Neste dia 13 de maio, quando o Brasil celebra 137 anos de Abolição da Escravatura (após promulgação da Lei Áurea no ano de 1888), decidimos refletir sobre a relação entre o cristianismo e a escravidão: uma relação, ao mesmo tempo, trágica e redentora.
Quando observamos a história, especialmente entre os séculos XV e XIX, é impossível ignorar o papel que muitos cristãos e instituições cristãs desempenharam no sistema escravocrata, especialmente no tráfico transatlântico de africanos. No entanto, também é inegável que o próprio cristianismo lançou as sementes que, mais tarde, destruiriam moral e socialmente esse sistema.
Historiadores como David Brion Davis e John Thornton abordam como a religião foi usada para racionalizar a exploração, e até embasar as motivações econômica e política.
Durante o auge da escravidão moderna, muitas potências coloniais europeias — oficialmente cristãs — participaram ativamente do comércio de seres humanos. Papas como Nicolau V emitiram bulas (como a Dum Diversas, em 1452, e a Romanus Pontifex, em 1455) autorizando reis portugueses a subjugar “sarracenos, pagãos e outros infiéis” (sarracenos era uma das formas usadas por cristãos da Idade Média para se referir a povos árabes e muçulmanos).
Além disso, passagens bíblicas como Efésios 6:5 (“Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo”) foram distorcidas para justificar a opressão. Muitos afirmavam que escravizar africanos era uma forma de evangelização, de “salvar almas” africanas, ao convertê-las ao cristianismo. Ainda que isso fosse frontalmente oposto à dignidade e a liberdade que o Evangelho oferece a todo o ser humano.
Esses documentos e justificativas acabaram servindo de base moral para a expansão do tráfico de escravizados africanos.
Porém, graças a Deus, esse não é o fim da história.
A mesma fé cristã que foi usada, em muitos casos, para justificar a escravidão também foi a base de sua condenação. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, muitos dos líderes do movimento abolicionista eram profundamente comprometidos com o Evangelho. Nomes como William Wilberforce, principal voz política do Movimento Abolicionista no Reino Unido, e os quakers, que condenaram a escravidão desde cedo nos Estados Unidos e na Inglaterra, foram fundamentais na luta pela abolição, movidos pela convicção de que “todos os seres humanos são criados à imagem de Deus (Gênesis 1:27)” e são igualmente dignos diante d’Ele.
O historiador David Brion Davis destaca que, embora a escravidão tenha sido naturalizada por muito tempo, a “ideia cristã de um Deus universal e justo” foi essencial para sua desconstrução a partir do século XVIII.
O cristianismo, portanto, foi tanto um cúmplice, quanto, posteriormente, o remédio para a escravidão moderna.

Escravidão incompatível com o Evangelho
Entre os teólogos contemporâneos, há consenso de que a “escravidão moderna é completamente incompatível com os princípios bíblicos do Evangelho”.
Antes de apresentar o que esses teólogos dizem sobre a escravidão, é essencial entender a diferença entre a escravidão nos tempos bíblicos — especialmente no Império Romano — e a escravidão moderna do tráfico transatlântico de escravos. No mundo greco-romano, a escravidão era amplamente baseada em guerras, dívidas ou penalidades legais, e não em raça. Escravos podiam exercer profissões, adquirir liberdade e, em alguns casos, ascender socialmente.
Já a escravidão moderna, praticada entre os séculos XV e XIX, era fundamentada no racismo, sequestro, violência sistêmica e desumanização total do indivíduo, negando-lhe qualquer possibilidade de dignidade. Essa distinção é crucial para compreender os textos bíblicos que tratam da escravidão no contexto antigo sem cair no erro de usar as Escrituras para justificar injustiças históricas posteriores, como o tráfico transatlântico de escravos.
John Stott, por exemplo, destaca que os apóstolos jamais endossam a escravidão, mas transformam seu espírito, colocando senhores e servos daquela sociedade sob a mesma autoridade, a autoridade de Cristo. Em sua leitura de Efésios, ele mostra que o Evangelho cria uma nova base relacional entre os homens — de irmãos e não de senhores e servos. Stott insiste que o Evangelho mina as bases da escravidão porque ensina a igualdade essencial entre todos os seres humanos diante de Deus (Gálatas 3:28).
Tim Keller reforça que, mesmo que a Bíblia contenha regulamentações para contextos históricos de escravidão, a narrativa bíblica caminha rumo à liberdade e dignidade humana. Para ele, a ética do Reino de Deus, baseada em justiça e misericórdia, mina as fundações de qualquer forma de opressão humana. Inclusive, ele argumenta que os princípios cristãos desmontaram o sistema escravista de dentro para fora, especialmente nas sociedades onde o Evangelho se espalhou.
O teólogo Kevin DeYoung, por sua vez, lembra que a escravidão transatlântica violava claramente a lei de Deus. Sequestro, violência, brutalidade racial — todos esses elementos eram e são condenados pelas Escrituras. Ele observa que, embora a Bíblia tenha reconhecido a escravidão como uma realidade social nos tempos antigos, nunca a estabeleceu como um ideal moral. Segundo o teólogo, o foco dos apóstolos não foi reformar sistemas sociais pela força, mas transformar corações e relações dentro desses sistemas. Ele insiste que a ética cristã aponta claramente para a libertação e dignidade de todos os seres humanos.

Esses teólogos, portanto reconhecem que a Bíblia reconhece a escravidão antiga, mas não a institui nem tampouco a apoia. Eles reconhecem que o Evangelho rejeita completamente a escravidão moderna, baseada em racismo e violência. Eles mostram que a igreja errou gravemente ao usar bulas e textos sagrados para justificar o tráfico e a opressão, e que é necessário arrependimento histórico e teológico. E eles afirmam que o Evangelho mina as bases da escravidão, pregando a igualdade em Cristo a todas as criaturas.
Escravidão, portanto, nunca mais, em nome de Jesus!
O Evangelho: a resposta final
Num sentido mais profundo, a resposta cristã à escravidão — passada ou presente — não está apenas em ações sociais ou reformas políticas – que são extremamente importantes e necessárias. Ela está, antes de tudo, na obra redentora de Jesus Cristo.
A cruz do Calvário é o lugar onde toda injustiça humana foi confrontada com a justiça divina. Cristo morreu pelos nossos pecados, e também para reconciliar todas as coisas (Colossenses 1:20), inclusive as relações entre seres humanos, até mesmo entre opressores ou oprimidos. Jesus se fez servo – palavra que no original grego significa literalmente “escravo” (Filipenses 2:7) – para nos libertar da maior escravidão: a escravidão da alma ao pecado e a escravidão da morte, promovendo libertação do pecado e vida eterna.
Na ressurreição, Jesus Cristo inaugura uma nova humanidade, onde, conforme podemos ler em Gálatas 3.28, “não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher”, pois todos são um em Cristo Jesus”. Essa é a verdadeira libertação: a que vem da fé em Cristo e transforma o coração, a cultura e a história, sempre de dentro para fora. É a revolução que vem do interior.
Portanto, se o cristianismo histórico foi ambíguo em sua relação com a escravidão, o Evangelho – que é a boa notícia da salvação e libertação em Cristo Jesus – não é. Ele é radicalmente libertador. E essa liberdade está disponível a todo aquele que crê. Porque “se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36).










