Projeto no ES ajuda mulheres a reconstruir a vida com trabalho e independência financeira

Uma mulher chorando na rua, ao lado de um cachorro preso por uma corda, foi o ponto de partida de um projeto que hoje ajuda outras mulheres a recomeçar. A cena, presenciada em Vila Velha, marcou a empresária e mediadora de conflitos Simone Cunha e acabou dando origem ao Instituto Livres para Sonhar, iniciativa que oferece capacitação profissional, empreendedorismo e educação financeira para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ao longo do trabalho, Simone também costuma destacar e fortalecer sua experiência no incentivo ao empreendedorismo como caminho para transformação social na vida das mulheres atendidas e de seus familiares.

A mulher que chamou a atenção de Simone havia acabado de sair do presídio feminino de Bubu, em Cariacica, depois de cinco anos presa. Sem apoio da família e sem ter para onde ir, ela vagava pelas ruas com o cachorro, que, segundo contou, era “a única companhia que tinha na vida”.

“Eu fui para casa e aquilo não saía da minha cabeça. Comecei a pesquisar se existia alguma ONG voltada para pessoas egressas do sistema prisional e descobri que praticamente não havia iniciativas com esse foco”, lembra Simone, fundadora e hoje presidente do Instituto Livres para Sonhar.

Ao falar do projeto, Simone costuma reforçar que o empreendedorismo pode ser uma ferramenta real de mudança de vida, não apenas para as mulheres atendidas, mas também para os filhos e familiares que fazem parte desse processo de reconstrução.

A partir desse episódio, ela começou a estudar a realidade de mulheres que passam pelo sistema prisional e descobriu um cenário marcado pelo abandono. Segundo pesquisas analisadas pela equipe do instituto, cerca de 85% das mulheres presas não recebem visitas. Muitas acabam deixadas pela própria família e pelos companheiros.

Diante desse contexto, Simone decidiu mobilizar empresários, advogados e profissionais de diferentes áreas para criar uma iniciativa que pudesse oferecer oportunidades de recomeço. Assim nasceu o Instituto Livres para Sonhar, organização sem fins lucrativos que hoje reúne uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, advogados e voluntários. A proposta, segundo ela, é justamente fortalecer caminhos de autonomia por meio do trabalho e do empreendedorismo.

Do presídio para o recomeço

O primeiro passo do projeto foi dentro do próprio sistema prisional. Durante três meses, a equipe do instituto realizou encontros com mulheres que estavam prestes a deixar o regime fechado e seguir para o semiaberto ou aberto.

A ideia era trabalhar a conscientização e mostrar que a vida poderia continuar fora da prisão. Além das palestras, as participantes responderam a um questionário psicossocial que ajudou a identificar habilidades, sonhos interrompidos e expectativas para o futuro.

A partir desse diagnóstico nasceu uma nova etapa da iniciativa, voltada para a inclusão produtiva e financeira de mulheres em situação de vulnerabilidade social, sempre com foco no empreendedorismo como ferramenta de transformação social.

Oficinas para gerar renda

Uma das ações mais recentes do instituto é o projeto Livres para Empreender, que oferece capacitações práticas para que as participantes possam iniciar atividades geradoras de renda.

Entre as oficinas já realizadas estão cursos de corte e escova, confeitaria, maquiagem e aplicação de unhas em gel. Além da formação, as participantes recebem mentorias sobre gestão de negócios, marketing e formalização de empresas.

Esse modelo de atuação também reflete a experiência de Simone no incentivo ao empreendedorismo como estratégia para reconstrução de trajetórias de vida e fortalecimento das famílias.

Um dos diferenciais do projeto é que as mulheres também recebem kits com os materiais necessários para começar a trabalhar imediatamente após a conclusão dos cursos.

Segundo Simone, muitas chegam ao instituto enfrentando dificuldades básicas. “Nós percebemos que não bastava apenas capacitar. Algumas choram quando descobrem que vão ter café da manhã e almoço no dia do curso. Por isso também garantimos alimentação e o material para que elas realmente consigam começar a trabalhar”, afirma.

O resultado já aparece na prática. Em um dos cursos de unhas em gel, uma participante contou que havia feito agendamentos antes mesmo de iniciar a capacitação, acreditando que conseguiria começar a trabalhar logo depois.

“Ela disse que chegou apenas com uma agenda e esperança. No dia seguinte ao curso, já começou a atender as primeiras clientes”, relata Simone.

Educação financeira como ferramenta de autonomia

Parte das ações do projeto só foi possível graças ao apoio do Fundo Social da Sicredi Serrana. A cooperativa contemplou o Instituto Livres para Sonhar com recursos para a realização do projeto Livres para Empreender.

O investimento permitiu a realização das oficinas, mentorias e até pequenas melhorias na estrutura da sede do instituto para receber as participantes.

Outro ponto importante da parceria com a Sicredi Serrana é o apoio em educação financeira. O educador financeiro da cooperativa, Creciano Paiva, participa das atividades com palestras e orientações para fortalecer a organização financeira das participantes.

A proposta é ajudar as mulheres a administrar melhor os recursos e garantir sustentabilidade aos pequenos negócios que estão surgindo a partir das capacitações.

As palestras abordam temas como planejamento financeiro, organização de despesas e uso consciente do crédito.

Uma das apresentações mais recentes teve como tema crédito consciente para uma vida financeira sustentável, reforçando a importância do planejamento para quem está começando a empreender.

O sonho de multiplicar o projeto

Para Simone, o objetivo do instituto vai além da capacitação profissional. A proposta é resgatar a autoestima e incentivar novas perspectivas de vida.

“A gente começa trabalhando o sonho. Porque quando a pessoa volta a sonhar, ela passa a acreditar que pode construir algo diferente”, afirma.

Ela também destaca que o empreendedorismo tem papel central nesse processo de reconstrução. “Quando uma mulher consegue gerar renda, ela muda a própria realidade e muitas vezes transforma também a vida da família inteira”, diz.

A expectativa é que a iniciativa possa crescer e inspirar projetos semelhantes em outras regiões.

“Espero que essas mulheres possam se tornar agentes de transformação nas próprias famílias e comunidades. E que esse modelo possa ser replicado em outras cidades do Brasil”, diz.

Fundo Social apoia projetos sociais

No ano passado, 14 iniciativas da Grande Vitória foram selecionadas pelo Fundo Social 2025 da Sicredi Serrana, que destinou mais de R$ 500 mil para projetos sociais do estado.

As iniciativas foram divididas em três faixas de financiamento. Seis projetos receberam até R$ 15 mil, somando R$ 85.655. Outros quatro foram contemplados com valores de até R$ 50 mil, totalizando R$ 188.593,27. Já duas iniciativas receberam até R$ 100 mil cada, somando R$ 200 mil.

Ao todo, 63 projetos capixabas participaram da seleção, com propostas nas áreas de cultura, educação, inclusão social, empreendedorismo e geração de renda. As maiores destinações foram voltadas justamente para iniciativas com potencial de transformação social e estímulo ao empreendedorismo.

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