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A luta das mães em defesa da educação inclusiva

A maternidade é uma experiência repleta de desafios e emoções, mas para as mães atípicas esses desafios assumem uma dimensão ainda mais complexa. Quando o assunto é a inclusão escolar, mães de crianças e adolescentes autistas, com deficiência ou síndromes, enfrentam inúmeros obstáculos na tentativa de garantir o acesso de seus filhos a uma educação eficaz.

Muito embora existam leis que garantam que as pessoas com deficiência intelectual possam frequentar as turmas com pessoas sem deficiência, na prática, a falta de profissionais capacitados inviabiliza e dificulta o desenvolvimento dos indivíduos atípicos.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido como um distúrbio do neurodesenvolvimento, caracterizado por padrões de comportamentos repetitivos que compromete e causa dificuldade na comunicação e na interação social. Entender o diagnóstico e pesquisar sobre ele é uma das formas de oferecer mais qualidade de vida a quem o recebe – e a escola é responsável direta por boa parte do desenvolvimento de crianças e adolescentes com TEA. Quando se discute sobre o futuro de uma pessoa autista, sempre vem em mente o impacto que a falta da inclusão plena pode acarretar.

Mãe do Eduardo Santos da Silva Martins, um adolescente de 14 anos que se encontra no espectro autista de suporte 3, Gabriela Silva precisa, em todo início de ano letivo, solicitar inúmeras reuniões para garantir os direitos de inclusão do filho. “Ele sempre gostou de ir à escola, interagir com os colegas e nunca aceitou faltar aula, mesmo estando doente”, ressaltou.

Eduardo necessita ser acompanhado por um cuidador em tempo integral, além do suporte de um professor de Educação Especial, que é um profissional nem sempre disponível. “O Dudu, por ser suporte 3, não pode ficar sozinho por conta das crises e agressividade. Diferentes de muitos, eu procuro sempre proporcionar ao meu filho o melhor ambiente possível e não meço esforços para isso. Sou eu por ele, e ele por mim”, relatou.

A luta das mães em defesa da educação inclusiva
Foto: divulgação

Sem melhorias

2024 é o último ano de  Eduardo no Ensino Fundamental e, ao relembrar tudo o que vivenciou junto com ele, Gabriela não consegue identificar melhorias em relação a inclusão do aluno autista no ensino regular. “O que percebo é que, para o corpo escolar, incluir é só ter o aluno neuroatípico na escola, independente da sua garantia de aprendizado e desenvolvimento. Eles só são um número”, frisou.

Segundo ela, uma forma de mudar este cenário seria expandir a capacitação dos profissionais de educação para além dos professores. Ela acredita que esse treinamento precisar ser realizado por todos os profissionais que trabalham na escola, desde a portaria até a cozinha, independente do setor. “Enquanto não se pensar em inclusão num todo, envolvendo todos os aspectos e se preparando para adequar a escola para receber todas as pessoas, independentemente de serem atípicos ou não, nada irá mudar e só será mais do mesmo. Minha luta é por uma educação de qualidade e inclusiva”.

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Mais desafios do que avanços

O número de matrículas na educação especial saltou de 25,9 mil, em 2018, para 42,8 mil, em 2023, um aumento de mais de 65%. Os dados correspondem a 5% de todas as matrículas da educação básica e são referentes às redes pública e particular de todo o estado. Os resultados foram apontados pelo Censo Escolar 2023, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC).

Portador de deficiência visual por baixa visão, o doutor em educação Douglas Ferrari, contou que os principais desafios da inclusão deste público no ensino regular é a ausência da rede de apoio tanto para o estudante como para a família em diversas esferas sociais.

“É preciso ter uma rede de apoio por meio do serviço público, devemos sempre defender políticas públicas, num trabalho intersetorial e interdisciplinar entre os CRAS, comunidades de saúde e escolas”, pontuou.

O educador acredita que houve sim um avanço, porém mínimo, já que grande parte dos recursos da educação são drenados para a iniciativa privada (comunitária, particular e filantrópica). De acordo com o diário oficial, só no Espírito Santo, é previsto o repasse, pelo governo do estado, de 33 milhões de reais para 52 instituições filantrópicas de Educação Especial e 7 milhões para 437 escolas públicas da rede estadual.

“A conta não fecha! Neste ano, podemos observar que um valor voluptuoso vai ser direcionado para essas instituições que não fazem um trabalho pedagógico e sim clínico, foram que eles já recebem dinheiro da saúde e da assistência, entre outros”, contou.

Respeito, conscientização e aceitação

Ainda de acordo com o Censo, produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), não só no Espírito Santo, mas em todo o Brasil, as matrículas na educação básica — da educação infantil ao ensino médio — seguem crescendo. Em cinco anos, o aumento foi de 41,6%, saltando de 1,25 milhão em 2019 para 1,77 milhão em 2023.

A luta das mães em defesa da educação inclusivaO crescimento evidência a importância de se desenvolver cada vês mais ações educativas voltadas para a temática, haja vista que o preconceito ainda é um obstáculo recorrente às pessoas com autismo, o que dificulta ainda mais o processo de inclusão. É o que relata a técnica de enfermagem, Flávia Cristina Zardim, mãe da pequena Thalita, de apenas 5 anos, que possui autismo no grau de suporte 1.

Ela contou que a maior dificuldade que enfrenta quando o assunto é inclusão escolar é a aceitação das outras crianças que dividem a sala com sua filha. “Thalita é uma criança que apesar do TEA, demonstra muito carinho e afeto pelas pessoas. E vira e mexe chega chorando porque algum colega chamou ela de chata, não quis brincar com ela, não chamou ela pra rodinha ou disse não gostar dela. Como mãe dói, porque já pensamos como será para frente, quando ela passar a entender mais as coisas”, contou.

Questionada sobre os avanços, como mãe e profissional da área da saúde ela assegura ter conseguido observar muitas mudanças. Dentro da sua vivência, ela contou que passou por uma experiência muito ruim ao colocar sua filha em uma creche particular, onde era visível a falta de preparo dos profissionais. “Na escola pública que ela está atualmente, tem sido uma experiência muito boa”, pontuou

Assim como a grande maioria das mães que lutam por uma inclusão escolar efetiva para os seus filhos atípicos, Flávia também acredita que o ambiente escolar como um todo precisa de mais assistentes preparados para lidar com esse público. “Quando mais crianças atípicas juntas numa sala, maior a dificuldade de ensino, de atenção e de apoio”.

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