Dólar Em alta
4,928
21 de fevereiro de 2024
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Vitória
23ºC

Dólar Em alta
4,928

Treinadores negros: Capixabão 2024 tem cenário diferente do futebol brasileiro

Diferentemente do cenário encontrado na maior parte dos campeonatos pelo Brasil, em que técnicos brancos prevalecem, segundo a mídia especializada, um fato histórico chama atenção no Capixabão 2024: 60% dos técnicos das equipes eram da raça negra no início da competição, ou seja, a maioria.

Isso num país que nunca mandou um treinador negro dirigir a Seleção Brasileira de Futebol numa Copa do Mundo. Aliás, o único treinador brasileiro negro a participar de uma Copa, em todos os tempos, foi o ex-jogador Didi, que dirigiu a Seleção do Peru, em 1970, no México.
Outro dado: a Série A do Brasileirão do ano passado terminou sem que nenhum dos 20 clubes disputantes tivessem negros no comando, na última rodada, e durante a competição, somente quatro treinadores da raça passaram pelos clubes. Apenas coincidência ou racismo estrutural, num país de maioria negra em sua população?

 

O ESHOJE ouviu a opinião de vários treinadores do Capixabão 2024:

1) Rodrigo César – treinador do Rio Branco
Treinadores negros: Capixabão 2024 tem cenário diferente do futebol brasileiro
Foto: Rafael Gomes
“O que importa é o trabalho e o resultado que o profissional entrega. É o que vale na hora de ser contratado por algum clube. Pessoalmente, eu nunca me senti preterido pela cor, mas por ser bi-campeão da Copa ES fui procurado por diversos clubes para a temporada 2024”
2)Cássio Barros – ex-treinador do Vitória
Treinadores negros: Capixabão 2024 tem cenário diferente do futebol brasileiro
Foto: Henrique Mantovanelli
“Eu nunca vivi essa questão do preconceito, do racismo, pelo fato de ser da cor negra. Em todos os ambientes em que eu trabalhei, eu sempre fui muito bem tratado, nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Nem como jogador, nem como treinador. O único fato da minha carreira que aconteceu foi quando eu jogava na Alemanha, que lá na parte da Alemanha de Berlim, que é uma parte mais racista, que quando eu pegava na bola eles emitiam um som de macaco. Mas nada também que pudesse me desestabilizar, mas dentro do meu poder. Graças a Deus, eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito, não.
Essa porcentagem no Capixabão, não é comum dentro do nosso país, mas também não é uma coisa que a gente possa ter como uma coisa anormal, porque a capacidade não está na cor do ser humano. Então, a oportunidade tem que ser dada a todos com igualdade, nós lutamos para isso, mas sabemos da dificuldade que é para, não só para o treinador, que em todas as áreas, todos os segmentos ainda tem esse preconceito. Nós vivemos isso no mundo, não só no nosso país, mas é uma coisa que tem que ser quebrada e nós temos que tratar o ser humano pela capacidade, não pela raça da pessoa”.
3)Ney Barreto – técnico do Serra
Treinadores negros: Capixabão 2024 tem cenário diferente do futebol brasileiro
Foto: Kamilla Barcelos

“Venho falando disso desde o meu primeiro ano como treinador de uma equipe profissional. Aqui no Estado, não é a primeira vez que isso acontece. Se não me engano, em 2022, também tinha um número expressivo de treinadores negros. Na minha opinião, isso é um caminho natural, num país onde a maioria da população é negra, o estranho é quando essa proporção é diferente. O problema é que se subirmos para divisões nacionais, principalmente série A e B, esse panorama muda drasticamente. Se somarmos as divisões A e B nacional dos 40 clubes, se forem 10% é muito. Então, temos muito a caminhar ainda. Já me senti discriminado, sim, e já sofri preconceito também. Infelizmente, ainda é uma questão cultural. Falamos dos estrangeiros, mas temos muito racismo aqui no Brasil. Porém, não devemos usar isso como muletas, temos que continuar trabalhando duro, nos qualificando, para cada vez mais alcançarmos nossos espaços”.

4) Emerson Nunes – técnico da Desportiva
Treinadores negros: Capixabão 2024 tem cenário diferente do futebol brasileiro
Foto: Bruno Lino

“Este é um assunto muito complexo, pois trata-se das estruturas de liderança no país. Infelizmente, diante da cultura de subserviência do negro no Brasil, também traspassa diretamente o futebol. Somos um país de maioria negra/parda, mas que estas pessoas não ocupam cargos intelectuais ou de liderança, e também somos um país que tem grandes figuras negras no esporte e como jogadores, mas os próprios acabam não tendo incentivos e oportunidades de continuarem suas carreiras como treinadores. O Capixabão é um exceção no cenário atual do país, e deveria servir de exemplo de oportunidades. Mostra que há progresso em direção à diversidade e igualdade de oportunidades no esporte.

A verdade que ser um homem negro é se sentir preterido no mundo, não são poucos os exemplos que vivi de racismos escancarados ou velados na minha trajetória de vida, no esporte não seria diferente, “A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar” (Martin Luther King).

Atrás da pele negra, existe conhecimento, e, de certa forma, lutamos para que as pessoas enxerguem isso há muito tempo. Vivi um certo tipo de estranhamento por pessoas em alguns clubes que passei, por notarem que sou um homem negro, que estuda e busco um conhecimento em várias áreas da minha carreira. Citando mais uma vez: MLK, “Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito.”

 

Então para alegria de muitos e tristeza de tantos, eu continuarei lutando nesta carreira, seguindo passos dos treinadores que vieram antes de mim, e sendo exemplo para futuros treinadores que ainda virão”.

5) Duzinho – técnico do Real Noroeste
Treinadores negros: Capixabão 2024 tem cenário diferente do futebol brasileiro
Foto: Real Noroeste
“São dados que levam a gente à reflexão, porque ainda, no século 21, esse tipo de coisa consegue acontecer. Eu acho que, independente da cor, tem que prevalecer a competência dos indivíduos. Nesse caso, os treinadores, eu acho que é de fundamental importância esse tipo de abordagem, para que possa conscientizar a nossa população que esse tipo de preconceito tem que acabar. Não pode existir para que as novas gerações que estão por vir, não se deparem com esse tipo de situação. Eu, graças a Deus, não tive sofrimento ou um tipo de preconceito, por conta da minha cor. Mas eu sonho com dias melhores, onde a igualdade e oportunidade prevaleçam para todos. Que possa ter um futuro melhor, não só na área de treinadores, mas, enfim, em todo segmento da sociedade”.
Texto de Jorge Buery*

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas