No dia 26 de fevereiro, o calendário católico lembra o chamado Dia de Santo Alexandre. Como temos feito em outras ocasiões, aproveitamos a data não para abraçar toda a tradição posterior, mas para olhar para a história e reter aquilo que está de acordo com o Evangelho.
E antes de falar de Alexandre, precisamos responder uma pergunta simples — e profunda:
Quem é Jesus, afinal?
Pode parecer óbvio. Mas a forma como respondemos essa pergunta define tudo.
Se Jesus for apenas um grande mestre moral, Ele pode inspirar. Se for apenas um profeta, pode orientar. Mas só se Ele for verdadeiramente Deus pode salvar.
É exatamente nesse ponto que entra a importância de Alexandre de Alexandria.
Quem foi Alexandre?
Alexandre foi bispo da cidade de Alexandria, no Egito, no início do século IV. Naquele tempo, Alexandria era um dos centros mais importantes do pensamento cristão.
Ele viveu em um momento delicado da história da Igreja. O cristianismo havia deixado de ser perseguido pelo Império Romano e começava a se organizar publicamente. Mas junto com essa liberdade surgiram debates sérios sobre quem Jesus realmente era.
E um desses debates ameaçou o coração da fé cristã.
O que ensinava Ário — e por que isso era perigoso?
Um presbítero de Alexandria chamado Ário começou a ensinar que Jesus não era eterno. Segundo ele:
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O Filho foi criado por Deus;
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Houve um tempo em que o Filho não existia;
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Ele era a primeira e maior das criaturas;
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Mas não era Deus da mesma forma que o Pai.
À primeira vista, pode parecer uma diferença pequena. Mas não é.
Se Jesus foi criado, então Ele não é Deus pleno. Se Ele não é Deus pleno, então Seu sacrifício na cruz não tem valor infinito. Se Seu sacrifício não tem valor infinito, ele não pode pagar plenamente pelos pecados da humanidade. E se ele não pode pagar plenamente pelos pecados da humanidade, então continuamos todos condenados a uma eternidade sem Deus.
Percebe como isso atinge diretamente o Evangelho? Não era uma mera discussão técnica. Era sobre salvação.

A postura firme de Alexandre
Quando percebeu o que estava sendo ensinado, Alexandre não ignorou o problema. Ele convocou um concílio local e condenou formalmente o ensino de Ário por volta do ano 318. Ele escreveu cartas a outros líderes cristãos explicando o perigo daquela doutrina. Ele deixou claro que, se Cristo não fosse plenamente Deus, a fé cristã seria esvaziada.
Anos depois, a controvérsia cresceu tanto que foi necessário reunir bispos de várias regiões do Império no famoso Concílio de Niceia, em 325. Ali, a Igreja precisou afirmar com clareza o que sempre esteve nas Escrituras: Jesus não é semelhante a Deus — Ele é Deus.
E aqui há um detalhe importante: Alexandre foi mentor de um jovem diácono chamado Atanásio de Alexandria. Atanásio se tornaria, nos anos seguintes, o principal defensor da divindade de Cristo. Mas foi Alexandre quem o formou, quem o discipulou, quem o preparou para essa batalha.
Isso nos ensina algo precioso: defender a verdade hoje também significa preparar quem a defenderá amanhã.
O que significa “da mesma substância”?
No Concílio de Niceia foi usada uma palavra importante: homoousios. Ela significa “da mesma substância” (consubstancial) ou “da mesma natureza”.
Isso quer dizer que o Filho não é parecido com Deus. Ele não é inferior. Ele não é uma cópia. Ele compartilha da mesma essência divina. Ele é Deus.
A Bíblia sustenta isso claramente.
João 1:1 diz:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”
O texto não diz que o Verbo era “parecido” com Deus. Diz que era Deus.
Colossenses 1:16-17 afirma:
“Pois nele foram criadas todas as coisas… tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas”
Se todas as coisas foram criadas por meio dEle, Ele não pode ser parte da criação.
Hebreus 1:3 declara:
“Ele é o resplendor da glória de deus e a expressão exata do seu Ser…”
Jesus não reflete Deus como um espelho reflete alguém. Ele expressa perfeitamente o próprio ser divino.
Sem essa verdade, esses textos perdem a força. E o Evangelho perde o fundamento.

Por que Alexandre é relevante hoje?
Porque o erro que ele combateu não desapareceu. Sempre que alguém diz que Jesus é apenas:
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Um grande líder espiritual
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Um mestre iluminado
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Um exemplo de amor
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Um ser criado superior
O velho arianismo reaparece, ainda que com outro nome.
Alexandre nos lembra que não podemos reduzir Cristo. A fé cristã não é apenas sobre seguir ensinamentos. É sobre confiar em uma Pessoa que é plenamente Deus e plenamente homem.
O que aprendemos à luz do Evangelho
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Doutrina importa.
Não é frieza teológica. É proteção espiritual. Defender quem Cristo é não é rigidez. É amor. Se pregarmos um Cristo menor, oferecemos uma salvação menor. -
A verdade precisa ser defendida com coragem.
Alexandre não foi agressivo, mas foi firme. Alexandre não se omitiu. Ele agiu. A liderança espiritual exige coragem. -
Unidade sem verdade não é unidade real.
A Igreja não pode sacrificar a verdade para manter uma paz superficial. - Precisamos formar a próxima geração.
Alexandre formou Atanásio. Não basta defender a fé hoje. É preciso preparar quem a defenderá amanhã. -
Cristo é o centro.
A tradição reformada resume isso na expressão “Somente Cristo”. Mas precisamos perguntar: que Cristo? O Cristo das Escrituras. Eterno. Não criado. Da mesma natureza do Pai. Deus verdadeiro que se fez homem para salvar pecadores.
Uma reflexão final
O Dia de Santo Alexandre nos convida a olhar para trás e lembrar que na história da Igreja houve homens que, em momentos decisivos, protegeram o coração do Evangelho. E por isso, mesmo séculos depois, podemos aprender com eles, como é o caso de Alexandre.
Que esse dia nos lembre que o Evangelho não começa com nossos sentimentos — começa com quem Cristo é.
Se Cristo não é Deus, então nossa fé é frágil. Mas, se Ele é verdadeiramente Deus encarnado – e Ele é! – então nossa fé não repousa em uma criatura exaltada, mas no próprio Senhor do universo, no Rei da Glória. E a nossa salvação é segura.
Alexandre entendeu isso. E essa verdade continua sendo o alicerce da Igreja até hoje.
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Onde falta teoria sobra autoridade! “As Origens do Totalitarismo” (1951), de Hannah Arendt, analisa o nazismo e o stalinismo como formas inéditas de dominação no século XX, não baseadas apenas no autoritarismo, mas na anulação total da individualidade. A obra argumenta que o totalitarismo transforma pessoas em “seres supérfluos” através do terror contínuo, da ideologia e da solidão massiva. Submissão a um macho alfa houve e há para os antecessores dos humanos. Ter Jesus como Deus é eliminar seu trabalho incomensurável como humano. Triste as muletas psicológicsa da religião.
Excepcional!!!! Parabéns Gustavo Gouvêa.