definir o que são os crimes contra a humanidade e de que modo os organismos nacionais e internacionais podem definir o direcionamento de suas políticas de direitos humanos”.

“Não há fatos históricos incomparáveis”, afirma Guilherme Gouvêa, doutorando em história.

Segundo o mestre em história, a destruição de judeus durante a Segunda Guerra Mundial é fruto de ação de um regime político, cujos líderes conquistaram o Estado alemão e mobilizaram apoio social. “Não há nada de incomparável nisso. Tentativas de limpeza étnica e destruição física e cultural não eram inéditas. O que foi chocante na ação dos nazistas foi a construção de uma máquina de matar gente nos campos de concentração e extermínio”, disse Guilherme Gouvêa.

O professor reconhece que a estrutura estabelecida pelo nazismo para realizar o holocausto é, de fato inédita. “Mas de resto, é preciso entender o que ocorreu durante a Segunda Guerra sem banalizar ou sacralizar o termo, já que ele perde a capacidade explicativa em ambos os casos”, completou.

Em Israel e na Faixa de Gaza, atualmente, há a mobilização da máquina do Estado para o controle de um território, recorrendo ao extermínio físico e à limitação a direitos. “Tal qual na Segunda Guerra Mundial. Desta forma, o paralelo é possível, pois há semelhanças entre os processos históricos e os objetivos. Os ataques a hospitais, áreas residenciais, invasão de territórios, tentativas de realizar migração forçada para a Península do Sinai, tudo isso são ações voltadas à destruição de um povo”, destaca Gouvêa.

Termo sacralizado

Tal como a banalização, a “sacralização” de um fato é também problemática, conforme elucida Guilherme Gouvêa. “Pois não permite que compreendamos os processos históricos a partir da sua construção e, assim, entender como foi possível que as pessoas apoiassem tais fatos”.

Por isso, o especialista destaca que é importante pensar nos processos e não cair em uma ideia de diferenciá-los de forma qualitativa. “Se partir desse ponto, como alguns críticos à fala do Lula colocaram, é feita uma hierarquia das vidas destruídas”, comenta Gouvêa.

Abner Wotkosky explica que o atual debate levantado pela declaração do presidente Lula gira em torno do quão correta seria a comparação entre a atual situação na Faixa de Gaza e a Shoah. “No meu entendimento, o ponto importante é que muitas posições têm imputado na fala do presidente o rompimento de um tabu que tornaria a Shoah um evento único e incomparável”.

Por isso, o mestre destaca que a verdadeira questão em debate não é se Lula está ou não correto. “Mas sim se esse tabu é ou não real. Do ponto de vista acadêmico, diria que não é real. O próprio termo genocídio, cunhado pelo jurista Raphael Lemkin, no final dos anos 1940, existe em função da Shoah, e é constantemente utilizado para explicar uma determinada classe de eventos criminosos que tem como objetivo o extermínio físico e cultural de uma determinada população”, elucida o especialista.

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