Nesta quarta-feira (19) é comemorado o Dia Nacional do Futebol, uma data de extrema importância para celebrar a história do esporte mais famoso do mundo. ESHoje conta a história do futebol capixaba, desde a época da criação dos primeiros clubes, passando pela época de ouro, até os dias atuais.
Em primeira análise é importante compreender o contexto histórico em que se encontrava o estado do Espírito Santo no início do século XX. Durante essa época, a principal atividade econômica era o café, que era plantado em quase todas as cidades do Estado, o que ajudou a desenvolver ainda mais a economia, a sociedade e a cultura capixaba.
A exportação de café estava sendo tão lucrativa que, em 1906, deu-se início a construção da Companhia Porto de Vitória, porém, entre interrupções e retornos, a obra só foi inaugurada em 1940. A ampliação da malha ferroviária também foi uma preocupação do governador Florentino Avidos, com o objetivo de integrar ainda mais a população capixaba.
É no contexto de desenvolvimento urbano que “nasce” o futebol capixaba, que já era praticado por diversos grupos sociais, mas ainda sem criações de clubes e campeonatos. Segundo José Luiz dos Anjos, professor do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal de Vitória (UFES), a origem do futebol capixaba se difere das de alguns clubes brasileiros enquanto se aproxima de outros, pois, no Espírito Santo, cada clube teve uma origem específica.
“Fazendo um paralelo com o futebol paulista, vemos que existiram dois tipos de origem. A primeira com clubes sendo criados por jovens das classes mais abastadas da sociedade, que estudavam nos grandes centros urbanos e trouxeram as regras e o gosto por jogar futebol. Assim foi no Espírito Santo, com o Futebol Clube Vitória, e também em várias cidades do interior de São Paulo. O outro tipo de origem eram os clubes sendo criados pelas classes marginalizadas da sociedade, como os trabalhadores”, comenta José Luiz.
O professor relata ainda que, na época, quem praticava o futebol eram somente aqueles que pertenciam a uma alta classe social, sendo vetada a prática por trabalhadores, pobres e negros.
Porém, isso não ocorreu por muito tempo, com a classe marginalizada vindo a criar alguns clubes no Brasil, sendo este o caso da Ponte Preta (SP), Ferroviária (SP) e da Desportiva Ferroviária (ES), os dois últimos criados por trabalhadores das ferrovias do Brasil.
José Luiz fala que, no contexto da prática do futebol na Grande Vitória, entre as décadas de 1910 e 1920, existiam algumas regras para que os atletas pudessem jogar. “Os jogadores tinham que pertencer a uma determinada classe social, tinham que estar em um clube e ter seus nomes aprovados para entrar na Associação. Ou seja, nós tínhamos uma classe muito dividida no esporte e lazer. No Brasil ainda é assim, o lazer e a prática esportiva são privilégios de apenas algumas partes da sociedade. Em Vitória, por ser banhada pelo mar, ainda vemos muitas pessoas praticando, mas em lugares que existem apenas clubes, se torna mais difícil”, diz o professor.
Entre as três primeiras décadas do século XX, houve uma grande avalanche na criação de clubes de futebol nos mais diversos estados do Brasil. Porém, naqueles onde a prática do Remo era popular, como do Rio de Janeiro e também do Espírito Santo, o futebol rivalizava consideravelmente com o esporte aquático.
“Até o final da década de 50, o remo foi um esporte muito conhecido e badalado e os praticantes do esporte eram também de classes sociais mais altas. Para algumas pessoas era muito interessante participar dos treinos de remo no Estado, pois, quando aconteciam as competições, os remadores do Rio de Janeiro viam até Espírito Santo e, com isso, era uma forma de manter uma relação com a alta classe carioca”, diz o professor.
Como o futebol capixaba se tornou o que ele é?
Com diversos clubes sendo criados pelo Brasil, em 1917 o Campeonato de Vitória foi criado, o que, mais pra frente, viria a ser o Campeonato Capixaba. No torneio, jogavam apenas as equipes da capital: América, Barroso, Moscoso, Rio Branco e o Vitória.
“É interessante pontuar, que diferente dos demais estados, no Espírito Santo não teve duas ligas ocorrendo ao mesmo tempo. O que observamos é que, no Espírito Santo, a classe trabalhadora não estava organizada para formar outra liga, pois onde teve organização as ligas aconteceram”, diz.
Com os primeiros clubes sendo criados, um novo espaço social surgiu, possibilitando que os clubes capixabas pudessem se desenvolver ainda mais, até chegar aos momentos de glória entre as décadas de 50 e 80.
De acordo com o historiador, desde 1959 o Espírito Santo tinha um representante no Campeonato Brasileiro, sendo este o Rio Branco. Em 1979, a competição contou com 94 participantes e três equipes capixabas representaram o Estado, sendo elas Desportiva, Rio Branco e Colatina.
Nos anos de 1980, 1983 e 1987 o Estado contou com um representante na primeira divisão e dois na segunda. A última vez que o Espírito Santo teve um time nas principais divisões nacionais foi em 1993, ou seja, há mais de 30 anos.
O professor analisa o porquê o futebol capixaba estar em estagnação. Segundo ele, nos últimos 20 anos de disputa dos campeonatos capixabas, é possível observar clubes tradicionais que mostram um bom desempenho, mas caem no ano seguinte, desaparecem e voltam a se configurar na primeira divisão alguns anos depois.
Segundo ele, isso acontece pela questão dos recursos que essas equipes recebem. Porém. quando os recursos acabam, o clube não consegue continuar se mantendo. “Isso acontece porque os clubes não tem uma estrutura esportiva para isso. Se não existir uma estrutura esportiva que dê conta de formar atletas e ter retorno financeiro, o clube sempre vai estar da mesma forma. Outro ponto que se observa é o imaginário dos jovens que pretendem ser jogadores. Eles não querem mais jogar no Espírito Santo, a ideia deles é sair do Estado para ir para as regiões onde o esporte é mais desenvolvido”, fala.
Ou seja, diversos fatores fizeram i futebol capixaba chegar ao que ele é hoje. “Primeiro, os trabalhos desenvolvidos pela Federação, segundo como as equipes capixabas veem o futebol e atuam e terceiro o apoio dado pela mídia. Então, eu acredito que ainda falta boa vontade dos dirigentes, pois, embora dito que é um trabalho profissional, é um pseudo profissionalismo”, finaliza José Luiz dos Anjos.









