No Sermão do Monte, Jesus ensina as bases do caráter cristão, a necessidade deste resplandecer a luz no mundo, a compreensão de questões éticas relevantes, a prática da oração e do jejum, o cuidado em não se tornar escravo das riquezas e a importância de colocar o coração em Deus.
Mas também ensina sobre o cuidado com a ansiedade na vida e a confiança no Senhor, a cautela no julgamento e as variáveis que existem na vida[1].
Tudo isso está escrito no Evangelho de Mateus, capítulos 5 a 7, e seus correlatos nos outros Evangelhos.
Em Mateus 6.25-34 o texto trata da inutilidade de andar preocupado com as coisas e de ser ansioso. Com isso, discorre sobre a importância de confiar em Deus e a buscar o Seu reino e a Sua justiça enquanto vivemos.
Mas o que isso quer dizer? O que é ansiedade? O que significa Reino de Deus? E o que é buscar a Sua justiça?
A ansiedade no mundo
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 33% da população mundial e 40% dos brasileiros sofre este mal que tem como alguns sintomas: medo, inquietação, irritabilidade, taquicardia, falta de ar e aumento de pressão[2]. Pode até parecer um número pequeno, mas já é considerado um dos males do século.
Quantos são ansiosos ou conhecem alguém assim?
Jesus disse: “Não se preocupem com a sua vida, quanto ao que irão comer ou beber; nem com o corpo, quanto ao que irão vestir” (Mateus 6.25). A palavra grega utilizada para ‘preocupar’ significa: “estar ansioso; estar preocupado com cuidados; estar alerta com (algo)”[3].
Nos versículos 19 a 24 deste mesmo capítulo, Cristo ensinou aos seus discípulos para acumularem riquezas nos céus e não aqui na terra, porque o dinheiro pode se tornar um deus e não é possível servir a dois senhores “porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro” (v.24).
Aqueles que correm atrás de riqueza vivem preocupados com as formas para ser milionário e não conseguem investir na vida espiritual. Por isso, o Mestre começa a conclusão desta parte do sermão com a recomendação para os seus alunos não se preocuparem com suas próprias vidas. Pelo contrário, deveriam sossegar, sentirem-se seguros com o próprio futuro porque Deus estaria cuidando deles.
João Marcos Bezerra é pastor da Igreja Batista Jardim, na Serra-ES (Foto: divulgação)
“Os argumentos de Jesus contra a ansiedade desenvolvem-se em torno da falta de necessidade deste sentimento (ansiedade) e da total inutilidade dele”[4]. Primeiro, porque, mais importante que a comida, bebida e vestimenta, é a vida e o corpo. Não adianta nada cuidar do “ter” sem cuidar de si mesmo. Segundo, ninguém conseguirá acrescentar à sua vida 1h pelo menos. Outra coisa, Deus tem muito mais valor pelos Seus filhos do que pelas aves e plantas. Se Ele alimenta os pássaros e veste os lírios, por que não alimentará e vestirá aqueles que confiam Nele?
Um sentimento de quem não adora o Deus verdadeiro
Os versos 31 e 32, ainda do capítulo 6 de Mateus, trazem uma exortação mais dura: os discípulos de Jesus não devem se preocupar com o que comer, beber ou vestir porque esta ansiedade é um sentimento de quem não adora o Deus verdadeiro. Pelo contrário, os filhos de Deus devem ter a certeza de que o Pai sabe do que precisam e devem confiar.
Todavia, isto não é justificativa para a ociosidade.
Ao observar os próprios pássaros percebemos que eles procuram o alimento e os lírios trabalham para serem belos. O que eles não fazem é viverem preocupados com estes cuidados. É uma ação natural na vida deles.
Da mesma forma, os cristãos devem trabalhar em prol do seu sustento como uma ação natural na certeza de que o Senhor é quem fornece o sustento e não o próprio esforço.
Daí, vem uma pergunta interessante: quem são estes que podem confiar na provisão divina? Aqueles que buscam como algo principal em suas vidas o Reino de Deus e a sua justiça (v.33). Mas o que significa buscar isto?
O que é “buscar o Reino de Deus e a sua Justiça”?
Buscar o Reino de Deus é reprogramar a nossa agenda, é mudar nossos roteiros, é colocar todas as nossas energias naquilo que tem valor espiritual e eterno.
É estar 24 horas consciente de que tudo o que se faz, fala ou pensa deve ter como objetivo primeiro honrar e santificar o nome de Deus, contribuir para o estabelecimento gradual da autoridade do Senhor na vida da comunidade cristã e do mundo, e tornar a realização da vontade de Deus uma realidade perceptível em todos os lugares.[5]
Ou seja, buscar o Reino de Deus é abrir mão do cuidado das ambições da vida e da busca pela riqueza e ter como prioridade fazer a vontade do Senhor. Além disso, buscar a justiça divina é perceber as necessidades do próximo e tentar atendê-las.
A Igreja do Senhor deve procurar atender, também, as carências materiais das pessoas, mas sem deixar de ensinar a Palavra que traz salvação (foto: Freepik)
A principal necessidade do ser humano é a vida eterna em Cristo Jesus. Todavia, as pessoas não têm somente necessidades espirituais. Existem carências materiais também. A Igreja do Senhor deve procurar atender a estas, mas sem deixar de ensinar a Palavra que traz salvação.
Enquanto dá o pão, a moradia, a autoconfiança e a estabilidade emocional, a igreja deve ministrar a mensagem que transforma. Enquanto o cristão se envolve com ações humanitárias e política efetiva, deve pregar os princípios e valores do Reino de Deus.
Ao se preocupar somente com a necessidade material, os cristãos se tornam assistencialistas. Por isso, é essencial que os alimentos, material e espiritual, sejam fornecidos juntos para que haja transformação social de verdade.
Com isso, é possível concluir que:
É desnecessário e inútil ser ansioso, pois não acrescenta nada na vida e só traz aflição;
Estar preocupado com o futuro é uma atitude de quem não deposita sua confiança e não adora a Deus da forma correta;
Buscar o Reino de Deus é viver a vontade Dele em todas as esferas da vida;
Tornar prática a justiça do Senhor é suprir a necessidade espiritual e material do próximo.
Então, “busquem em primeiro lugar, o reino de Deus e a Sua justiça e todas estas coisas (comer, beber e vestir) serão acrescentadas” (Mateus 6.33). Deus abençoe!
[1]O cristão e a plenitude do Reino. Revista Atitude, ano CXI, nº 443, Rio de Janeiro: Convicção Editora, 2017, p.49. [2] CLAVERY, Elisa. Ansiedade atinge quatro em dez brasileiros; entenda a ‘doença do século’. Disponível no site: https://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/ansiedade-atinge-quatro-em-dez-brasileiros-entenda-doenca-do-seculo-19442459.html. Visualizado em 28/07/2017. [3] Bíblia Strong, português, hebraico e grego. Aplicativo para celular. [4]O cristão e a plenitude do Reino. Revista Atitude, ano CXI, nº 443, Rio de Janeiro: Convicção Editora, 2017, p.45. [5] Idem, p.49.